
“A metade da população que não quer a volta de uma ditadura, como nos anos 1964-1985, e não quer submeter o Brasil aos Estados Unidos, mostrou sua força e diz que não pretende mais sair das ruas e das redes”
A vitória do presidente Lula foi histórica. Não só pelo feito inédito de ter ganhado a eleição depois de ser derrotado no primeiro turno e de ser reeleito com seu governo sendo reprovado por metade da população. A vitória é histórica, principalmente, pelo que representa para o Brasil, para a América Latina e mesmo para o mundo.
Ad loading
Lula derrotou não só seu adversário Flávio Bolsonaro. Lula, o PT e as forças políticas e sociais que o apoiaram derrotaram a extrema-direita fascista, que mobiliza quase a metade do eleitorado brasileiro e tem sua base política composta basicamente por políticos corruptos, empresários corruptores — especialmente do agronegócio, banqueiros e financistas –, líderes de igrejas evangélicas que manipulam a fé das pessoas para enriquecer e organizações criminosas de policiais e militares (denominadas milícias) que dominam territórios nas cidades por meio da violência.
Lula e seus apoiadores derrotaram também Donald Trump e de seu projeto imperialista de submeter toda a América Latina e o Caribe aos Estados Unidos, mediante o controle de seus governos, domínio de seus fluxos comerciais e exploração de suas riquezas. A vitória de Lula impede que o Brasil se junte, com seu enorme peso específico no continente, a outras nações latino-americanas e caribenhas que têm hoje governos de direita e de extrema-direita submissos a Trump e comandados por Marco Rubio.
A interferência de Trump nas eleições brasileiras seguiu o padrão das eleições mais recentes na América Latina: financiamento de entidades ligadas à extrema-direita e manipulação das redes digitais sob controle das grandes corporações de tecnologia estadunidenses (as chamadas big techs), que interferiram descaradamente nessas eleições, chegando a provocar medidas contra elas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Um forte obstáculo enfrentado por Lula foi o TSE ser presidido por um juiz notoriamente bolsonarista, Nunes Marques, nomeado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Marques, como outros quatro dos 10 ministros do Supremo Tribunal Federal, está envolvido no maior escândalo financeiro já ocorrido no Brasil, o do Banco Master, e é acusado inclusive de participar de orgias sexuais patrocinadas pelo ex-dono do banco, Daniel Vorcaro, que está preso.
Além de tomar medidas em defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro, algumas delas revistas pelos demais juízes eleitorais, Marques ignorou as denúncias de que prefeitos bolsonaristas de várias cidades, aliados a empresários do setor de transporte, reduziram o número de ônibus em circulação, dificultando a chegada de eleitores de renda mais baixa aos locais de votação.
A omissão do presidente do TSE levou os advogados da candidatura de Lula a recorreram ao STF, que prorrogou em duas horas o horário de votação. Mas, como a decisão foi tomada quando as urnas estavam sendo fechadas, poucas seções eleitorais permaneceram abertas.
Esse é o pretexto que está sendo usado por Flávio Bolsonaro para pedir a anulação da eleição. Mas ele ficou isolado nessa posição e nem seu partido (Partido Liberal) o apoiou. A anulação, seguramente, não acontecerá.
Mitos quebrados
Lula não fez um ótimo governo em seu atual mandato. Teve de iniciar a reconstrução de um país assolado por problemas decorrentes dos péssimos governos de Michel Temer e, principalmente, de Jair Bolsonaro. Com oito dias de gestão, enfrentou a tentativa de golpe de estado que levou à depredação das sedes do governo federal, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. E, em grande parte, suas ações dependiam de negociações políticas com Câmara e Senado dominados por partidos de direita e de extrema-direita.
Mas Lula também cometeu erros em seu terceiro mandato. Na articulação política, na comunicação, na coordenação das ações de governo, e, principalmente, nas relações com a população e com os movimentos sociais. Foi um governo tímido, com alguns integrantes pouco eficientes, e que parecia ter receio das reações contrárias dos segmentos conservadores e reacionários e, especialmente, de seus representantes no Congresso. Não teve grandes realizações a mostrar. Melhorou a situação do país em vários aspectos, apresenta índices positivos na economia e nas políticas sociais, mas não soube comunicar e não entendeu o sentimento de decepção, frustração e desesperança de grande parte da população, em especial dos mais jovens e dos que vivem nas periferias urbanas.
A extrema-direita bolsonarista manteve-se mobilizada, apesar da prisão de seu líder Jair Bolsonaro e dos cabeças da tentativa de golpe. E se preparou para disputar essas eleições. O filho mais velho de Jair, o senador Flávio Bolsonaro, foi o escolhido para enfrentar Lula, que, apesar da idade (80 anos), do antipetismo e antilulismo enraizados em grande parcela da população e da desaprovação de seu governo pela maioria dos eleitores, resolveu disputar a reeleição.
