“AO FUGIR, FLÁVIO BOLSONARO CONFIRMOU QUE A SOBERANIA E A DEMOCRACIA ESTAVAM EM RISCO NO BRASIL”, AFIRMA A HISTORIADORA MÔNICA HIST

Mônica Hirst analisa impacto das eleições na democracia e no regionalismo latino-americano

A fuga do ex-candidato à Presidência do Brasil, Flávio Bolsonaro, logo depois da derrota nas urnas para o presidente Lula, confirma que a democracia e a soberania brasileira estavam em risco, na opinião da historiadora Mônica Hirst, que integra o prestigiado Conversatório Latino-Americano (Conlat). Em entrevista ao Brasil 247, Hirst disse que os fatos mostram o perigo que o país corria.

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Absurdo

Especialista em política exterior, ela observa o ineditismo da fuga de Bolsonaro do Brasil. E chama a situação de “bizarra”.

“Como é que pode? Que o candidato da direita, no dia seguinte da eleição, fuja para os Estados Unidos? Não existe possibilidade de ele se sentir seguro no Brasil porque ele tem questões na Justiça para resolver? Ele está desmerecendo a importância da Justiça? Coloca então a questão da Justiça nas mãos do governo americano? É uma coisa bizarra”.

Lula e a ‘reconexão’ regional

Acadêmica reconhecida na América Latina e em outras regiões, Hirst entende que a eleição do presidente Lula é uma oportunidade renovada para que os países latino-americanos voltem a ter um diálogo mais fluido e intenso, apesar das diferenças ideológicas. “Um sinal muito positivo, civilizado, diria, foi a reação dos presidentes da direita da região, parabenizando o presidente Lula pela eleição. É um muito bom sinal”, disse.

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O que seria importante regionalizar?

A especialista do Conlat observou que a América Latina vive atualmente uma situação de fragmentação e que a eleição de Lula é também uma oportunidade para a intensificação do diálogo e da retomada de agendas comuns que atendam principalmente aos mais frágeis.

“Nós nunca tivemos uma situação na região tão precária em matéria de instituições regionais, em matéria de projetos regionais, de realizações regionais. Nós realmente estamos passando por uma etapa de muito empobrecimento, de muita precarização do ponto de vista do que podemos chamar de regionalismo latino-americano e caribenho. Nós precisamos falar sobre isso”.

“Soberania e democracia” no Rio de Janeiro

Nos dias 12 e 13 de novembro, “soberania e democracia” serão os temas do encontro do Conlat, no Rio de Janeiro. Assuntos oportunos em tempos de Donald Trump na Casa Branca e depois das ratificações públicas do presidente Lula sobre a soberania brasileira, que tiveram forte respaldo da população nacional e de líderes da região. “Nós estamos, como região, muito fragmentados. A polarização ideológica se deu, nos últimos tempos, dentro dos países e entre os países, e ela foi muito nociva para as relações e precisamos superar essa etapa”, disse Hirst.

Conlat

O Conlat é formado por quatro instituições acadêmicas — IESP-UERJ, do Brasil, Universidade Di Tella, da Argentina, UniAndes, da Colômbia, e Colégio do México.

“O Conlat é um conversatório. Nós precisamos trocar não só impressões entre nós, mas visões estratégicas. O que é que a gente faz com essa realidade, como é que a gente dá o passo adiante, como é que a gente se ajuda, em termos regionais, como que a gente cria e expande um espaço de cooperação, de sinergia?”.

Pragmatismo

A especialista entende que a eleição do presidente Lula abre um novo horizonte para as relações na América Latina.

“Acho que há espaço para uma visão mais pragmática, uma visão que trabalhe de forma construtiva com aquilo que podemos fazer juntos. Não precisamos fazer tudo juntos na América Latina. Mas podemos avançar. E acho que o Conlat quer isso, e não somente entre acadêmicos, diplomatas. Mas com a sociedade, os movimentos sociais, a imprensa. Enfim, trabalhar de uma forma coordenada. Sempre olhando para aqueles segmentos mais vulneráveis. A gente espera que a reunião de novembro seja muito produtiva”.

Progressismo

Mônica Hirst entende que o segundo turno da eleição brasileira mostrou que a defesa da democracia ganhou ainda maior impulso. “A defesa da democracia, a agenda social, as soluções que não passam necessariamente pela força, pela violência, pelo ódio. Acho que é uma construção que ganha mais força e que nos espera daqui para frente”, disse.

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A juventude e o desafio do Congresso adverso

A militância inédita registrada na eleição brasileira em defesa da democracia e pela eleição do presidente Lula foi vista por ela, como historiadora, como algo extremamente positivo. “Eu estou feliz de ver história. História é isso, é quando realmente as coisas se dão, se transformam e se transformam de maneira inesperada. Tem essa beleza”. O despertar, como definiu, da sociedade brasileira foi histórico. Mas entre um Congresso Nacional com forte presença da direita e da extrema-direita e um passado vinculado aos pensamentos e atitudes que não fazem parte do campo progressista haverá muitos desafios pela frente.

“Eleição de Lula é sopro de esperança”

“A eleição de Lula é um sopro de esperança e de energia política. A eleição de Lula abre espaço para construir novos projetos. Mas a esquerda, o campo progressista, precisa debater e avançar nas agendas de atenção à pobreza, à desigualdade e ao grande problema da insegurança pública”, disse. Mas a eleição de Lula, entende, é uma chance para tudo isso e uma melhor relação, mais fluida, com os vizinhos do Brasil e o fortalecimento do Sul Global. “As democracias da América Latina e do Caribe têm uma trajetória sólida e de respeito ao Estado de Direito e estas são boas notícias no contexto do Sul Global. São pilares importantíssimos”.

MARCIA CARMO ” BLOG BRASIL 247″ ( ARGENTINA / BRASIL)

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