
O esgotamento da polarização tradicional abre espaço para candidaturas alternativas e reconfigura as alianças no pleito presidenciável
Dois fatos novos alteraram o clima morno das eleições. Um deles tem relação direta com o comportamento dos eleitores e ainda tem que ser avaliado nas pesquisas para ser descobrir o seu alcance real. Trata-se do que já é chamado de fenômeno Cury, candidato pra lá de nanico até o debate da Globo.
O outro é o escândalo provocado pela decisão do ministro André Mendonça, revelando as mensagens de Daniel Vorcaro para Alexandre de Morais, abrindo ao público um conflito até então latente no STF e aprofundando uma crise de confiança do público na nossa máxima instituição jurídica. Este último tem um efeito indireto no processo eleitoral, mas suas consequências podem ser muito mais perigosas para as instituições da República.
O “fenômeno Cury”
Na última pesquisa da Quaest, do dia 2/9, Augusto Cury pula de 1% para 10% de intenção de voto, isto depois de ter saltado de alguns milhares para alguns milhões de seguidores nas redes sociais em uma semana. Este movimento excepcional está sendo explicado pela sua performance no debate de presidenciáveis da Band.
É bom lembrar que o debate foi bem esvaziado pela ausência de Lula e Flávio Bolsonaro, tendo sido menos assistido que a entrevista de Lula na Rede Record, e caracterizou-se por ataques ferozes de Renan Santos e Ronaldo Caiado ao presidente e candidato Lula. E o que disse Augusto Cury de tão importante para atrair tão rapidamente este fluxo de eleitores? Se pensarmos em propostas de governo, Cury foi tão ou mais raso e patético do que os outros. A diferença foi a postura, voltada a apelar para o fim da polaridade que divide o país desde 2013 e, sobretudo, desde o golpe contra Dilma Rousseff e a eleição de Bolsonaro pai.
A fala mansa foi um forte contraste com a agressividade dos outros, com Augusto Cury evitando centrar fogo em Lula ou em Flávio Bolsonaro, embora crítico do presidente. Cury cura (as feridas da guerra política) poderia ser o seu slogan de campanha, o seu apelo aos eleitores. Outra frase feita atraente foi “meu cérebro é capitalista e meu coração é social”, visando sensibilizar os eleitores críticos às orientações econômicas do governo e aqueles defensores dos programas sociais deste mesmo governo.
A postura de Augusto Cury foi bem capitalizada por seu forte esquema de divulgação nas redes sociais e atingiu os eleitores que estão cansados da polarização, em primeiro lugar os que se declaram “nem/nem”, nem anti Lula nem anti Flávio, ou ainda, mais amplamente, os que se intitulam independentes. Estes últimos são mais numerosos do que os primeiros, por incluir os que votam contra um ou outro dos pólos, sem maiores simpatias pelas suas preferências.
Embora a avaliação do “efeito Cury” tenha que esperar o desenrolar da campanha, o fato é que Augusto Cury é desconhecido por mais da metade dos eleitores e isto lhe dá margem para crescer nas próximas pesquisas. Se este movimento vai conseguir romper as bolhas que amarram as intenções de voto atuais é algo a se ver.
O voto pró Lula parece consolidado entre 35 e 40%. Já o voto anti Flávio Bolsonaro, que beneficia Lula, é menos significativo entre 5 e 10%, mas menos definitivo. Flávio Bolsonaro tem um voto bolsonarista fidelizado bem menor (entorno dos 20%) e um voto anti lula significativo (entorno dos 10%), mas também menos definitivo. É neste universo de uma polarização cansativa que Augusto Cury pretende crescer.
A maior margem de crescimento está na direita não bolsonarista e nos independentes. Estes últimos se dividem entre anti Lula, anti Flávio Bolsonaro e nem/nem, sendo que até agora predominam os dois últimos. O voto em Romeu Zema e Ronaldo Caiado, já foram canibalizados por Augusto Cury, enquanto o voto em Renan Santos levou um baque menor, mas significativo.
Para Augusto Cury se transformar na sonhada via de uma direita não bolsonarista, ele teria que dobrar as suas intenções de voto e derrubar pelo menos um terço das de Flávio Bolsonaro. Não é pouco, mas dado o claro esgotamento do eleitorado com o bolsonarismo, que vai encolhendo na sua bolha e que só se sustenta pela falta de alternativas à direita, a possiblidade existe. Não seria a primeira vez que um outsider da política se cria nas eleições brasileiras, desde outsiders autênticos como Cacareco e Tiririca até falsos, como Fernando Collor e Jair Bolsonaro.
