O CENÁRIO POLÍTICO DOS EUA

O declínio do debate clássico sobre o tamanho do Estado cede espaço a um embate polarizado entre o populismo econômico progressista e o nacionalismo identitário de direita

1.

Para compreender o cenário político contemporâneo dos Estados Unidos, é fundamental destrinchar os conceitos adotados, as divisões ideológicas internas de cada campo e como essas forças se reorganizaram ao longo do tempo.

A primeira observação é, no contexto dos Estados Unidos, a palavra “liberalismo” possuir um significado muito diferente daquele utilizado na Europa ou na América Latina. Enquanto no Brasil o termo costuma associar-se à defesa do livre-mercado e da não intervenção estatal, nos EUA o “liberalismo” é classificado como left-liberalism (liberalismo de esquerda), porque assemelha-se ao denominado pelos europeus de social-democracia e pelos brasileiros de social-desenvolvimentismo.

Para entender essa vertente, o economista Daron Acemoglu, em seu livro mais recente, lançado em agosto de 2026, What happened to liberal democracy? remaking a politics of shared prosperity, a situa em relação a outras duas tradições intelectuais.

A “tradição liberal clássica”, em defesa do livre mercado, é representada historicamente por pensadores como Friedrich Hayek da Escola austríaca. Define a liberdade como “não interferência”, focando na limitação do poder regulatório e fiscal do Estado sobre os indivíduos e o mercado.

Já os “progressistas” da “liberdade como engenharia social” teriam inspiração em Jean-Jacques Rousseau e seu conceito de “vontade geral”. Esta vertente busca impor à sociedade normas culturais consideradas “corretas”, tais como os “engenheiros sociais” contemporâneos.

O liberalismo de esquerda ou social-democracia está focado na ideia de “não dominação”. Sob esta ótica, a verdadeira liberdade não é apenas a ausência de intervenção estatal, mas sim a existência de segurança econômica e proteção contra atores privados predatórios, como grandes monopólios ou exploradores econômicos. Sem esse mínimo de segurança, os indivíduos não são verdadeiramente livres para criar, inovar e progredir.

Esta visão fundamenta o chamado por Daron Acemoglu de “liberalismo da classe trabalhadora”. Está focado na redistribuição de renda, no fortalecimento das comunidades, na desconfiança do poder excessivo e na garantia de bons empregos.

O espectro político americano contemporâneo é altamente fraturado, dividindo-se entres correntes, com disputa do controle narrativo e partidário.

2.

A esquerda norte-americana se compõe basicamente de três grandes linhas ideológicas.

A primeira é o establishment de centro-esquerda com democratas moderados: é a ala tecnocrática e meritocrática do Partido Democrata. Consolidou-se fortemente na Era Barack Obama. Historicamente, defende um liberalismo social moralmente permissivo e cosmopolita, aliado a uma política externa multilateralista e ativa, além de uma forte crença de que uma elite especializada pode gerir a globalização de forma harmônica.

A segunda linha ideológica é o “identitarismo progressista” (woke): corrente com formação acadêmica e migrante das universidades para as redes sociais. Foca no combate às opressões de raça e gênero, partindo da premissa de “a identidade é o destino”. Woke (passado do verbo wake em inglês) significa literalmente “acordado” ou “despertado”. Na gíria norte-americano e no debate político atual refere-se a estar consciente e atento a questões de justiça social, desigualdade e discriminação.

Na prática, priorizou pautas de interesse de elites multirraciais como políticas de admissão preferencial em universidades renomadas. Foi criticada por servir como sinalização de status moral da classe média de colarinho branco e por expressar desprezo pelos eleitores conservadores.

A terceira linha é a corrente de Socialistas Democráticos da América (DSA / woke 2): representam “a ultraesquerda anticapitalista”. Exigem reformas estruturais profundas, como a saúde universal, a abolição da polícia, das prisões e dos aluguéis. Sua base de apoio não é o antigo proletariado industrial, mas sim um eleitorado jovem, branco, urbano e diplomado.

O atual prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, declara-se como um socialista democrático e é filiado ao Partido Democrata. Daí os jornalistas de direita acusam as contradições de estilo de vida de suas lideranças jovens de origem abastada (nepo babies) ao viverem em imóveis milionários ou desfrutarem de luxos aristocráticos. Justificam sua atuação política sob o conceito de noblesse oblige, isto é, a obrigação moral dos privilegiados em ajudar os menos favorecidos.

A direita norte-americana se dividiu em duas grandes correntes.

A primeira é o conservadorismo de livre mercado ou liberalismo clássico. É a ala tradicional do Partido Republicano da qual a antiga classe de consultores econômicos de o mercado e políticos centristas compartilham afinidade. Foca estritamente na liberdade econômica, redução de impostos, desregulamentação e Estado mínimo, isto é, não interferência nos negócios privados – fora de crise.

