AGÊNCIAS NORTE-AMERICANAS E ASCENSÃO DO NEOLIBERALISMO

A articulação entre redes de desinformação digital e interesses imperialistas ameaça a lisura das eleições e a soberania do país

1.

Nesses tempos, voltar a Bertold Brecht parece inevitável. Ele estava certíssimo quando alertava o mundo sobre a natureza do fascismo, cujo fenômeno não cabe subestimar, e não cabe por acontecimento histórico sangrento a marcar de modo definitivo o século XX, cujos primeiros passos ocorreram pelos anos 1920, sob a liderança de Mussolini, na Itália, ex-socialista e na sequência a mais importante liderança do movimento. Não deve ser tratado como episódio do passado porque, volta e meia, nos revisita, evidentemente ornado com outras roupagens, não obstante mantendo a essência.

“A cadela do fascismo está sempre no cio” – a metáfora brechtiana, certeira, a nos alertar sobre a necessidade de não dormirmos em berço esplêndido. O fascismo andou algum tempo submerso no século XX, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando se dá a derrota de Hitler, cujo preço principal, e mérito também, foi principalmente da União Soviética, mais de 25 milhões de soldados mortos. Uniram-se então todas as forças democráticas do mundo, numa frente ampla, e o nazifascismo foi vencido.

Por algum tempo, os fascistas preferiram colocar as barbas de molho, esperar novas crises, novos tempos. Tinham secreta convicção de que novas crises surgiriam, e eles seriam chamados em socorro do capital. Nas tempestades capitalistas, as crises são resolvidas pela guerra, e o século XX foi pródigo em demonstrar isso, como também os dias atuais, a ostentar 120 guerras ao redor do mundo, como registrava João Paulo Charleaux, no final de 2024.

Então, depois de Nuremberg, preferiram conter-se, manter modos na sala de jantar, deixar o mundo acreditar na vitória da democracia, no chamado Estado de Bem-Estar Social, cultivar as ilusões de respeito aos direitos humanos. Na esteira do neoliberalismo, sob Augusto Pinochet e Margareth Thatcher, foram vestindo as armas de guerra, prontos para novos combates, sem haver desconfiança maior dos democratas e socialistas. A democracia estava salva. Tempo de ilusões.

Como essa série tem demonstrado, não há nenhuma geração espontânea no desenvolvimento da chamada onda azul na América Latina, crescimento das forças de extrema-direita em todo o continente. Nasce de uma atuação disciplinada, alimentada por milhões de dólares, a partir da ação de centros de pensamento dos EUA, chamados think thanks, operação político-ideológica voltada à difusão do pensamento neoliberal, incluindo inegavelmente o fortalecimento de Estados autoritários, a seguir os passos do fascismo, já deixando de lado qualquer cuidado, botando mais do que as mangas de fora, tal e qual o extraordinário trabalho de pesquisa de Bob Fernandes tem demonstrado.

2.

Em dias recentes, o fascismo em tempos de bots, de ações criminosas a partir do mundo digital, da internet, mostrou a cara de modo obsceno, evidenciando a continuidade da tradição golpista no continente, e como hoje tal atividade não se restringe a esse ou àquele país – é tudo intercalado, produto de uma articulação internacional, especialmente a partir dos EUA.

No passado falou-se de uma Internacional Comunista, cujo fim se deu em meio à Segunda Guerra, em maio de 1943, por iniciativa de Stálin, com o objetivo de acalmar o anticomunismo visceral dos aliados e fortalecer a perspectiva de frente ampla contra o nazifascismo. Naquele momento, uma movimentação política importante, incapaz de aplacar, no entanto, o anticomunismo e nem de sepultar o sentimento nazifascista.

Hoje, há uma escancarada articulação fascista, de extrema direita, uma Internacional ultraconservadora, ainda ecoando discurso anticomunista, recuperando a ideologia fascista, unindo forças políticas de muitos países, políticos do Brasil, da Argentina, de tantos outros países latino-americanos, lideranças europeias e sionistas.

E isso é absolutamente naturalizado pela mídia mundial, como se fosse apenas uma movimentação política, e não uma nítida volta ao fascismo. Não há sequer um olhar crítico ao impressionante rearmamento da Alemanha, na esteira da guerra contra a Rússia a ter como gancho a Ucrânia, e aproveitando-se da terceirização de tal guerra pelos EUA. Há algum tempo, dado o espectro do nazismo, era impossível pensar essa possibilidade.

