
A reeleição de Lula é o acontecimento mais relevante da conjuntura internacional e, por enquanto, o único anteparo à onda fascista mundial. Na América do Sul é uma esperança para Argentina e Chile
Durante a ofensiva soviética rumo a Berlim, o General Chuikov interrogou dois oficiais alemães aprisionados por suas tropas. Ele perguntou como eles avaliavam a situação e um tenente coronel respondeu: “sua ofensiva levará a Alemanha à catástrofe final”.[1] Chuikov replicou que eram Hitler e o fascismo que sofreriam e não a Alemanha. Mas eles responderam que era a mesma coisa. Era a irracionalidade nazista levada ao paroxismo. Diante de uma Berlim em escombros, as tropas fanáticas da SS ainda queriam cumprir o desejo do Führer: se a Alemanha perdeu a guerra, seu povo não merecia sobreviver.
Chuikov havia passado pela mais sangrenta batalha da história (Stalingrado) e caberia a ele também a glória da conquista de Berlim. Os dois prisioneiros podiam falar livremente, longe da vigilância da Gestapo, e ainda assim mantinham sua crença no nazismo. O que contrastava com a superioridade teórica e humana do general soviético.
Derrotamos o fascismo
Bem, a população brasileira impediu no último domingo não só a vitória eleitoral do fascismo, mas a transição de regime que se anunciava. Não há dúvida que o bolsonarismo se preparava para passar rapidamente de governo a um regime fascista já no próximo ano. Seria um passo a mais em relação ao desastre do governo Jair Bolsonaro.
A vitória foi resultado de quatro fatores que se retroalimentam: (i) a radicalização do programa; (ii) a insurgência espontânea das ruas; (iii) a centralização das redes; (iv) a estreiteza e os erros do inimigo.
A reeleição de Lula é o acontecimento mais relevante da conjuntura internacional e, por enquanto, o único anteparo à onda fascista mundial. Na América do Sul é uma esperança para Argentina e Chile. É verdade que ao lado do Brasil há o Uruguai, Suriname, Nicarágua, México e Cuba como países progressistas. As eleições que se avizinham na Espanha ainda neste ano e, no próximo, na França e Alemanha podem dar a dimensão do papel do Brasil na correlação ideológica de forças no mundo ocidental.
Passados a euforia e o alívio, infelizmente precisamos reconhecer a situação concreta em que nos encontramos. Os próximos passos dos EUA e do bolsonarismo serão possivelmente a desestabilização do Governo e tentativas de golpe. Como enfrentá-los?
O general soviético nos deu o método. Há que se diferenciar o núcleo duro do bolsonarismo formado por milhões de fascistas, criminosos, corruptos e oportunistas e a outra parte de sua base social deformada pela propaganda. Mas essa é uma mudança de longo prazo. Chuikov reduziu os nazistas à prostração mediante a força.
Nos limites brasileiros o que se espera, em primeiro lugar, é que Lula não recue da inflexão que fez à esquerda e que pode ser resumida numa matéria do portal UOL de 18 de outubro que criticava Lula por ter comprometido 290 bilhões de reais com “bondades eleitorais”. Isso em contraste com os 200 a 300 bilhões que os bolsonaristas ameaçavam cortar.
Em segundo lugar, o governo não vai sobreviver se não mobilizar a população contra o congresso, a mídia e os EUA quando a campanha preparatória para um golpe estiver em andamento. Que não se repita o que aconteceu em 2015-16 quando o governo não enfrentou a oposição.
As dificuldades de assumir esse caminho são muitas. O PT não é mais um partido mobilizador, entretanto no segundo turno a base petista demonstrou que sabe se rejuvenescer e se mover. As eleições comprovaram duas coisas.
A primeira é que não é possível reagir ao fascismo sem o PT. Pelo seu acúmulo histórico e seu enraizamento orgânico na classe trabalhadora ele é o único partido capaz de nuclear a resistência de massas antifascista. Grande parte de seus dirigentes procura desmobilizar suas bases. Por outro lado, os partidos de extrema esquerda ainda são legendas sem apoio popular.
O que sobressai é o levante espontâneo do petismo: os soldados vietnamitas do partido que ganham a luta apesar dos seus generais sul americanos, para atualizar a expressão de David Capistrano.[2] A mobilização de jovens no segundo turno reverteu a preponderância bolsonarista na juventude e, por sua vez, graças à mudança na política de comunicação digital, conseguiu alimentar as redes sociais.
Ambas foram essenciais e isto derruba a ideia de que a mobilização real nas praças, universidades, locais de trabalho, nas ruas é irrelevante. Jovens combinaram panfletagens, fizeram cartazes manualmente e panfletos e se reuniram para combinar as ações. Com essa espontaneidade resgataram, talvez sem o saberem, a estrutura federativa de núcleos de base que caracterizou o PT nos anos 1980.
A segunda questão é que, na ausência de uma esquerda radical, os dirigentes do PT veem no voto conservador a única força capaz de dar maioria eleitoral ao partido, apesar do antipetismo.
Não podemos nos iludir
Apesar da grandeza e importância internacional da vitória petista, não podemos nos iludir: a sociedade brasileira se ergueu sob a bandeira petista como uma reação instintiva pela sua sobrevivência. Foi a natureza do candidato de oposição que permitiu ao PT a vitória, por um lado; mas por outro lado, a derrota bolsonarista só foi possível por causa do PT. E sem dúvida a figura de Lula também jogou um papel essencial, mas deixemos o tema da sua sucessão para outra ocasião.
Esse é o maior impasse da política institucional: o PT não consegue hegemonia sem compartilhar o poder com adversários que bloqueiam seu programa democrático popular; seu recuo para políticas liberais, ao mesmo tempo, obsta a construção de uma direção intelectual e moral dos trabalhadores na sociedade brasileira.
Já a direita conservadora não consegue se livrar do PT sem entregar o poder à única força de massas que pode derrotá-lo: o fascismo bolsonarista. Ela busca uma alternativa liberal com apoio eleitoral ou, em última instância, um fascismo sem a família Bolsonaro. Esse problema é deles, o dos “soldados vietnamitas” é defender o governo contra si mesmo e contra o Golpe, empurrando-o para a esquerda.
Desculpem as más notícias logo cedo. A bebida estava boa e a noite foi épica, mas não haverá descanso.
LINCOLN SECCO ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de História do PT (Ateliê). [https://amzn.to/3RTS2dB]
Notas
[1] Chuikov, Vasili I. The End of Third Reich. Londres: Panther Book, 1967, p. 81.
[2] A frase atribuída a David Capistrano é esta: “O PT é composto por soldados vietnamitas, sargentos norte-americanos e generais paraguaios”.