
Diante do intolerável, a campanha virou multidão: ruas e algoritmos como um só sistema nervoso, do Exército do Lula à indignação esclarecida, mas sem soberania sobre as plataformas, resta reabrir Junho de 2013 para disputar o futuro em vez de apenas surfar a onda
O termo “psicose coletiva” foi repetido em posts e memes para descrever a ansiedade aguda, a hipervigilância e o esgotamento emocional após o primeiro turno entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Quando Lula ficou atrás e constatamos que um projeto de Brasil poderia, como em 2018, guinar catastroficamente para a extrema direita, algo aconteceu.
Em um país polarizado, no qual a direita passa a controlar, a partir de 2027, 64% do Senado e 59% da Câmara, as eleições entraram em estado de urgência e contágio afetivo. O campo progressista e as esquerdas produziram aquilo que Deleuze chama de um “acontecimento”: quando o intolerável deixa de ser suportável e precisamos romper a “normalidade” para redistribuir os desejos e agir.
Podemos nomear essa experiência de Outubro das multidões, Jornadas de outubro de 2026, Virada, Levante da juventude ou manifestações de outubro.
Tomar as ruas, os algoritmos e os memes de produção
A sociedade tomou a campanha para si, passou a fabricar imagens, inventar palavras de ordem, trazer o humor, os memes e a zoeira, improvisar linguagens e fazer das ruas uma imensa superfície de comunicação e experimento político.
Quando Lula apareceu em 7 de outubro segurando o próprio celular e dizendo “bora, gente, pra rua”, a campanha institucional incorporou uma gramática que já circulava fora dela: o vídeo selfie, a autoexpressão. O vídeo, o meme e a declaração para os eleitores precisam ser apropriáveis, repetíveis, remixáveis, colocados novamente em circulação por milhares de pessoas.
A primeira barreira ao avanço da extrema direita seria produzir uma onda ao mesmo tempo coordenada e ingovernável, um movimento multitudinário, heterogêneo e vivo. Não apenas as mesmas palavras de ordem ou os feitos já realizados, mas um horizonte de devir e de futuro.
Golpismos, discursos de desestabilização das instituições, racismo, machismo, pânico moral, uso da religião como domínio político e capitalismo algorítmico estão enraizados no tecido social. A todo momento precisamos de uma cola para produzir coesão em tantas fissuras.
Como resolver o paradoxo de coordenar uma multidão de 10 milhões de pessoas em um grupo de WhatsApp e, simultaneamente, descentralizar e perder o controle? Como transformar um surto e um susto coletivo em algo programático?
É essa passagem, da campanha dirigida à campanha atravessada por uma multidão, que elegeu Lula para seu inédito quarto mandato. A virada mobilizou estudantes, fandoms, torcidas, idosos, ativismos de nicho e eleitores que rejeitam o bolsonarismo, além de mídias independentes, do jornalismo investigativo ao humor, do ninjismo ao janonismo: o Exército do Lula digital, comandado por André Janones.
A onda encontrou obstáculos, da trava da Meta para postagens ao boicote de ônibus no dia da votação, mas produziu uma virada extraordinária: 64.256.232 votos para Lula no segundo turno, sabendo que será, aos 81 anos, sua última eleição.
Da crise da representação à campanha-multidão
Junho de 2013 e Outubro de 2026 repetem formas inquietantes de mobilização, mas seria um equívoco tomar a semelhança das linguagens por identidade dos projetos políticos. Junho fez explodir pautas e recusas, em tensão com partidos e representação; Outubro combina energia heterogênea e objetivo eleitoral em torno de Lula.
O problema da representação não desaparece: muda de posição no interior do acontecimento. Os “desorganizados”, que em 2013 se organizavam no Facebook, agora usam Instagram, WhatsApp, TikTok, X e YouTube. Em Junho, coletivos produziam aquilo que chamávamos de enxameamento: atos multiplicados sem comando único. Em Outubro, manifestações estudantis, artistas, criadores de jingles, indígenas, ribeirinhos e iniciativas de mobilização ancestral e digital tampouco esperaram sempre a orientação central da campanha.