Podemos agora dizer o rei está nu, não fossem as enormes evidências anteriores, especialmente, no caso brasileiro, a ação da família Bolsonaro, a trabalhar no País e nos EUA, esta, a verdadeira pátria de tal família. Estou dizendo tudo isso para chegar a Fernando Cerimedo, argentino, personagem central da extrema-direita, ligadíssimo a Flávio Bolsonaro, agora preso. Com episódio envolvendo-o, parte vital do ecossistema digital da extrema-direita global foi seriamente atingida, como diz Bob Fernandes, em postagem dos últimos dias.

Como ele diria, o ecossistema digital da extrema direita foi atingido por três tiros, disparados contra uma mulher, Nadia Beller, grávida, cujo pai seria o companheiro dela, ele próprio, Fernando Cerimedo. Bob Fernandes, em outra postagem das últimas horas, mostra uma espécie de confissão do crime pelo próprio Fernando Cerimedo, encontrada no celular dele, aprendido pela polícia: Nadia nos vendeu, ele diz. Ou a eliminamos ou estamos fodidos, completa. Pergunta ao interlocutor se conhece alguém que pudesse fazer o trabalho – matar Nadia.

3.

Os disparos contra Nadia em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, expuseram de modo nítido o ecossistema digital criminoso e atingiram vários alvos, entre os quais, Flávio Bolsonaro, cujo irmão, Eduardo Bolsonaro, refugiado nos EUA, é íntimo de Fernando Cerimedo, qualificado por Nádia após o atentado como “amigo muito querido” dele, e ela informou, ainda, terem os dois se encontrado no início de agosto deste ano.

Atento, Bob Fernandes, em postagem recente, revela encontro dos dois, a 4 de novembro de 2022: transmissão ao vivo, pregando golpe de Estado na tradição da extrema direita. Em tal transmissão, a dupla espalhou uma mentira, espécie de senha para o golpe, cuja tentativa se daria no dia 8 de janeiro do ano seguinte: a eleição daquele ano, vitória de Lula, teria sido roubada.

A segunda live dos dois, muito recente, a favor da candidatura do irmão de armas de Fernando Cerimedo, Flávio Bolsonaro, desde Nova Iorque, mais de 50 minutos de uma arenga ultraconservadora, quando, mais uma vez, atacaram as seguras urnas eletrônicas brasileiras. Tal iniciativa se deu 48 horas após o candidato ter se reunido com embaixadores estrangeiros no Brasil, repetindo feito do pai, tentando desmoralizar o sistema de votação do País.

Talvez o leitor estranhe, e cobre a continuidade da série em torno da atuação das agências norte-americanas na América Latina, a partir do trabalho de Bob Fernandes, indo atrás do notável esforço acadêmico, diria político-cultural, dirigido pela professora Camila Vidal. Os acontecimentos políticos nos atropelam. Não há solução de continuidade, no entanto. Seguimos a série, com um exemplo trágico, monstruoso de como a interferência de criminosos digitais contribui para mudanças políticas no rumo da extrema direita.

Esse caso surge de modo a reforçar todo o esforço crítico de Camila Vidal e orientandos dela. A tragédia envolvendo Fernando Cerimedo recebeu pouquíssimo destaque da mídia empresarial brasileira, e isso decorre do evidente apoio dado ao candidato da extrema-direita, conhecido apropriadamente como Tariflávio.

Fernando Cerimedo é um estrategista político argentino, cujo prestígio cresceu ao assessorar campanhas da extrema-direita na América Latina, entre tantas as de Javier Millei e Rodrigo Paz, na Bolívia. Método dele como consultor: divulgar informações prejudiciais sobre adversários utilizando inteligência artificial, fazendas de bots e microssegmentação, estratégia utilizada pela primeira vez no Brasil, em 2018, na campanha de Jair Bolsonaro.

4.

O sócio mais estratégico de Fernando Cerimedo é Brad Parscale, considerado o homem chave no campo digital de Donald Trump. A plataforma digital dele, “Campaign Nucleus” vale-se de inteligência artificial para analisar eleitores, tendo sido essencial para a vitória de Donald Trump em 2024.  Em março de 2025, Fernando Cerimedo foi anunciado como representante da plataforma de Brad Parscale na América Latina.

Brad Parscale não se esconde: registrou-se em setembro de 2025 como o agente estrangeiro encarregado da administração de uma campanha digital de 1,5 milhão de dólares mensais para o governo de Israel. Tal fortuna explicaria o nível de coordenação e os recursos mobilizados pela consultoria “Numen”, de propriedade de Fernando Cerimedo, na Bolívia, Honduras e Argentina.

