
A tese da “impossibilidade matemática” da vitória de Lula não tem pé nem cabeça: o segundo turno existe porque a virada é possível, e a queda da abstenção basta para explicar o resulta
1.
“Vexame” é a palavra que define a cartinha que o candidato derrotado Flávio Bolsonaro divulgou assim que se homiziou nos Estados Unidos. Ou melhor: “cartinhas”, no plural, já que foram se sucedendo versões, como se ele não tivesse sequer lido, antes de publicar, aquilo que o ChatGPT tinha escrito para ele. Corrigiu o brasão da República, acertou a grafia do nome do próprio país, passou de “presidente eleito” a “presidente”, de “presidente” a “líder”, se nunca deixar de ser apenas um mau perdedor.
A carta, em si, nem merece comentário, de tão tosca que é. Mas tem um ponto ao qual quero me referir, pela centralidade que tomou na narrativa golpista pós-segundo turno, que é a ideia da “impossibilidade matemática” da vitória de Lula.
Isso não tem pé nem cabeça. Se fosse impossível virar a votação, não seria necessário um segundo turno. Sim, cálculos simples mostram que o recuo da abstenção basta para ter produzido a votação de Lula. Mas, além disso, cabe sempre lembrar que o voto do primeiro turno não vincula o voto do segundo turno, isto é, o eleitor pode mudar sua escolha. Se Lula tivesse obtido 100% dos votos no segundo turno, poderíamos falar de uma “impossibilidade política”, mas não de uma “impossibilidade matemática”. A única impossibilidade matemática seria se ele tivesse obtido mais votos do que o total de eleitores registrados.
O fato é que, surpreendendo um total de zero pessoa, Flávio Bolsonaro priorizou escapar da justiça brasileira a liderar a direita. O que joga luz sobre todo o processo que o levou a ser candidato.
Quando Jair escolheu Flávio, a primeira impressão era de que se tratava de um factoide. Um sujeito fraco, frouxo, sem luz, com telhado de vidro muito evidente: por que ele? Além disso, parecia que, para o primogênito dos Bolsonaro, era mais negócio garantir uma eleição tranquila para senador, isto é, mais oito anos de foro privilegiado. E evitar a exposição que uma campanha presidencial inevitavelmente traria.
Bom, a exposição veio mesmo e nos fez entender. A amplitude e a gravidade dos esquemas em que Flávio Bolsonaro estava metido é tão grande que talvez o mandato de senador fosse insuficiente para protegê-lo. Ganhar a presidência era, portanto, um imperativo de autopreservação.
Não deu certo e ele teve que partir para esse exílio dourado nos Estados Unidos. Cabe agora à justiça brasileira proceder celeremente, ir atrás dos ativos em nome de Flávio Bolsonaro e de seus laranjas, congelar suas propriedades. Quem sabe, lá de Miami, ele acabará tendo que fazer o que nunca fez antes: trabalhar para ganhar a vida.
O vexame parece ter acelerado o processo de conversão da direita brasileira para o pós-bolsonarismo. É ilusório pensar que veremos magicamente surgir uma direita civilizada e respeitosa da democracia. O mais provável é que, com a erosão da liderança da família Bolsonaro, a gente veja um distanciamento, mas não uma real ruptura.
No momento, ainda é muito arriscado, do ponto de vista eleitoral, de fato romper. Temos aí os inúmeros exemplos de todos aqueles que tentaram esse passo e viram acabar as suas carreiras políticas: Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Otoni de Paula. Janaína Paschoal tentou manter uma posição de certa independência e também não se elegeu. Sérgio Moro, com a falta de dignidade que lhe é característica, voltou com o rabinho entre as pernas. E assim por diante.
2.
Assim, o caminho parece ser prestar uma homenagem ritual ao velho Jair Bolsonaro, mas ignorar sua liderança decadente. Mas não é só a homenagem ritual: ainda parece ser necessário entregar à base a dose de radicalismo a qual ela se acostumou.
Só que agentes políticos dotados de um mínimo de racionalidade pensam duas vezes antes de embarcar num projeto golpista derrotado de antemão. Depois do 8 de janeiro, tivemos um movimento similar, de recolhimento e afastamento de vozes importantes da direita bolsonarista. O movimento foi contido e revertido pela capacidade da direita barrar boa parte da resposta das instituições e emplacar, pelo menos para consumo próprio, o discurso de que aquilo não tinha sido uma tentativa de golpe. Mas, agora, o ChatGPT de Flávio Bolsonaro fechou essa porta.
Por isso, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, se apressou em reconhecer a vitória de Lula. Velho sobrevivente de muitas batalhas, nas quais sempre envergou as cores do fisiologismo mais desavergonhado, ele soube que era a hora de se desatrelar do candidato de seu partido. Tarcísio de Freitas, o governador de São Paulo, menos sábio, ecoou a cantilena de Flávio Bolsonaro num primeiro momento, mas já deu um passo atrás e também admitiu o resultado da eleição.
Rogério Marinho, o coordenador da campanha derrotada, declarou que não existe sinal de fraude. Sua cara de desalento na entrevista coletiva que concedeu após a fuga de Flávio Bolsonaro é impagável. É a prova provada de que o candidato derrotado prioriza seu interesse pessoal sem sequer conversar com os aliados mais próximos.
A imprensa notícia que já há parlamentares pensando em deixar o PL. Percebem que a liderança do clã está fazendo água, que veremos uma briga de foice no escuro para decidir quem vai herdar o espólio, entendem que estarão mais confortáveis se refugiando no Centrão. É um movimento muito positivo, nas atuais circunstâncias.
De muitas outras lideranças da direita, o que se vê é o silêncio. Michelle Bolsonaro usa o truque fácil de se refugiar na posição de “mulherzinha“, mais preocupada com o lar do que com a República. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, toda a tropa de choque digital do bolsonarismo simplesmente finge não ver o que está acontecendo.
Em questão de horas, Flávio Bolsonaro, com V de Vorcaro, passou de pretenso salvador do Brasil a lixo tóxico.
Envolvido com as eleições de meio termo, das quais provavelmente sairá derrotado, portanto mais preocupado com seu próprio projeto de golpe para não reconhecer o resultado, Donald Trump já deixou claro que terá um envolvimento mínimo no desenrolar dos acontecimentos brasileiros. Não quis isso faça a diferença, porque tudo indica que Flávio Bolsonaro já deu seu show e, daqui pra frente, também prefere imergir. A agitação provavelmente ficará nas mãos de seu irmão mais exaltado, o também foragido Eduardo Bolsonaro, e de blogueiros de segunda linha como Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, que não eram levadas a sério há muito tempo e que agora poderão ser pura e simplesmente ignorados.
Temos um outro front importante, que é o Judiciário. Kássio com K, o famoso KN das festinhas de Daniel Vorcaro, rapidamente abandonou o modo “capacho da família miliciana”, em que anunciava até que iria soltar Jair Bolsonaro para que subisse a rampa com o primogênito, e adotou o figurino de guardião das instituições republicanas. Não sabemos quanto tempo isto vai durar, mas mostra que Flavio Bolsonaro esticou tanto a corda que está comprometendo até mesmo sua bancada no STF.
LUIS FELIPE MIGUEL”BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)´
*Luis Felipe Miguel é professor titular de ciência política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica). [https://amzn.to/45NRwS2].