Esse “arco da aliança” trouxe a força das mídias independentes: Mídia NINJA, Revelando.Brasil, ICL Notícias, The Intercept Brasil, Revista Fórum, Lupa, Aos Fatos, perfis de humor e tantas redes de investigação, checagem, memes, música e zoeira.
O novo está na coexistência desses multiversos e na sincronicidade das “bolhas”: pequenos grupos capazes de convocar, propor linguagens, agir por iniciativa própria e, em outras ocasiões, sob comandos coordenados. A campanha oficial se manteve organizada, mas tornou-se porosa. A campanha oficial perdeu a exclusividade, não necessariamente o controle.
Lula, o “presidente analógico” que dizia não usar celular, atravessou a quarta parede da tela. Sempre foi, de certa forma, o meio e a mensagem, mas passou a comunicar o que chamo de “vida-linguagem”: o corpo que fala, a afetividade que transborda, menos um populismo digital do que um popular pop, um digital atravessado pela oralidade.
O Exército do Lula – como adestrar o algoritmo
A guerrilha digital de André Janones produziu uma mudança tática profunda. Em vez da resposta institucional e da temporalidade lenta da checagem, passou a operar por antecipação, conflito, expectativa, suspense e linguagem coloquial. Anúncios de revelações, provocações e contradições do adversário: tudo para ocupar o fluxo antes favorável à extrema direita.
O apoiador passa a ser simultaneamente eleitor, produtor, editor e distribuidor: do eleitor como “público-alvo” ao eleitor como infraestrutura comunicacional. A campanha somos nós! A sacada de André Janones foi produzir uma ação coordenada fora da linguagem partidária tradicional, sem perder o objetivo eleitoral.
O Exército do Lula, canal de WhatsApp administrado pelo deputado, chegou a mais de 10 milhões de seguidores em 23 de outubro. Era uma tensão entre autonomia e convergência, uma pedagogia digital fulminante que ensinou como “adestrar” o algoritmo e produzir sincronicidade.
Ações simples: curtir, comentar, assistir aos vídeos até o fim, salvar, subir hashtags no mesmo horário, seguir perfis progressistas #esquerdasegueesquerda e cumprir missões diárias de postagem. Tudo impulsionado por um “algoritmo humano”, Janones, que comandava aos berros de “Pessoal, urgente!” e “Explodam!”, produzindo um estado alterado de disponibilidade.
Já não se tratava apenas de consumir o fluxo, mas de intervir deliberadamente nele. A metáfora deleuziana de surfar a onda ajuda a entender a operação, mas exige uma ressalva: nas sociedades de controle, o surfe também é imagem da modulação permanente, da obrigação de adaptar-se a fluxos que não controlamos. Surfar não é construir um muro contra o algoritmo: é insinuar-se nele, usar sua energia, deslocar a pauta. Precisamos também furar a onda e, mais difícil ainda, inventar outras.
O sequestro da bandeira brasileira pelo bolsonarismo havia sido traumático; a resposta foi inundar o feed com camisas da seleção, roupas verde-amarelas e o gesto em L.
Uma ação especialmente mudou minha visão de guerrilha midiática: os apelos de André Janones para não comentar, não repercutir, não engajar perfis de extrema direita. Mas talvez estivéssemos diante de uma diferença decisiva entre confronto político e alimentação algorítmica do conflito.
Não é necessário oferecer nossa indignação como combustível gratuito às narrativas adversárias. Mas não engajar não pode significar não conhecer, não investigar nem contestar uma falsidade. O silêncio tático diante de um post não deve virar bolha impermeável à crítica.
A imagem e a visibilidade são capitais preciosos a serem geridos numa eleição e para além dela.
Economia narrativa – da indignação moral à indignação esclarecida
Há algo profundamente incômodo quando a imprensa brasileira e a mídia global transformam as bravatas de Donald Trump e as atrocidades ditas por Jair, Flávio Bolsonaro ou Nikolas Ferreira em caça-cliques e numa campanha involuntária de propagação dos extremismos.
