
O episódio do suposto jornalista alvo de uma ação da PF, autorizada por Alexandre de Moraes, marca a volta do verdadeiro jornalismo
Em toda a minha carreira jornalística, especialmente a partir dos anos 90, sempre me impressionou a falta de contraponto na imprensa. O país saía da ditadura e, a partir do impeachment de Fernando Collor, a imprensa descobriu sua musculatura e passou a exercitá-la a torto e a direito — muito mais a torto. Foi um período de grandes massacres e baixo esclarecimento.

Relato vários episódios no meu livro “O Jornalismo dos anos 90”. É uma herança terrível, que se prolongou no tempo e atingiu seu auge na Lava Jato e no impeachment de Dilma Rousseff.
Rompi com esse modelo em meados dos anos 2000. Após o Mensalão, assisti, horrorizado, ao advento do “jornalismo de esgoto”, inaugurado pela Veja de Eurípedes Alcântara e Mário Sabino, e seguido pelos demais veículos. Era um massacre diário na notícia, o estímulo a esculachos contra ministros do Supremo que ousassem questionar minimamente o processo, além de uma perseguição feroz, com ataques inusitados contra jornalistas que também questionassem os absurdos praticados.
No pós-Lava Jato, esse clima persistiu, embora abrandado, nos anos seguintes. Agora, ainda restrito a um pequeno grupo, o jornalismo renasce em profissionais que passam, novamente, a encarar os fatos como essenciais à notícia.
O episódio do suposto jornalista alvo de uma ação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, marca explicitamente a volta do verdadeiro jornalismo, personificado em alguns poucos profissionais exponenciais — basicamente através das vozes de Daniela Lima e Otávio Guedes.
Os fatos — ora, os fatos — trazem uma história escabrosa que demonstra como a falta de discernimento generalizada transformou a imprensa em cúmplice de crimes hediondos.
Caiu nas mãos de Flávio Dino um inquérito sobre uma organização criminosa atuando no Maranhão, com a detenção de um dos membros. A represália foi pagar um suposto jornalista para vazar o roteiro dos familiares de Dino, expondo-os a todo tipo de risco. A PF descobriu que o suposto jornalista havia recebido R$ 100 mil para divulgar dados restritos aos órgãos de segurança. E chegou até o vazador-financiador.
Como um episódio desses pode ser tratado como atentado à liberdade de imprensa? E se houvesse o monitoramento das andanças de seus principais repórteres, como o fato seria analisado? Certamente como ameaça de atentado.
Bastou aparecer o nome de Alexandre de Moraes, no entanto, para o “efeito Pavlov” ser reverberado pelos Andreazza, pelas Malus e outros que instrumentalizam — que estupram — a notícia, adaptando-a a seu gosto político.
Por que, então, Daniela e Otávio ascenderam ao panteão dos grandes jornalistas brasileiros? Porque ousaram apostar nos fatos, nas notícias, sem o medo pânico da maioria dos colegas de desrespeitar as inclinações políticas dos jornais. Tendo os fatos como garantia, ousaram investir contra o efeito manada que se alimenta da mediocridade.
Foi a aposta no próprio talento que fez Daniela Lima ser demitida da Globonews, talvez o maior erro jornalístico da emissora em muitas décadas. Demitida, manteve seus valores e foi aproveitada por dois veículos relevantes: o UOL e a Transamérica.
No UOL, Luiz Frias seguiu o exemplo do pai na Folha dos anos 90. Para ampliar a audiência — e, principalmente, ganhar respeitabilidade — apostou na diversidade. Contratou jornalistas independentes, liberais e conservadores, e abriu espaço. Gradativamente, foi se dando conta de que o nicho a ser conquistado estava entre o público ávido por objetividade e respeito aos fatos. Os liberais ganharam a primeira página enquanto houver demanda, mas garantiu-se a manchete para os fatos durante o período da tarde.
Por outro lado, depois de perceber o erro da demissão de Daniela, a Globonews passou a apostar em Otávio Guedes, permitindo, enfim, que o grande jornalista que havia nele se realizasse.
Custosamente, as empresas começam a se dar conta de que não são uma mera adaptação do estilo “caça-likes” das redes sociais. Seu público exige aprofundamento e, principalmente, credibilidade. Vender credibilidade é o que legitima o modelo comercial. E credibilidade não se conquista com o “jornalismo-sela”, a serviço de vazadores da polícia, mas com a crítica consistente a esse tipo de prática.
Ontem à noite, o Jornal Nacional entrou no tema, dando a palavra ao ministro Flávio Dino e endossando a versão correta: a de que o sigilo de fonte não pode ser instrumento para esconder crimes.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASL)