
Flávio Bolsonaro perdeu para si mesmo. Foi derrotado pela sua empáfia, seu caráter de candidato sem nenhum caráter, Macunaíma sem graça nem ironia
No meio do caminho tinha um Brasil
Tinha um Brasil no meio do caminho
Tinha um Brasil
No meio do caminho tinha um BrasilNunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um Lula
Tinha um Lula no meio do caminho
No meio do caminho tinha um Lula(Flávio da Silva Drummond de Andrade)
Pois é. Quem diria que o nosso Brasil, o tão esculachado Brasil, aquele que nunca fez a lição de casa, aquele que não tem jeito mesmo, aquele que nunca aprende, seria a pedra no meio do caminho dos arrogantes oligarcas da extrema-direita mundial e das milícias brasileiras! Pois foi o que aconteceu. O “Escudo das Américas”, irradiado a partir da Casa Branca desde o sequestro do Presidente Nicolás Maduro, tropeçou no segundo turno da eleição brasileira de 2026. O que aconteceu?
A vitória de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro
Elas são faces da mesma moeda, mas não são exatamente a mesma coisa, embora tenham um fator em comum. No primeiro turno, Lula perdeu, sobretudo, para o “já ganhou”. Houve uma malemolência geral de suas hostes, inclusive dele, Lula, em relação ao resultado. O próprio candidato revelou que “esperava ganhar” no primeiro turno. Já no segundo turno, aconteceu o contrário. Flávio Bolsonaro se deixou seduzir pelo clima de “já ganhei”. Seus auxiliares e militantes também.
Tive uma curiosa confirmação disto. Ao sair para votar no segundo turno, em bairro predominante bolsonarista de Porto Alegre, percebi vários de seus militantes nas ruas. O clima de comemoração antecipada era evidente. Embandeirados, postulavam arrogância. E Porto Alegre, como um todo, não era um ambiente particularmente bolsonarista. Flávio Bolsonaro perdera na cidade no primeiro turno, embora ganhasse com folga no estado, particularmente devido à sua votação na região serrana.
O clima de “já ganhei” contaminou o comportamento do candidato. Mentiroso contumaz, ele passou a mentir mais descaradamente do que no primeiro turno. Como? Começou a se contradizer continuamente, renegando o que sempre dissera antes, ao mesmo tempo que, à socapa, reiterava suas crenças de sempre. Exemplo: declarou-se favorável ao fim da escala 6 x 1, ao mesmo tempo em que sugeria rever, depois de eleito, a proposta vitoriosa.
Sustentou o Bolsa Família, as aposentadorias sem revisão e outras políticas sociais, quando, ao longo do tempo, sempre se posicionou contra elas, e seus auxiliares continuavam a sugerir, para o empresariado reacionário, a sua interrupção ou revisão a longo prazo. A arrogância e a auto-confiança do “já ganhei” não o deixava perceber o fosso que ia se abrindo a seus pés.
Conclusão: em grande parte, Flávio Bolsonaro perdeu para si mesmo. Foi derrotado pela sua empáfia, seu caráter de candidato sem nenhum caráter, Macunaíma sem graça nem ironia, ventoinha das circunstâncias, cumprindo instruções nos debates, como aquilo de imitar o Donald Trump no debate deste com Hillary Clinton em 2016.
Posicionou-se atrás de Lula no debate da Band, fazendo gestos e caretas desrespeitosas, culminando com a postura inaceitável de chamar Lula de “nove dedos” no debate da TV Globo. Pediu desculpas, o que, se não conquistou novos votos, fê-lo perder a estima de muitos correligionários seus. Candidato que pede desculpas perde pontos.
Bem, Flávio Bolsonaro perdeu, então, em parte para si mesmo. Mas em outra parte, perdeu para Lula, que ganhou o segundo turno, quando perdera o primeiro para o mesmo Flávio. E Lula ganhou porque soube acolher a maré que se levantava a seu favor. Esta maré foi motivada pelo temor diante do que Flávio ameaçava ser no seu possível mandato.