Uma economia narrativa da provocação e do escândalo colocou a extrema direita como protagonista permanente do noticiário. Há coberturas jornalísticas que amplificam e naturalizam a desinformação em nome de uma equivalência inexistente entre enunciados, que no limite se torna antiética.
André Janones, Mídia NINJA, Revelando Brasil e 342Artes buscaram o viral associado a pautas reais e propostas de Lula, diferente das campanhas de indignação moral. O vídeo de Nikolas Ferreira sobre “O Nordeste que foi esquecido” tornou-se exemplar: uma superprodução com teleprompter e enquadramentos escolhidos para mostrar pobreza e sofrimento e produzir ressentimento contra Lula.
Quando os bastidores das filmagens circularam e moradores contestaram a imagem de um Nordeste miserável e passivo, a indignação mudou de objeto e voltou-se contra o olhar que transformava o Nordeste em cenário de miséria. Voltou-se contra o olhar que transformava a região em cenário de miséria para fins eleitorais.
A comunicação foi mais inventiva quando não respondeu apenas “Nikolas está errado”, mas produziu paródias, memes e zoeiras que expunham a moralidade escondida no enquadramento. Da indignação moral se produziu uma indignação esclarecida: não apenas disputar o escândalo, mas revelar quem o construiu, de que lugar fala e para que serve. Essa é a diferença entre surfar o algoritmo e envenenar o mar de informações com fake news, cinismo e vale-tudo.
A visibilidade das multidões
Outubro foi também um levante da juventude, vetor de aceleração e urgência. A disponibilidade dos estudantes para ir imediatamente às ruas depois do resultado-catástrofe para Lula no primeiro turno foi decisiva.
Mas a campanha-multidão não foi movida apenas pela juventude. Uma das imagens mais comoventes foi a dos idosos: avós levados por filhos e netos, alguns com dificuldades de locomoção, fazendo questão de votar sem obrigação legal. Há algo extraordinário nesse encontro entre gerações: jovens que inventam linguagens e idosos que carregam a memória de vidas e lutas. Uma multidão intergeracional.
A sequência das manifestações desembocou, em 18 de outubro, no Ato Musical pela Democracia, em Copacabana. Convocado por Caetano Veloso e Paula Lavigne, organizado pelo 342Artes e pela Mídia NINJA, reuniu Caetano, Djavan, Xamã, Frejat, Marina Sena, Duda Beat, Ivan Lins e Fernanda Abreu. Não foi apenas um espetáculo: MPB, Tropicália, samba, pagode, rock, rap, funk, bandeiras LGBTQIA+, cartazes e corpos de diferentes idades transformaram a Avenida Atlântica em experiência comum.
Os Atos pela Democracia, do Rio a Salvador, do rap periférico paulistano ao samba na Lapa, foi articular cultura, ruas e comunicação como dimensões simultâneas da ação coletiva. As manifestações ocorreram em mais de 600 cidades brasileiras, capitais e interior, numa capilarização territorial inédita.
O 342Artes converteu laços culturais em convocatória pública; a Mídia NINJA atuou na mobilização, cobertura ao vivo e circulação de imagens. Não há mais separação entre convocação e narração.
A rua produz imagens; as imagens tornam a rua reconhecível; essa visibilidade retorna às redes e pode produzir uma “cola” coletiva. Redes e ruas têm um só sistema nervoso, um só transe.
O estado maníaco deste segundo turno tem produzido uma síndrome de abstinência pós-eleições: de posts, memes, músicas e principalmente jingles. Em 2026, deixaram de ser apenas trilha oficial de campanha e viraram armas meméticas: pedaços curtos, repetíveis, remixáveis, fáceis de circular no Instagram, TikTok, WhatsApp, Reels e ruas.
“Bora Lula”, “Rap do Silva” e jingles como “Tariflávio” mostraram que a música funcionou como dispositivo de mobilização, deboche e fabricação de pertencimento. Mais do que convencer por argumento, condensavam posições políticas em refrões, afetos e ritmos reconhecíveis: uma batalha também sonora, capaz de transformar campanha em cultura popular.
