BOLSONARISMO COMO HERDEIRO DO FASCISMO E INTEGRALISMO

O bolsonarismo recupera e ressignifica elementos presentes no integralismo brasileiro, especialmente o nacionalismo excludente, o anticomunismo, o conservadorismo moral, a valorização da autoridade e a construção de inimigos internos

“A liberdade e a libertação são tarefas sem fim” (Umberto Eco).

Tendo em vista que o principal apoio internacional do bolsonarismo ficará no mínimo enfraquecido com a esmagadora derrota de Donald Trump na eleição de meio de mandato nos EUA, e levando em conta a derrota de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial, é hora de retomar a discussão sobre a natureza e o destino do bolsonarismo no Brasil.

Ao contrário de alguns autores que destacam o caráter inédito do bolsonarismo no Brasil, entendo ser mais adequado afirmar que o bolsonarismo é o integralismo ressignificado pelo neoliberalismo. A linha reta que liga o integralismo ao bolsonarismo foi interrompida e redirecionada pelo neoliberalismo.

Assim, a proposta de Estado forte herdada do fascismo clássico pelo integralismo se transforma, por influência do neoliberalismo, em prioridade ao mercado e às ações individuais, restando ao Estado uma política repressiva nas áreas de segurança, cultura, educação e outras de caráter não diretamente econômico.

A reflexão de Umberto Eco sobre o chamado fascismo eterno constitui uma importante referência para compreender o crescimento da extrema direita na contemporaneidade e, particularmente, o fenômeno do bolsonarismo no Brasil. Em seu ensaio O fascismo eterno (1995), Umberto Eco argumenta que o fascismo não deve ser entendido apenas como uma experiência histórica delimitada, associada aos regimes de Mussolini e Hitler, mas como uma mentalidade política capaz de reaparecer em diferentes contextos, adaptando seus discursos, símbolos e estratégias às circunstâncias de cada época.

A partir dessa perspectiva, o bolsonarismo pode ser analisado como uma manifestação contemporânea de autoritarismo que recupera e ressignifica elementos do integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista surgido na década de 1930. Entretanto, essa relação não representa uma reprodução direta do integralismo, mas a atualização de determinados valores nacionalistas, conservadores, anticomunistas e autoritários em um contexto marcado pelo neoliberalismo, pela crise de representação política e pela expansão das tecnologias digitais.

Uma das principais características dessa atualização é a combinação entre a defesa de um Estado forte na segurança, na disciplina social e na imposição de valores morais conservadores e, simultaneamente, a defesa de um Estado reduzido em suas responsabilidades econômicas e sociais. Essa articulação permite compreender tanto as especificidades do bolsonarismo quanto sua permanência na política brasileira para além de uma liderança individual.

Em sua análise, Umberto Eco identifica quatorze características do que denomina “Ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”. Entre elas estão o culto à tradição, a rejeição do pensamento crítico, o medo da diferença, o nacionalismo, a valorização da ação em detrimento da reflexão, a construção de inimigos internos e o culto a um líder apresentado como representante exclusivo da vontade popular.

Essas características não precisam aparecer simultaneamente nem reproduzir exatamente os modelos fascistas do século XX. Sua permanência ocorre justamente pela capacidade de adaptação a diferentes realidades históricas. No bolsonarismo, podem ser identificados elementos dessa mentalidade política, especialmente na construção de uma sociedade dividida entre aqueles considerados defensores da nação e grupos apresentados como ameaças aos seus valores.

A esquerda, o comunismo, os movimentos sociais, as universidades, a imprensa e as instituições democráticas foram frequentemente associadas a supostos projetos de destruição da ordem nacional.

Outro elemento é a centralidade da figura do líder. Jair Bolsonaro construiu sua identidade política apresentando-se como alguém externo ao sistema tradicional, capaz de representar diretamente o povo e combater os inimigos que, segundo essa narrativa, controlariam as instituições. Essa personalização da política aproxima-se do culto ao líder identificado por Umberto Eco.