Coisa curiosa: jovens e idosos se alevantaram, saindo se deu marasmo no primeiro turno, irmanados no temor de perder seu futuro, seja o mais longo da juventude ou o mais breve da velhice. Esta maré, aliada ao temor geral de uma ditadura afinal triunfante com Flávio Bolsonaro, se ergueu desde além do PT e das esquerdas, embora no leito destas esteiras, que sempre defenderam as política sociais.
Muita gente do nosso campo criticou o comportamento de Lula nos debates. Mas ele se saiu bem, ou pelo menos não se saiu mal. Demonstrou um perfil humano: um velhinho de oitenta anos se debatendo para evitar que seu país caísse num abismo, enquanto do outro lado havia uma espécie de monólito ao mesmo tempo pétreo e gelatinoso a empurra-lo para o desconhecido, porque nunca dava a impressão de falar a verdade verdadeira a seu respeito. Flávio Bolsonaro criou, ou deixou-se tomar, por um arquétipo muito negativo a seu respeito.
Os arquétipos se movem
Na Teoria literária, que compreende a origem e a elaboração das grandes narrativas, os arquétipos são imagens primordiais, carregadas emocional e coletivamente, que dão origem a novas imagens, inclusive combinando-se entre si. Houve um filósofo francês (Jean-François Lyotard) que no final do século passado decretou que as grandes narrativas estavam mortas. Vã ilusão. Elas simplesmente tinham se retirado para debaixo da cama pós-moderna.
Mas lá continuaram latejando, aparecendo de vez em quando, com seu cortejo de arquétipos, como neste segundo turno da eleição brasileira. Anote-se também que uma imagem é sempre o fragmento de uma narrativa, que nela permanece incrustada, como a gema sobrevive dentro do ovo e da sua clara.
Com sua profusão de discursos adaptados a seus diferentes e divergentes públicos-alvos, Flávio Bolsonaro perdeu o contato com a imagem primordial que queria passar adiante. Esta era a de um filho dedicado ao seu “pobre pai”, vítimas ambos de malignas e poderosas maquinações de bruxos governantes e/ou togados. Ao invés, através de suas mutações construiu para si a imagem de um camaleão destituído de cor e luz próprias, um filhinho de papai, pau mandado deste, mal educado e debochado, que prometia ao mesmo tempo tudo e nada.
Para os correligionários crentes e fanatizados esta imagem cumpria seu destino, também para quem dela quisesse se aproveitar para atingir o que tinham como objetivo comum, isto é, a conquista da Arca do Tesouro, o Palácio do Planalto e com ele a Terra Prometida, o Brasil a seu dispor.
Para os demais, para sobretudo aqueles que estavam em dúvida, Flávio Bolsonaro deixou atras de si o rastro do espertinho ou espertalhão, arrogante e trapaceiro, o camaleão que se pinta com as cores do galho em que esteja pendurado para se disfarçar.
Este quadro começou a se esboçar nas entrevistas, na guinada do discurso de sua propaganda no segundo turno, querendo se aproximar do público “mais pobre” com promessas de que em nada mexeria (aposentadorias, Bolsa Família, salário mínimo, vinculações constitucionais com saúde e educação, a Constituição, etc.).
Enquanto isso, à socapa, seus futuros ministros e ele mesmo sinalizavam do modo velado para seus bastidores exatamente o contrário, que iriam rever tudo, até mesmo o fim da escala 6 x 1 que ele, em outra guinada para a plateia, passara a apoiar de modo oportunista. Para completar este quadro problemático, achavam que ninguém iria perceber o que estavam dizendo e fazendo.
O quadro chegou a seu ápice nos debates. No primeiro, na Band, Flávio, imitando seu Grão-Mestre Donald Trump no debate contra Hillary Clinton em 2016, parece que por sugestão de Pablo Marçal, começou a fazer micagens nas costas de Lula. E no debate final, na TV Globo, debochou de Lula e chamou-o de “nove dedos”. Em suma, consolidou a imagem de menino desrespeitoso e mimado que debocha dos mais velhos. Assinou a própria perdição.
No lugar da imagem de vítima do establishment que ele queria vender, a imagem que se criou foi a de uma glosa de um filme de Glauber Rocha: “O Velho Guerreiro contra o Camaleão das Maldades”. Porque naquele momento ele levantou a bola para Lula bater, dizendo este que era um histórico trabalhador batalhando contra um miliciano filhinho de papai que, no fundo, nunca trabalhara. O destino começava a se fechar.