No campo pró-Lula, jingles e paródias circularam de forma distribuída e memética, numa rede afetiva. No campo de Flávio Bolsonaro, o sertanejo concentrou a mobilização artística mais visível, reforçando uma identidade cultural organizada.
Tomei um susto quando vi o próprio Lula agradecendo aos fandoms numa manifestação na Avenida Paulista! Junho de 2013 havia produzido cartazes escritos à mão, enunciados singulares, fantasias e vídeos que escapavam à uniformidade. Outubro atualiza isso com selfies, inteligência artificial, memes, hashtags sincronizadas, collabs e performances de fãs.
Comunidades de BTS (ARMYs), Taylor Swift (Swifties), Beyoncé (BeyHive), Lady Gaga, Anitta e BLACKPINK articularam o Fandoms com Lula, reunindo principalmente jovens, mulheres e pessoas LGBTQIA+. Vieram mutirões digitais, missões gamificadas, fanarts e paródias com IA: “Taylula”, “Super Lula” em anime e remixes do “Pessoal, urgente!” de André Janones.
Os fandoms trouxeram saberes aperfeiçoados durante anos: edição de vídeos, tradução colaborativa, hashtags, distribuição de tarefas e redes de confiança. Não se deve confundir o apoio de fãs com endosso do artista nem imaginar uma fanbase homogênea. A militância não nasce apenas onde há diretório ou assembleia, mas também onde existem vínculos duradouros e capacidade de agir em comum.
A Revolução não será impulsionada
Hoje as plataformas decidem o alcance por modelos opacos, impõem formatos e reservam para si o poder de alterar ou interromper distribuições. A mídia-multidão conquistou capacidade de produzir narrativas, mas não soberania sobre as infraestruturas que as fazem circular.
Essa contradição se tornou explícita na disputa entre a campanha de Lula e o não impulsionamento de posts pela Meta. A coligação denunciou restrições de distribuição e problemas na publicidade eleitoral; o TSE exigiu esclarecimentos. A Meta reconheceu falhas técnicas, bloqueios indevidos e desativação temporária de uma conta de anúncios, mas negou favorecimento deliberado a qualquer candidato.
O reconhecimento dos erros não dissolve a questão política: as condições de visibilidade de uma eleição dependem de sistemas privados conhecidos apenas parcialmente. Não disputamos somente o direito de falar. Disputamos quem aparece, para quem, em que ritmo e com que intensidade. Um meme foi ao ponto: “A Meta é enlouquecer a Meta”.
A inteligência artificial radicaliza a questão. Se em Junho de 2013 o streaming interpelava o monopólio da imagem e do testemunho, em 2026 a disputa envolve o estatuto do próprio visível. A imagem pode ser registrada, recombinada, produzida sinteticamente ou acusada de ser sintética mesmo quando é verdadeira. O projeto VigIA, da Agência Lupa, encontrou 554 publicações com deepfakes no período monitorado antes do primeiro turno.
A inteligência artificial permitiu paródias, criação estética e novas formas de expressão, mas também pode falsificar vozes, inventar cenas e fabricar evidências. Ameaça a confiança pública não só pela mentira bem produzida, mas pelo álibi de que toda imagem inconveniente seria artificial.
Uma controvérsia com a Meta AI no WhatsApp condensou o problema: imagens sobre Lula e o 13 foram bloqueadas em testes que tiveram resultados diferentes para Flávio Bolsonaro e o 22. A Meta reconheceu falha técnica e afirmou tê-la corrigido. As máquinas processam desejos, mas também restringem, geram viés e aceleram cenários.
O Brasil não viveu esse outubro isoladamente. Na França, manifestações estudantis por condições dignas de educação dialogaram com mobilizações contra o custo de vida. Não há uma onda ideológica unificada, mas uma constelação de impasses históricos e invenções de linguagem.
Paris oferece uma imagem instigante. Bandeiras de One Piece, referências a Naruto e Dragon Ball, super-heróis e games encontraram a memória de Maio de 1968 e das revoluções francesas. A historiadora Ludivine Bantigny chamou atenção para uma formulação radical: esses jovens desejariam não apenas mudar a vida, mas “quitter l’époque contemporaine”, sair da época contemporânea.