Lula tem pouco voto a perder com uma eventual ascensão de Augusto Cury, mas esta pequena minoria que vota nele tapando o nariz para barrar o bolsonarismo pode ser decisiva num (por enquanto) improvável segundo turno Lula x Cury. Para quem duvida, é só lembrar que a candidatura Tarcísio de Freitas, abortada por Jair Bolsonaro, tendia a arrastar toda a direita, extrema direita, centro direita e centro em uma frente unificada. Para não perder a hegemonia no pólo de direita Jair Bolsonaro impôs a candidatura de Flávio, frágil até entre os bolsonaristas. Augusto Cury não empolgaria a direita bolsonarista, mas se sua chegada ao segundo turno se concretizar, ela não a sabotaria por ser a única chance da anistia ao patriarca preso.
A crise do STF
Desde que foi revelada a relação mais do que suspeita de Dias Toffoli e Daniel Vorcaro há alguns meses, o STF já patinava no pântano pela sua tentativa de se isolar do desgaste, afastando informalmente o ministro do caso e passando pano no seu comprometimento com o banqueiro. Na mesma época, foi revelado o contrato multimilionário de Daniel Vorcaro com a mulher do ministro Alexandre de Morais e era uma questão de tempo o surgimento de outras revelações a partir da decodificação dos celulares do banqueiro pela Polícia Federal.
Para os que pretendiam “afogar o peixe” do comprometimento de Alexandre de Morais com Daniel Vorcaro, a redistribuição do inquérito para a tutela de André Mendonça foi um golpe mortal. Este ministro bolsonarista tinha todo o interesse em comprometer Alexandre de Morais, o algoz do energúmeno e de todos os golpistas, antigos compas do ministro terrivelmente evangélico.
Desde logo, André Mendonça agiu para blindar os investigadores da PF que tinham chegado até o desafeto do bolsonarista. A intenção era garantir que a direção da PF não interferisse nas investigações e garantisse o acesso de Mendonça aos dados comprometedores. Era óbvio que o caldo ia derramar a qualquer momento, bastando a André Mendonça retirar o sigilo da investigação para estourar a bomba. E ele o fez, não por acaso na mesma toada em que deixava em banho maria a investigação sobre as relações de Flávio com Daniel Vorcaro no caso do financiamento do filme Dark Horse.
As revelações sobre a relação de Alexandre de Morais com Daniel Vorcaro são suficientemente claras, mesmo sem o acesso aos celulares do ministro, para deixar Alexandre de Morais totalmente sem defesa, a não ser a tentativa de anular o relatório da PF por questões processuais. Mesmo que o STF vote por esta anulação o estrago está feito e não há como segurar a onda de pressões que a direita já está fazendo pedindo a renúncia de Morais ou mesmo o seu impeachment pelo Senado.
Desmoralizar o STF é tudo o que o bolsonarismo quer para voltar a levantar a suspeição de imparcialidade do Supremo no julgamento dos golpistas. Se o STF não afastar Alexandre de Morais e mesmo se o fizer, a campanha eleitoral vai ganhar um tema de fôlego: a necessidade de uma “limpeza” no Supremo com o impeachment de, pelo menos, Alexandre de Morais e Dias Toffoli.
E como fica a esquerda e a candidatura Lula neste imbróglio? Mal, muito mal. Primeiro porque o STF foi um esteio do governo para impedir várias tentativas de decisões legislativas desastrosas da maioria de direita no Congresso, desde os projetos de anistia até a legislação ambiental (em parte), entre outras.
Por isso mesmo, o STF é visto pelo público como um aliado do governo e da esquerda. Se a esquerda adotar a posição republicana de apoiar a necessidade de investigar Alexandre de Morais, isto não será suficiente para neutralizar o desgaste, mas se não o fizer o desgaste será ainda maior.
Do ponto de vista eleitoral, a campanha anti STF vai conclamar os votantes a elegerem deputados e senadores alinhados com a proposta de “limpeza”. E, obviamente, a direita vai tentar colocar Lula no mesmo balaio de Alexandre de Morais. Some-se a isto a moleza de André Mendonça na investigação de Flávio e seu açodamento na investigação de Lulinha, Jacques Wagner e Marcola (e outros que possam aparecer no caso Vorcaro) para a campanha da direita virar algo do tipo “vamos tirar todos os corruptos do poder, no executivo e no Supremo”.
Há muito tempo que eu constato que a esquerda lida muito mal com o tema da corrupção, desde o caso da prefeitura de Campinas até o mensalão, o petrolão e os casos do INSS e Master. Noves fora o lawfare da Lava Jato, que permitiu a anulação de todos os condenados através de tecnicalidades, ninguém que não seja ofuscado pela ideologia deixa de entender que houve corrupção em grande escala nos governos do PT, não esquecendo que os anteriores (FHC, José Sarney e os militares) e posteriores (Michel Temer, Jair Bolsonaro) também tenham se lambuzado fartamente.