E foi assim que se desenhou a velha e poderosa imagem de Davi contra Golias. Mas ao contrário do que os Flávios queriam e esperavam, Davi era Lula, e Golias, o Camaleão que queria passar por vítima. O Camaleão que mostrava seus dentes de Dragão, porque tinha por detrás de si um cortejo de mega-poderosos em escala planetária: a Casa-Branca em Washington, as big-techs, as financeiras do estrangeiro querendo acabar com o Pix, o banqueiro ladrão, os arrogantes donos de carrões vomitando bandeiras pelas janelas.
Para completar, no dia da votação alinharam em suas hostes, alem dos juízes togados que operavam a favor de Flávio Bolsonaro, companhias de aviação, secretários de transportes, prefeitos, governadores que, na falta da Polícia Rodoviária Federal de 2022, fizeram de tudo para dificultar o acesso às urnas de quem poderia votar no Velho Guerreiro. E foi assim que, além de ter contra si a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, Flávio Bolsonaro também açulou contra si o padroeiro, São Jorge encarnado no adversário.
Mais arquétipos deflagrados
Ao mesmo tempo, aquele Velho Guerreiro contava com dois arquétipos dos mais tradicionais a seu lado. A sua derrota no primeiro turno deflagrou levas e mais levas de multidões saindo às ruas, em defesa da pátria ameaçada. Além da onda vermelha, vestiram as cores da bandeira que queriam roubar-lhes. E eram, em primeiro lugar, multidões de jovens em defesa, por exemplo, das universidades públicas.
Em resumo, o futuro saía as ruas, e com ele, o Brasil voltava a ser o país do futuro… Ao mesmo tempo, rompia-se o marasmo, a modorra do primeiro turno: com o futuro, era o Brasil, e o Brasil que recuperava suas cores sequestradas, que saía às ruas. Em outras palavras, o Brasil, gigante adormecido, despertara… E assim, cidades após cidade, rua após rua, amealharam-se os dez milhões de votos que faltavam para reverter a derrota e vencer as eleições.
Deve-se também reconhecer que nesta segunda fase, a campanha de Lula teve seu Josué, o comandante André Janones que conseguiu furar a bolha digital em que as esquerdas não conseguiam entrar, com os dez milhões de soldados de seu exército vigilante. Suas trombetas conseguiram derrubar as muralhas da Jericó adversária, que perdeu a hegemonia no setor. Esperemos que para sempre.
Foi uma vitória épica em escala mundial. A vaga neofascista bateu numa muralha que não conseguiu derrubar. O “Escudo das Américas”, trombeteado pela Casa Branca, trincou. Inclusive porque vários governos que aderiram ao Escudo, com governantes associados à extrema-direita, estiveram entre os primeiros a reconhecer a vitória de Lula, e com eles veio uma enxurrada de outros governos, da Índia à Europa, da Rússia à China e à Austrália, reconhecendo a vitória da democracia brasileira e dos democratas de nosso país.
O tiro saiu pela culatra: Donald Trump e Javier Milei se isolaram, com os tropeçantes brasileiros que hesitam ou teimam em não reconhecer a vitória de Lula. Em outra banda, até o momento, Benjamin Netanyahu, outro entusiasta de Flávio Bolsonaro, calou a boca, tendo que cuidar das eleições em seu país.
Resta ainda saber se algum golpe será tentado, como em 2022/2023. Entre outros fatores, isto pode depender do 03 de novembro, ou seja, da eleição de meio-termo nos Estados Unidos.
Destes acontecimentos ainda há uma última lição a ser tirada. Além de ir às ruas e ocupar as avenidas digitais, é fundamental comparecer às urnas. Javier Milei ganhou graças às abstenções na Argentina; idem, Donald Trump nos Estados Unidos. E se Flávio ganhou o primeiro turno no dia 03 de outubro, Lula perdeu para ele e para as abstenções de seus eleitores. No segundo turno, além de Flávio Bolsonaro, as abstenções também foram derrotadas.
FLÁVIO AGUIAR ” BLOG A TERRA É REDONDA” (BRASIL)
*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]