Fernando Cerimedo é fundador do La derecha diario e, em outubro de 2025, o jornal dele adquiriu a UHN Plus Media com o objetivo de formar um bloco midiático conservador na América Latina. Atuou no México com o empresário Ricardo Salinas Pliego, a provocar reação da presidenta Claudia Sheinbaum, indignada. Pliego e Cerimedo fariam parte de “redes da direita internacional que busca influenciar todos os países”, na opinião da presidenta mexicana.

Na campanha de Javier Milei, Fernando Cerimedo admitiu ter acionado milhares de trolls para influenciar algoritmos e alterar a relevância de temas nas redes sociais. O salto qualitativo dele foi dado quando se integrou a uma rede de operadores republicanos ultraconservadores com acesso direto a Donald Trump. O jornal The Economist o considerou como “o homem do MAGA” na América Latina. Na Bolívia, a evidenciar o prestígio dele, reunia-se publicamente com o encarregado de Negócios dos EUA, Erik Martini, a ocupar o mais alto cargo diplomático naquele país.

Fernando Cerimedo parece ter encontrado os sicários necessários à tarefa, como pretendia. Nadia, ex-companheira de Cerimedo, foi alvo de um atentado armado na área comercial de Santa Cruz de la Sierra: dois homens disfarçados de entregadores aproximaram-se dela na entrada de um hotel, e atingiram-na três vezes.

Ela sobreviveu para denunciar ter sido Fernando Cerimedo o instigador do atentado, e o fez logo após a justiça boliviana ter decretado 180 dias de prisão preventiva contra ele. As apurações até aqui indicam Fernando Cerimedo como o autor intelectual da tentativa de feminicídio. Ele teria planejado e orquestrado o atentado. A justiça defende ainda ter sido a gravidez dela um dos motivos para cometer o atentado.

O fascismo tem a violência como um dos pilares da existência dele, e o ódio às mulheres, como outra forte característica. Quem quiser provas, é só ouvir Flávio Bolsonaro, incapaz de respeitar as próprias filhas, a quem ele dá o destino de cuidadoras dele na velhice, apenas e tão somente – triste destino.

5.

No primeiro momento das investigações da polícia boliviana, houve a notícia da existência de uma minifazenda de robôs, estrutura de manipulação digital controlada por ele, e uma das possibilidades é que ela seria utilizada nas eleições presidenciais brasileiras contra o presidente Lula. Advogados de Fernando Cerimedo explicaram a natureza dos equipamentos encontrados: eram, segundo eles, apenas telefones via satélite e modens, não robôs.

Nádia caminha na contramão da versão dos advogados, a indicar um crime continuado: informa a existência de duas estruturas de robôs na Bolívia e outra, maior, em Buenos Aires, de onde operaria para toda a América Latina, tudo de propriedade de Fernando Cerimedo: uma fazenda menor e um latifúndio. Em 2023, em entrevista ao jornal argentino La Nación, Fernando Cerimedo admitiu o uso de contas automatizadas para influenciar os algoritmos das redes.

A fazenda de Buenos Aires, conforme ele próprio teria contado a Nadia, baseada na inteligência artificial, conseguia sincronizar contas em tempo real, não repetir palavras, enviar mensagens diferentes, fazer publicações, comentários, inundar as redes sociais e produzir segmentação de acordo com o público. Tal estrutura podia, ainda, derrubar outras contas.

Se um perfil estivesse incomodando a campanha dirigida por ele, produzia-se uma montanha de denúncias contra a publicação até conseguir a desativação da conta. O latifúndio digital foi utilizado, ainda de acordo com Nádia, em Honduras, no processo da nova Assembleia Constituinte no Chile, no Brasil, na Bolívia e na Argentina. No caso brasileiro, campanha de 2022.

Fernando Cerimedo tenta enganar inocentes. Afirma que “o serviço dos ‘trolls’ não é usado para fazer política, e sim para interferir nos algoritmos. Com os ‘trolls’, criamos essa relevância artificial. O algoritmo a detecta e conseguimos que mais pessoas vejam a postagem”. Não é para fazer política?

Nadia não deixou por menos: revela ligações perigosas, encontros recentes com Eduardo Bolsonaro nos EUA, enfatizando a importância dele para o império norte-americano, até por ser, segundo ela, um agente da CIA. O salário dele, na Bolívia, era pago diretamente por uma rede de negócios ilícitos, a envolver a família do próprio presidente Rodrigo Paz na comercialização de combustível e outros recursos estratégicos. Ele, em depoimento à polícia boliviana confirmou rendimentos mensais na casa de 1 milhão de dólares. Não é erro: rendimentos mensais de 1 milhão de dólares.