Também se destaca a valorização de uma tradição nacional associada à família patriarcal, ao cristianismo conservador, à autoridade militar e à defesa de uma ordem social hierarquizada. Dessa forma, o bolsonarismo atualiza características do fascismo eterno por meio de discursos religiosos, nacionalistas, anticomunistas e contrários ao pluralismo democrático.

O integralismo como matriz histórica do bolsonarismo

A compreensão das raízes históricas do bolsonarismo exige recuperar a experiência da Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado. Principal movimento de inspiração fascista organizado no Brasil, o integralismo defendia o nacionalismo exacerbado, o anticomunismo, a hierarquia social, a autoridade e a organização da sociedade em torno de um Estado forte. Seu lema, “Deus, Pátria e Família”, sintetizava seus principais valores políticos e ideológicos.

O integralismo apresentava-se como alternativa tanto ao liberalismo quanto ao comunismo. Rejeitava o individualismo liberal e combatia o socialismo, propondo uma organização autoritária baseada na unidade nacional, na disciplina e na subordinação dos interesses individuais a um projeto coletivo.

É possível identificar aproximações entre essa matriz ideológica e o bolsonarismo, especialmente na recuperação do lema integralista, na valorização das Forças Armadas, no conservadorismo religioso, no anticomunismo e na representação da esquerda como inimiga da nação. A idealização de um passado nacional supostamente mais ordeiro e a desconfiança em relação ao pluralismo também constituem pontos de aproximação.

Entretanto, não se deve estabelecer uma identidade absoluta entre os dois movimentos. O integralismo possuía uma estrutura organizacional e uma concepção de Estado próprias da década de 1930, enquanto o bolsonarismo reúne diferentes segmentos sociais, como militares, empresários, grupos religiosos, setores das classes médias e militantes digitais. Sua unidade depende menos de uma doutrina sistematizada do que de valores compartilhados, identificações políticas e inimigos comuns.

A principal diferença encontra-se na dimensão econômica. Enquanto o integralismo defendia um Estado nacional forte, centralizador e corporativista, o bolsonarismo incorporou uma agenda neoliberal. Privatizações, austeridade fiscal, desregulamentação e redução das políticas públicas passaram a integrar seu projeto econômico. Assim, preservam-se elementos autoritários e conservadores do passado, mas reorganizados em torno de uma concepção econômica distinta.

O neoliberalismo e a ressignificação do integralismo

A associação entre bolsonarismo e neoliberalismo representa uma das características centrais do fenômeno. Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a agenda econômica foi marcada pela defesa das privatizações, pela reforma da Previdência, pela flexibilização de normas trabalhistas e ambientais e pela contenção dos gastos públicos.

Entretanto, a redução do Estado não significou o desaparecimento de sua capacidade de intervenção. O Estado neoliberal transforma suas prioridades: reduz sua responsabilidade na garantia de direitos sociais e na redistribuição de renda, mas permanece atuante na proteção da propriedade privada, na organização do mercado, na manutenção da ordem e no controle social. Sua dimensão social e redistributiva é restringida, enquanto suas funções coercitivas, policiais e de manutenção da ordem podem ser fortalecidas.

Essa contradição permite compreender como o bolsonarismo combina a defesa da liberdade econômica com a reivindicação de maior autoridade estatal na segurança pública e na imposição de valores morais conservadores. A liberdade é valorizada principalmente no campo econômico, mas convive com discursos que procuram restringir direitos relacionados à diversidade, à educação, à cultura e aos costumes.

Além disso, o discurso neoliberal tende a deslocar a responsabilidade pelos problemas sociais das estruturas econômicas para os indivíduos, apresentando a desigualdade como resultado de escolhas pessoais ou de uma suposta dependência excessiva do poder público. Paralelamente, o discurso autoritário oferece explicações simplificadas para problemas complexos, identificando inimigos internos e prometendo restaurar uma ordem considerada ameaçada.

Portanto, a ressignificação do integralismo pelo bolsonarismo não consiste na recuperação integral de seu projeto econômico, mas na preservação de mecanismos de exclusão, hierarquização e mobilização autoritária, agora articulados à racionalidade neoliberal.

A permanência do bolsonarismo: enfraquecimento eleitoral ou transformação política?