O que a esquerda não percebeu, ao “fazer o que todo mundo sempre fez”, é que ela sempre esteve mais vulnerável do que a direita e o Centrão, que contavam com a cumplicidade das elites, dos tribunais e da mídia. Na lógica da esquerda, a sua corrupção era justificada por permitir atingir objetivos mais nobres e não para encher o bolso de uns e outros. A corrupção patrocinada pela esquerda era para comprar votos em um Congresso fisiológico e de direita e impulsionar os projetos estratégicos para o bem-estar do povo e a felicidade geral da nação.
Mas para o público, não há uma dupla moralidade, com bons e maus corruptos. E é por isso que a esquerda ficou acuada por sua impossibilidade de defender a diferença entre uma e outra corrupção, justificando a sua. Ela passa a negar as óbvias evidências de seus atos e a acusar todos os críticos de fascistas. Esta é uma das causas da formação das bolhas pró e contra a esquerda e sua dificuldade de atrair um eleitorado “moralista”.
Isto ficou ainda mais difícil pelo fato de que o PT se marcou, até chegar aos governos, pela defesa da “ética na política”. Hoje em dia os quadros do PT classificam esta posição como “udenista” e entregam a bandeira para a direita.
A direita nada de braçada no pântano da corrupção, inerente ao seu modo de vida e de governo, mas cinicamente acusa a esquerda de malfeitos, aproveitando o fato de que o mais que direitoso judiciário brasileiro marca de perto os erros da esquerda e passa o pano para os da direita.
A mídia convencional segue o mesmo princípio de usar dois pesos e duas medidas nos casos de corrupção, aliviando os escândalos de FHC, Michel Temer e Jair Bolsonaro e militando contra Lula e Dilma Rousseff. Basta comparar a inacreditável inquisição dos entrevistadores de Lula na TV Globo, usando dois terços do tempo para apertá-lo com perguntas sobre as suspeitas sobre Lulinha, Jacques Wagner e Marcola e pegando leve com Flávio Bolsonaro. O objetivo apregoado das entrevistas era discutir as propostas de governo dos candidatos, mas não foi isso que se viu na entrevista com Lula.
Mas toda esta marcação cerrada sobre Lula não deve esconder o fato de que este governo e os anteriores se lambuzaram em processos de corrupção. Dada a correlação de forças na sociedade e nas instituições a esquerda teria que ter sido mais pura do que “a mulher de César, que tinha que ser não só honesta como parecer honesta”.
Mesmo que esta pureza não fosse adotada por razões éticas, deveria tê-la sido por razões políticas, para não dar espaço para as campanhas da direita. E, não podemos esquecer, a ideia de que a esquerda pode fazer o que “os outros sempre fizeram” é um contrassenso. Em uma sociedade capitalista o corruptor (empresários) sempre vai dar mais dinheiro para a direita do que para a esquerda, mantendo o desequilíbrio financeiro nos embates eleitorais.
Neste caso Master, o mais espetacular da nossa história, havia a possiblidade da esquerda retomar a bandeira da anticorrupção, já que a direita foi a primeira a ser apontada pelas revelações iniciais da PF, comprometendo Flávio Bolsonaro. No entanto, o PT se juntou ao centrão e à direita no Congresso para sufocar no nascedouro uma CPI que poderia ter tido um papel importante, podendo até levar o candidato do bolsonarismo ao banco dos réus.
Naquele momento fiquei intrigado por esta aparente perda de oportunidade e a atribui a uma síndrome do telhado de vidro do PT, mas novas revelações foram mostrando (e pode haver outras) que os tentáculos de Daniel Vorcaro tinham enrolado gente do partido.
No fim das contas, o distinto público entendeu que todo mundo da política estava afundado na vala comum da corrupção. Isto pode anular este tema como divisor de águas na disputa eleitoral, mas deixa um gosto amargo no eleitor que vai ter que assumir o voto em “seu” corrupto ou rejeitar o processo eleitoral como um todo, ampliando o crescente volume dos não votantes.
Para terminar, o campo de batalha em que se transformou o STF tem um risco maior do que o resultado das eleições. A desmoralização de uma instituição fundamental no equilíbrio dos poderes da República leva água para o moinho dos eternos golpistas que buscam convencer o público que a democracia brasileira não tem salvação e que o país necessita de uma “limpeza” radical e de um “regime forte” como saída para nossas crises. As “vivandeiras alvoroçadas” voltaram a se animar para ressuscitar a ditadura.
JEAN MARC VON DER WEID “BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).