6.

Natália Aruguete, especialista em comunicação política, analisa: “O caso Cerimedo mostra um modelo cada vez mais visível no qual a comunicação não passa apenas pela conta oficial do candidato. Fernando Cerimedo é interessante porque levou essa lógica de uma campanha para outra e de um país para outro”.

Um dos pontos de partida dele teria sido o Brasil, com a denúncia [falsa] sobre fraude eleitoral a prejudicar Jair Bolsonaro.  Com isso ele teria lançado bases para a estratégia de deslegitimação de pleitos democráticos, replicada em outros países, contribuindo decisivamente para o avanço da extrema direita na América Latina.

Em Honduras, 2025, aplicou “campanha negativa” com Inteligência artificial e estrutura de trolls, e atribuiu a si mesmo a promoção do apoio de Donald Trump ao candidato Nasry Asfura, de extrema-direita, vencedor de eleições recentes, cuja posse ocorreu em janeiro de 2026.

Inegavelmente, há uma rede de agências internacionais, como essa série vem demonstrando, a partir do trabalho jornalístico de Bob Fernandes, ancorado nos esforços acadêmicos de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, tendo à frente, como dito no início, a professora Camila Vidal, rede voltada à afirmação do neoliberalismo.

Especificamente, rede volta ao reforço da presença dos EUA no continente, o que vem acontecendo de há muito, e de modo particular, se tomamos tempos mais recentes, desde 2010, a resultar, como já acentuado, numa virada política da América Latina na direção da ultradireita.

Fernando Cerimedo é uma espécie de ponta do iceberg, a revelar aspectos sinistros de tal rede, fosse preciso. Diria: até as dissimulações estão sendo desprezadas. Se a companheira dele, a quem pretendeu assassinar, tiver razão, e ele for de fato agente da CIA, torna-se evidente a imbricação do trabalho político-cultural, destinado a modificar o pensamento das pessoas, em princípio o trabalho dos think tanks, das organizações não-governamentais vinculados direta ou indiretamente aos EUA, com os serviços de inteligência e de repressão.

7.

Donald Trump, aliás, de alguma forma, lida bem com essa duplicidade. Pode valer-se do trabalho do pessoal de comunicação, do exército de bots e trolls voltado a influenciar e fraudar eleições, conjugado com as ameaças e se for o caso com a violência. Como o sequestro do presidente Nicolás Maduro, ou o genocídio, porque se trata disso, contra Cuba, radicalizando o bloqueio econômico contra aquela Revolução, ou com o cerco às eleições brasileiras, que deve prosseguir e já é excessiva e constante.

Taxações, proteção a refugiados golpistas, envio de um nome sem credenciais exigidas para ser embaixador no Brasil, suspensão de visto da embaixadora brasileira nos EUA, envio de emissários norte-americanos para questionar o processo eleitoral (presença recusada pelo governo brasileiro), reunião organizada pelo consulado norte-americano com comunicadores de extrema-direita e qualificação do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, tudo isso   atendendo a pedidos da família Bolsonaro, tipicamente uma organização criminosa atuando contra o Brasil.

Não estamos enfrentando uma eleição sob um quadro de normalidade democrática: há uma evidente intervenção externa, aberta, como se tivessem os EUA o direito de arbitrar nossos caminhos, ainda na esteira da velha Doutrina Monroe.

Certo está o Lula. Não deixa de manter linha aberta com Donald Trump, insistindo no diálogo sem abrir mão um centímetro da soberania, e sem deixar de dialogar permanentemente com os BRICS, de modo especial com a China.

O presidente chinês, Xi Jinping, em telefonema recente entre ele e Lula, e em várias outras ocasiões, dá todos os sinais de solidariedade ao Brasil, até porque as relações econômicas entre os dois países seguem em curva ascendente, com vantagem brasileira. Donald Trump não gosta dessa relação, obviamente, mas nada pode fazer, a não ser seguir fazendo o jogo da família Bolsonaro, aliado incondicional dele, intervindo como puder nas eleições em andamento.

Tais eleições são fundamentais para o Brasil e para a América Latina: vitória de Lula será a derrota da barbárie, do golpismo, e do neoliberalismo. Não há muro possível: há o lado da democracia, da liberdade e da luta pela igualdade, e o outro, da continuidade da concentração da renda, abandono das políticas voltadas à melhoria das condições de vida do povo, entrega completa dos destinos do País ao império decadente, em busca de tábuas de salvação. A mais importante eleição de nossas vidas. Alea jacta est.

EMILIANO JOSÉ ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]

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