A segunda é o populismo de direita ou trumpismo. Surgiu como uma reação direta à não entrega da promessa de paraíso pelo establishment de centro-esquerda e pelas políticas conduzidas por especialistas graduados. É uma força nacionalista e anti-establishment, isto é, lá como cá: “do contra tudo e todos”.

3.

Sob o Imperador Donald, focou no combate à imigração ilegal, no desmantelamento de programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) e no combate às pautas identitárias da esquerda. É desestabilizador e corporativista.

Quanto à evolução histórica e posicionamentos político-partidários, observou-se sempre o fracasso na emergência de um socialismo independente. Historicamente, os Estados Unidos foram a grande exceção entre as economias industriais avançadas por nunca terem desenvolvido um partido socialista de massa ou de relevância eleitoral direta.

Os cientistas políticos Seymour Martin Lipset e Gary Marks apontam as seguintes razões institucionais e culturais para isso. (i) Ausência de passado feudal: sem esse antagonismo prévio, os trabalhadores americanos não teriam herdado uma consciência rígida de classe como os europeus. (ii) Melhores condições de vida: o proletariado americano historicamente usufruiu de condições materiais acima das massas operárias europeias.

(iii) Bipartidarismo rígido: o sistema eleitoral americano sufoca terceiros partidos. O ápice eleitoral do Partido Socialista ocorreu em 1912, quando Eugene Debs alcançou apenas 6% dos votos. (iv) Cooptação democrata: o Partido Democrata sempre foi estrategicamente ágil em cooptar as pautas de esquerda em momentos de crise. Durante a Grande Depressão, Franklin Roosevelt incorporou as demandas mais progressistas na coalizão do New deal, tornando o radicalismo indistinguível do liberalismo.

(v) Valores de antiestatismo e individualismo: diferente da europeia, a própria esquerda americana, inclusive correntes anarquistas e sindicatos, historicamente resistiu ao coletivismo estatal e defendeu o individualismo.

Na última década, a ultraesquerda compreendeu: para alcançar o poder político, precisava abandonar a tentativa de criar um terceiro partido e “pegar carona no partido- ônibus democrata”. Passou, então, a disputar diretamente as primárias internas do Partido Democrata e eleger candidatos socialistas em distritos urbanos.

Paralelamente, o Partido Democrata sofreu uma transição marcante. Na Era Barack Obama, havia hegemonia da centro-esquerda tecnocrática e uma crença de a tecnocracia e o liberalismo social moderado governarem sem oposição. Na Era Joe Biden, houve uma guinada à esquerda, após a ascensão de Donald Trump, em 2016.

4.

establishment retornou ao poder, mas adotou uma postura mais agressiva de “arrogância meritocrática”, substituindo os técnicos tradicionais por grupos de interesse e empurrando o liberalismo social e as pautas de imigração aos seus limites. Foi o auge do “Woke 1” com o foco obsessivo em questões de raça, gênero e diversidade nas instituições públicas e privadas.

A grande convergência atual é a do identitarismo com o populismo econômico (transição do Woke 1 para Woke 2). Entre 2024 e 2026, a esquerda norte-americana começou a sofrer um profundo reajuste estratégico, devido a derrotas políticas e mudanças estruturais.

A primeira delas foi a perda da classe trabalhadora. Em 2024, Kamala Harris foi derrotada e ficou evidente Donald Trump ter ampliado seu apoio entre os eleitores não brancos da classe trabalhadora.

A segunda foi o fim das cotas raciais. A Suprema Corte derrubou as políticas de ação afirmativa de cotas raciais na entrada em universidades.

A terceira foi o desgaste de certas pautas culturais. Slogans como “desfinanciar a polícia” geraram forte rejeição eleitoral.

Isso forçou a transição do woke 1 (identitário) para o woke 2 (classe). Diante do colapso da antiga coalizão entre a elite universitária progressista e os trabalhadores conservadores nos costumes, os democratas – tanto moderados quanto radicais – passaram a adotar em uníssono o populismo econômico.

Surgiu nova tônica partidária. Hoje, as vítimas e os vilões não são mais definidos pela cor da pele, mas sim pelo saldo de suas contas bancárias. Os bilionários seriam os antagonistas. A agenda comum de moderados e radicais passou a focar em pautas materiais diretas: salários mais altos, preços baixos, combate à especulação imobiliária e acesso à saúde pública.

Na outra ponta, o antiestatismo e o individualismo também se enfraqueceram na direita. Em seu lugar, consolidaram-se “identitarismos rivais”. Em vez de disputarem o espaço político através de propostas econômicas ou valores universais tradicionais, ambos os lados estruturam seus discursos em torno da defesa intransigente de grupos identitários específicos. Na direita, focam no ultranacionalismo cristão, no nativismo e na preservação da herança cultural euro-americana (branca e protestante).

Com essa transformação da direita, o debate político norte-americano contemporâneo deixou de ser uma disputa clássica entre o tamanho do Estado e o livre-mercado, transformando-se em um embate de “batalhões uniformizados” populistas em disputa de visões culturais e recursos do orçamento federal.

FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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