A permanência do bolsonarismo para além da Presidência de Jair Bolsonaro demonstra que o movimento não está limitado à figura de seu principal líder. Os acontecimentos posteriores às eleições de 2022, especialmente os atos de 8 de janeiro de 2023, quando grupos de apoiadores invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, evidenciaram a continuidade de uma mobilização política marcada pela contestação das instituições democráticas e pela rejeição dos resultados eleitorais.

O movimento também manteve sua presença institucional por meio do Partido Liberal (PL), de lideranças religiosas, parlamentares, influenciadores digitais e diferentes setores conservadores que asseguraram a sobrevivência e reorganização do movimento para além de seu principal representante. Os resultados eleitorais de 2026 também permitem observar essa permanência.

A derrota de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial para Lula demonstrou, entre outros fatores, os limites eleitorais da tentativa de continuidade familiar. Entretanto, a votação expressiva alcançada pela candidatura bolsonarista, próxima de 60 milhões de votos, evidencia a manutenção de uma base social significativa.

A derrota na disputa presidencial não significa necessariamente o desaparecimento do bolsonarismo, pois o conservadorismo permanece influente na política brasileira, com presença de representantes no Legislativo, em governos estaduais e municipais, e a circulação de discursos antissistema nas redes sociais.

Esses elementos favorecem a reprodução de uma cultura política bolsonarista. A derrota eleitoral de seu representante familiar pode abrir espaço para disputas pela liderança da direita, sem necessariamente eliminar a identidade política construída em torno do bolsonarismo.

Assim, é importante distinguir o enfraquecimento de uma liderança específica da permanência de um fenômeno social e ideológico. O bolsonarismo representa não apenas uma organização eleitoral, mas uma identidade política associada ao conservadorismo nos costumes, ao antipetismo, ao nacionalismo de direita, à desconfiança das instituições e à valorização de lideranças personalistas.

A análise do bolsonarismo a partir da noção de fascismo eterno de Umberto Eco permite compreender como práticas autoritárias podem permanecer na sociedade mesmo após a derrota de governos e lideranças políticas. Essas práticas adaptam seus discursos e estratégias às transformações econômicas, culturais e tecnológicas.

O bolsonarismo recupera e ressignifica elementos presentes no integralismo brasileiro, especialmente o nacionalismo excludente, o anticomunismo, o conservadorismo moral, a valorização da autoridade e a construção de inimigos internos. Sua especificidade histórica, entretanto, está na articulação desses elementos com o neoliberalismo, que redefine as funções do Estado, restringindo sua atuação social e redistributiva, mas preservando e fortalecendo suas dimensões repressivas e de manutenção da ordem.

Os acontecimentos políticos recentes em relação ao bolsonarismo demonstram que sua permanência eleitoral, parlamentar e cultural revela a consolidação de uma identidade política que ultrapassa os limites de uma candidatura ou de uma organização partidária. Assim, um dos principais desafios para a democracia brasileira está na naturalização de práticas e valores autoritários de extrema direita dentro do próprio sistema democrático.

Quando o antipluralismo, a intolerância, o descrédito das instituições e a deslegitimação dos adversários passam a ser incorporados como elementos normais da disputa política, criam-se condições para a reprodução daquilo que Umberto Eco denomina fascismo eterno.

Conclui-se, portanto, que o bolsonarismo não pode ser considerado definitivamente superado por suas derrotas eleitorais. Sua trajetória expressa contradições estruturais da sociedade brasileira, especialmente a desigualdade social, a fragilidade da cultura democrática e a articulação entre interesses econômicos neoliberais e conservadorismo autoritário.

Como adverte Umberto Eco, o fascismo não precisa retornar com os mesmos símbolos e instituições do passado: pode reaparecer sob discursos de liberdade, defesa da família, patriotismo e combate aos inimigos da nação. Reconhecer essas continuidades históricas é fundamental para compreender os desafios contemporâneos da democracia brasileira.

LISZT VIEIRA ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de Fragmentos de um discurso ecológico (Editora Gaia). [https://link.amazon/B007S6fn6]

← →

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *