
As pesquisas procuravam medir a disposição de comparecer. Nas ruas e nas redes, essa disposição estava sendo transformada.
O grande problema das pesquisas eleitorais — e, sobretudo, de sua interpretação — tem várias facetas.

A primeira é a tendência dos analistas, especialmente dos mais burocráticos, a interpretar o presente com base em disputas passadas. Tornou-se um exemplo clássico dessa miopia a previsão do cientista político Alberto Carlos Almeida, em 2018: assim que começasse o horário eleitoral gratuito, Geraldo Alckmin dispararia em direção ao segundo turno. O tempo de televisão não produziu o efeito esperado, e Alckmin terminou longe da disputa final.
A segunda é a dependência exclusiva dos levantamentos, sem atenção às mudanças de humor e aos movimentos de mobilização que podem ocorrer ao longo da campanha.Play Video
Tome-se o erro generalizado das pesquisas que apontavam Flávio Bolsonaro numericamente à frente no segundo turno, embora em situação de empate técnico. O resultado final mostrou Lula com uma vantagem de 3,52 pontos percentuais.
O que aconteceu nesse intervalo? O que escapou aos levantamentos?
O Datafolha procurou estimar a propensão efetiva ao comparecimento, considerando fatores como a participação no primeiro turno e a distância até o local de votação. No levantamento de 24 de outubro, entre os eleitores classificados como de alta propensão a comparecer, Flávio tinha 52% dos votos válidos, contra 48% de Lula. Entre aqueles com propensão média ou baixa, a relação se invertia: 52% para Lula e 48% para Flávio.
Estava aí uma variável decisiva: a capacidade de transformar intenção de voto em comparecimento às urnas.
No mundo real, via-se um fenômeno extraordinário que mostrava o oposto: uma enorme mobilização espontânea de pessoas que haviam encarado a boca do dragão — a possibilidade de entregar a democracia brasileira a uma candidatura identificada com forças antidemocráticas.
As manifestações na Avenida Paulista e o movimento nos locais de votação revelavam duas forças. De um lado, um enorme contingente de jovens descobrindo a política. De outro, idosos que, mesmo de bengala, muletas ou cadeira de rodas, faziam questão de votar.
Já se sabia que o resultado dependeria, em boa medida, da redução da abstenção. E ela caiu 9,1%, levando às urnas mais de 3 milhões de eleitores adicionais.
É verdade que houve o efeito Janones. Mas, antes dele, mesmo diante das restrições atribuídas à Meta, as redes sociais já estavam tomadas pelo ativismo de pessoas dos mais variados perfis. Uns tocavam músicas em defesa da democracia; outros sapateavam; os mais tímidos gravavam suas declarações de apoio.
Sobre essa diversidade de manifestações pairava a força simbólica de Lula: um mito que, naquele momento, parecia alcançar uma dimensão maior do que a do próprio personagem.
Esse é o ponto que uma leitura burocrática das pesquisas não alcança. A disposição de votar não é uma característica imóvel do eleitor. Pode mudar com o medo, a esperança, a percepção de risco e o sentimento de responsabilidade coletiva. Quem ontem parecia pouco propenso a sair de casa pode decidir que seu voto se tornou indispensável.
O país renasceu nessa mobilização. De todos os cantos surgiram jovens dispostos a defender a democracia e idosos indignados com a ruptura dos padrões mínimos de civilidade, muitos deles com a memória dos horrores da ditadura.
As pesquisas procuravam medir a disposição de comparecer. Nas ruas e nas redes, essa disposição estava sendo transformada.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)