
Reportagem afirma que presidente argentino colocou sua estrutura de governo à disposição da operação que levou o candidato eliminado aos EUA.
Uma reportagem do jornal argentino Clarín, assinada pelo jornalista Santiago Fioriti, revela detalhes da operação que permitiu a saída do candidato derrotado Flávio Bolsonaro do Brasil, passando pela Argentina, em direção aos Estados Unidos. Segundo a publicação, o presidente Javier Milei colocou-se à disposição do governo de Donald Trump para viabilizar a operação, que contou com a participação de integrantes de sua administração e provocou desconforto dentro do próprio governo argentino.

De acordo com a reportagem, Milei acompanhou o episódio desde o início e conversou com Santiago Caputo, um de seus principais assessores políticos. Caputo teria se oferecido para viajar pessoalmente à província de Misiones, na fronteira com o Brasil, para acompanhar os deslocamentos. O presidente autorizou a viagem e determinou que tudo fosse mantido em segredo.
O chefe da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE), Cristian Auguadra, também teria desempenhado papel importante. Segundo o Clarín, ele informou previamente às autoridades locais sobre uma suposta operação no aeroporto de Puerto Iguazú, sem revelar que a iniciativa estava relacionada à saída de Flávio Bolsonaro. A comunicação envolvia uma aeronave, mas o candidato derrotado e sua família embarcariam em outro jato particular, operado pela empresa Baires Fly.Play Video
A reportagem relata que a ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, desconhecia a operação e tomou conhecimento do episódio acompanhando os canais de notícias em sua residência. Irritada, teria criticado a maneira como Santiago Caputo e sua equipe conduziram a iniciativa. O chefe de Gabinete, Diego Santilli, também não teria sido informado previamente.
Ao final da operação, Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, participou da elaboração, com Santilli, de um comunicado oficial da Direção Nacional de Migrações. O documento informou que Flávio Bolsonaro e seus familiares haviam ingressado na Argentina pelo posto fronteiriço da Ponte Internacional Tancredo Neves, sem impedimentos legais, e seguido viagem em avião particular.
Segundo o jornal, autoridades argentinas que mantiveram contato com Flávio durante a operação descreveram o senador como bastante alterado e ansioso para deixar o país. Ele teria enfrentado dificuldades no deslocamento terrestre até Misiones e se preocupado com a possibilidade de jornalistas descobrirem seus movimentos.
A crise diplomática com o Brasil
O episódio ocorre em um momento particularmente delicado para as relações entre Argentina e Brasil. Milei havia apoiado Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras e ainda não havia reconhecido publicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.
A reportagem destaca que o presidente argentino mantém uma postura de confronto com o governo brasileiro, apesar da importância estratégica do país para a economia argentina. Brasil e China representam, juntos, quase metade do comércio exterior da Argentina.
O jornal também lembra que Donald Trump, apesar de ter classificado as eleições brasileiras como uma “desgraça”, já manifestou disposição para se reunir com Lula. Milei, por sua vez, continua sem se pronunciar sobre o resultado eleitoral, comportamento que, na avaliação do Clarín, pode trazer prejuízos diplomáticos e comerciais ao país.
O presidente brasileiro aproveitou uma mensagem de Mauricio Macri, que o parabenizou pela vitória, para enviar um recado indireto ao argentino. Lula afirmou sentir nostalgia dos tempos em que divergências entre os dois países eram discutidas e resolvidas de maneira civilizada e republicana.
Divergências dentro do governo
A crise também expôs disputas internas na administração Milei. A ministra Patricia Bullrich, uma das principais figuras do governo, voltou a se diferenciar do presidente ao afirmar que a vontade popular precisa ser respeitada. Dias antes, ela já havia criticado os ataques de Milei à imprensa.
A movimentação de Bullrich em direção a uma possível candidatura presidencial em 2027 incomoda os irmãos Milei. O presidente da Câmara dos Deputados, Martín Menem, reagiu afirmando que o único candidato libertário para a próxima eleição é o próprio Milei.
Enquanto isso, Bullrich amplia suas articulações políticas, conversa com economistas e antigos aliados e procura acumular capital político para disputar espaço dentro do campo governista.
Peronismo tenta reorganização
No campo da oposição, a reportagem identifica movimentações de Cristina Kirchner e do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, para reorganizar o peronismo.
Cristina intensificou reuniões e consultas sobre cenários eleitorais, enquanto Kicillof anunciou a intenção de disputar uma eventual prévia interna do movimento. Diante de 43 prefeitos, defendeu que a escolha do candidato não seja feita por indicação direta, numa referência às disputas com a ex-presidente.
A declaração provocou reações negativas entre integrantes de La Cámpora, organização política ligada a Cristina. O ex-ministro Sergio Massa também tenta ampliar sua influência diante das divergências entre as principais lideranças peronistas.
Economia aumenta a pressão sobre Milei
O Clarín aponta ainda que as dificuldades econômicas ampliam a vulnerabilidade política do presidente argentino. O Índice Geral de Atividade (IGA), elaborado pela consultoria Orlando J. Ferreres & Associados, registrou queda de 0,8% na comparação anual.
A reportagem menciona a possibilidade de o país entrar em recessão técnica, caso o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) confirme dois trimestres consecutivos de retração econômica.
Outro indicador preocupante é o risco-país, que encerrou outubro com alta de 180 pontos, a maior elevação do ano, chegando a 787 pontos na sexta-feira.
Nesse cenário, até economistas identificados com o governo, como Ricardo Arriazu e Domingo Cavallo, vêm manifestando preocupação com os rumos da política econômica.
Para o jornal argentino, a combinação de isolamento internacional, conflitos dentro do governo, dificuldades econômicas e reorganização da oposição coloca Milei diante de um quadro político mais complexo do que aquele projetado por sua administração.
Fonte: Clarín, reportagem de Santiago Fioriti, intitulada “Los pecados de Javier Milei y la noche de fuga que alteró a todo el Gobierno” (Os pecados de Javier Milei e a noite da fuga que abalou todo o governo).
SANTIAGO FIORITI ” CLARIN” ( ARGENTNA) / “JORNAL GGN “( BRASIL)