A força da frase está na hipótese de que reivindicações por escolas, salários e moradia convivem com a recusa de um mundo que reduziu o futuro à repetição da crise.
Reabrir Junho?
A pergunta francesa pode ser deslocada para o Brasil: e se, em vez de abandonar a época contemporânea, fosse necessário reabrir as promessas de suas revoluções interrompidas? Samuel Hayat, ao refletir sobre Outubro em Paris, propõe reabrir, e não simplesmente encerrar, a época contemporânea.
Eis o problema que Junho de 2013 nos devolve: é possível reabrir suas potências sem reproduzir as condições que permitiram a apropriação de parte daquela insubordinação pela extrema direita?
Junho nasceu de conflitos urbanos, da luta contra o aumento das tarifas e da violência policial, especialmente a repressão de 13 de junho em São Paulo. A mídia-multidão não apenas registrava essa abertura: produzia novas experiências de presença e autoria coletiva.
A recusa das direções partidárias podia significar experimentação democrática; podia também converter-se em antipartidarismo, hostilidade a sindicatos e agressões a militantes de esquerda. O que parecia uma só multidão era um campo de disputa entre ideias incompatíveis de povo, política e futuro.
O bolsonarismo não estava contido em Junho como uma semente destinada a germinar cinco anos depois. Junho não produziu sozinho a extrema direita; tornou-se uma das arenas em que forças distintas aprenderam a disputar a legitimidade das ruas.
Nem toda revolta contra o presente deseja um futuro de liberdade. O Tradicionalismo estudado por Benjamin Teitelbaum, em suas conexões com Steve Bannon, Olavo de Carvalho e Aleksandr Dugin, articula crítica ao igualitarismo a imagens de hierarquia espiritual. Há setores cuja promessa não é ampliar a soberania popular, mas reencantar hierarquias consideradas naturais ou sagradas, anteriores ao Iluminismo e à Revolução Francesa.
Esse é o paradoxo que mais me interessa: a extrema direita pode ser tecnicamente futurista e politicamente regressiva. Usa inteligência artificial, segmentação algorítmica e imagens sintéticas para promover autoridade paternal, guerra cultural, obediência e homogeneidade nacional. Um futuro retroativo, o novo empregado para reinstalar antigas assimetrias.
Essa dupla direção do desejo de ruptura ilumina Michel Foucault em sua “Introdução à vida não fascista”, prefácio a O anti-Édipo. Não basta identificar o fascismo no inimigo, no partido ou no Estado; é preciso interrogá-lo nas pequenas paixões pelo poder, nos hábitos de obediência e no prazer de esmagar uma diferença.
Reabrir Junho exige mais do que celebrar sua estética ou lamentar sua captura. É disputar o que ficou barrado pela própria esquerda, sem tradução institucional e continuidade: rejeição da velha política, direito à cidade, comuns urbanos, participação direta, serviços públicos, crítica à violência de Estado e capacidade de produzir nossas próprias imagens.
Reabrir não é inocentar Junho de suas contradições; é impedir que apenas sua interpretação regressiva permaneça como herança. A multiplicação das vozes pode produzir ação comum sem identidade única, mas também pequenos autoritarismos, tribunais digitais e unanimidades punitivas. É combater as novas infraestruturas do autoritarismo, do tecnofascismo, os algoritmos de destruição de massas.
Reabrir Junho, as promessas democráticas, o próprio contemporâneo: não voltar a um passado idealizado ou demonizado, mas disputar quais presentes e futuros, temporalidades e espaços ainda podemos inventar. A sociedade que sai às ruas e às redes reivindica o direito de fazer uma fissura no presente, de jogar mais uma vez todas as fichas para o alto e acolher a precipitação do novo, não ser apenas espectadora do futuro que lhe reservaram.
IVANA BENTES ” REVISTA CULT” / BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Ivana Bentes é professora titular da Escola de Comunicação da UFRJ. Autora, entre outros livros, de Mídia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolíticas (Mauad X) [https://amzn.to/4aLr0vH]