A CRISE TERMINAL DO JORNALISMO

Hoje em dia, o que se vê é uma guerra de narrativas, que fala mais ao fígado do que ao cérebro das pessoas. E a IA está apenas começando.

A crise do jornalismo vai além do modelo de negócio das empresas, arruinado pelo avanço das redes sociais. A própria missão do jornalismo está ameaçada, em parte pela Inteligência Artificial, destruidora de empregos, em parte pela concorrência dos influenciadores e dos caça-likes.

Historicamente, o jornalismo sempre foi mais um vendedor de ideias e conceitos do que um desbravador de fatos. O modelo de negócios, desde o aparecimento da imprensa corporativa, era criar uma imagem forte, que pudesse conferir credibilidade ao veículo, para fazer valer seu maior ativo: a construção ou destruição de reputações.

Primeiro grande ideólogo da imprensa corporativa, Ortega y Gasset dizia que a primeira missão de um jornal era assegurar sua perenidade.Play Video

Ao longo da história, a imprensa ajudou a construir alguns momentos civilizatórios e também alguns dos piores momentos da história. A busca por leitores fez com que, em vários momentos, a imprensa fosse conduzida pela rebelião das massas, pela psicologia de massa do fascismo.

Em meu livro “O jornalismo dos anos 90”, analiso 20 momentos em que a imprensa cedeu aos movimentos de linchamento. A lógica era repetitiva. Acontecia algum fato de impacto, um crime, uma suspeita. O leitor queria respostas imediatas. Assim, a primeira versão que apontasse um culpado era a que conduzia a boiada. Não havia competição entre os jornais: todos ficavam presos ao mesmo enfoque inicial da cobertura. Ser a favor do linchamento atendia às demandas do leitor e não implicava riscos futuros. Afinal, se a versão estivesse errada, o jornalista estaria na companhia de toda a imprensa. Agora, com a consolidação das redes sociais, o jogo tornou-se quase irreversível.

Há vários empecilhos ao bom jornalismo. O mais conhecido é a pressão dos anunciantes. Mas há outro, quase tão deletério: a pressão dos leitores, especialmente em tempos de ampla polarização, como agora.

A polarização, aliás, sempre acompanhou a vida política nacional, seja nos tempos de Getúlio, de JK, de Jango, do golpe militar. O único pacto nacional, em todas essas décadas, foi na campanha das Diretas e na Constituinte de 1988.

O país entrou nos anos 90 sob ventos democráticos. E aí apareceu o grande poder da imprensa, derrubando presidentes e ajudando a formatar opiniões.

Mas, enquanto prevaleceu o pacto, os jornais conseguiram cumprir sua missão. A partir dos anos 90, houve uma profissionalização da publicidade, que passou a medir os jornais de acordo com a tiragem e o público atingido. E a Folha, de Otávio Frias de Oliveira, percebeu que a chave do crescimento seria atender a todos os públicos — movimento valorizado pela inflexibilidade de O Globo e do Estadão. Afinal, o leitor do PT consome bens de consumo como os do PSDB, do PFL. Essa diversidade era atingida proporcionando um grau maior de liberdade aos colunistas.

A partir da polarização do período pós-2000, liderada por Roberto Civita, tudo mudou. De um lado, abriu-se espaço novamente para a imprensa alternativa, da mesma maneira que a ditadura abriu espaço para o Pasquim, Opinião e Movimento.

Há uma questão política no aparecimento da imprensa alternativa, mas, sobretudo, oportunidades de mercado. Quando a Folha atendia a todos os públicos, não havia esse espaço. Com a radicalização, os setores democráticos ficaram à deriva, abrindo espaço para o aparecimento de blogs e portais.

Agora, a polarização veio acompanhada de uma mudança no modelo de negócio. Durante algum período, a publicidade do Google garantia receita para os veículos alternativos. Do mesmo modo, havia espaço na publicidade oficial, embora o maior filão fosse para a imprensa corporativa.

Depois, gradativamente, o sistema de remuneração do Google e do YouTube foi minguando e, agora, com o aparecimento da Inteligência Artificial, tende a perder qualquer relevância. Assim, o jornalismo acabou sendo despejado em redes como Instagram e TikTok. E, nelas, não há espaço para aprofundamento.

O que se vê, então, são não apenas jornalistas transformados em influenciadores, mas intelectuais e estrelas da TV. Aparentemente, para alguns canais, como a GloboNews, um dos ativos dos comentaristas passou a ser o número de seguidores. E, para engajar seguidores, as mensagens têm que ser curtas e impactantes, ou então vídeos com micagens dos jornalistas, do tipo “eu sou gente (boba) como você”.

Esse modelo espalhou-se também pela cobertura dos grandes jornais. Não há mais grandes reportagens, restritas agora a poucos portais alternativos. O que há é uma saraivada de notas curtas, com pegadinhas do tipo “adivinhe o que…”, em que o título não reflete a informação objetiva, mas se limita a aguçar a curiosidade.

O mesmo ocorre no jornalismo televisivo. Cada vez mais as reportagens são abolidas e os setoristas, afastados, são substituídos por um festival de palpites.

A imprensa alternativa não fica atrás. Com menos recursos do que a imprensa corporativa, muitos portais se limitam a releituras de suas notas, ressaltando aspectos minimizados por ela.

No caso dos intelectuais, o jogo é mais humilhante. A rapidez das redes sociais exige, diariamente, a atualização de comentários. A produção de um intelectual, ao longo de sua vida, gera uma, no máximo duas, ideias originais. E as redes sociais não admitem temas repetidos. Assim, alguns deles passam a atuar como influenciadores, sempre a identificar qualquer tolice da direita para rebater com a voz indignada dos justos.

Hoje em dia, o que se vê é uma guerra de narrativas, que fala mais ao fígado do que ao cérebro das pessoas. E a Inteligência Artificial está apenas começando.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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