A campanha de Lula no primeiro turno foi muito ruim, o que ele mesmo reconheceu. Partiu de uma premissa errada – a de que Lula estava fazendo um ótimo governo e bastaria mostrar isso aos eleitores, ao lado de promessas de novas realizações, para ganhar a maioria. Não houve um esforço de mobilização popular e, por várias vezes, Lula e outros integrantes de sua aliança diziam que ele seria eleito no primeiro turno, mesmo havendo outros candidatos de direita disputando.
Shampoo antiqueda causa corrida nas lojas da Raia e DrogasilAlpecin C1
O resultado foi a diferença de 2,22 milhões de voto a favor de Bolsonaro no primeiro turno e a eleição de governadores e parlamentares federais e estaduais majoritariamente à direita. O clima de “já ganhou” envolveu os bolsonaristas e seus aliados de direita. Lula teria de recuperar a diferença em apenas três semanas.
Mas a derrota acendeu um sinal de alerta na campanha de Lula, que foi reorientada para mostrar que o que estava em jogo era a democracia, a soberania nacional, as conquistas dos trabalhadores e dos aposentados, os direitos humanos — e, particularmente, das minorias –, a preservação do meio ambiente, os investimentos em saúde e educação públicas, o respeito à ciência.
Diante do risco de voltar um governo de extrema-direita fascista, houve dois movimentos decisivos. Motivada pelas primeiras mobilizações massivas de jovens, muitas delas espontâneas e à margem das entidades oficiais, as pessoas reagiram e foram às ruas em todo o país, inclusive em pequenas cidades do interior. E, convocado pelo deputado federal André Janones, da Rede Sustentabilidade, um partido aliado ao PT, formou-se o denominado “exército de Lula”, uma rede de apoio na internet que reuniu mais de 10 milhões de pessoas.
Foi um movimento gigantesco de mobilização popular. Não eram só os militantes dos partidos, dos sindicatos e das organizações sociais que iam às ruas para se manifestar e ganhar votos, mas também pessoas comuns que saiam de casa e do trabalho para conversar com o comerciário, o frentista, o lixeiro, o motorista de ônibus, para convencê-los a votar em Lula. Pessoas que, mesmo tendo carro, pegavam o ônibus ou metrô para conversar com os passageiros.
Seguro Viagem: 70% off à vista até 03/11Ciclic
O “exército de Lula” ocupou as redes digitais e seus integrantes cumpriam missões dadas por Janones, inclusive neutralizando os algoritmos que favoreciam os bolsonaristas. O presidente bolsonarista do TSE tentou impedir o funcionamento da rede, mas foi derrotado pela maioria dos integrantes do tribunal. A Meta interferiu inúmeras vezes para retirar conteúdos favoráveis a Lula e chegou a mostrar propaganda bolsonarista quando as pessoas pediam acesso a postagens lulistas.
Ao mesmo tempo, difundia-se a ideia de que não se tratava de uma escolha entre esquerda e direita, entre PT e os que não gostam do PT, mas entre democracia e ditadura, soberania e submissão, direitos e repressão. Personalidades tradicionalmente ligadas à direita ou aversas à esquerda, ao PT e a Lula passaram a se manifestar pelo voto no presidente. Informalmente, formou-se uma frente ampla contra o fascismo bolsonarista.
Adicionalmente, Lula, valendo-se da condição de presidente, Lula anunciou medidas que beneficiam os mais pobres, os prestadores autônomos de serviços e a grande parte da população que está endividada.
E assim romperam-se dois mitos — o de que o derrotado no primeiro turno será derrotado no segundo turno e o de que um presidente com menos de 50% de aprovação não consegue se reeleger. Lula recebeu 10,37 milhões de votos a mais do que no primeiro turno, enquanto Bolsonaro teve 5,94 milhões a mais. A diferença a favor de Lula foi de 4,43 milhões de votos – 51,79% a 48,21%.
O Brasil continua dividido, com praticamente a metade da população votando em um candidato da extrema-direita e acusado de vários crimes, e com um presidente à esquerda e um parlamento à direita, o que dificulta a governabilidade. Mas a metade da população que não quer a volta de uma ditadura, como nos anos 1964-1985, e não quer submeter o Brasil aos Estados Unidos, mostrou sua força e diz que não pretende mais sair das ruas e das redes.
Significativamente, nas comemorações pela vitória foi cantado o relativamente desconhecido Hino à Independência, que diz: “Brava gente brasileira / longe vá temor servil / ou ficar a Pátria livre / ou morrer pelo Brasil”.
HÉLIO DOYLE ” BLOG BRASIL 247″ (BRASIL)