
Na política, as situações mudam como as nuvens. Com o fenômeno El Niño, seus impactos mais agudos no clima, que ameaçam o agronegócio brasileiro, estão previstos para o período setembro-outubro-novembro. Mas há indícios de que as intempéries não se concentrarão só na reta final do período eleitoral (o primeiro turno é em 4 de outubro e o segundo, em 25 de outubro). Na política, assim como no Rio Grande do Sul, já estão se antecipando em julho. Espera-se que, no Sul, não se repita a tragédia de maio-junho de 2024.
Entretanto, na campanha eleitoral do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os estragos estão sendo antecipados de forma dolorosa, como se viu na convenção do PL. Na política, as alianças são construídas ante a perspectiva de poder. Os partidos se aliam a quem oferece possibilidades de repartir o poder. Quando um candidato não consegue ampliar as alianças é porque está em curso o que os mineiros citam como “situação de vaca desconhecer bezerro”.
Os partidos que representam o “Centrão” na política brasileira, e que sempre gravitam em torno do poder para tirar uma casquinha do latifúndio chamado Brasil, diante da condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão, estavam se reunindo em torno do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). Além do PL, de Jair Bolsonaro, estariam propensos à aliança, a federação União (de Antônio Rueda) e PP, presidido pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI). E, a exemplo da aliança em SP, o eixo tenderia a atrair o PSD de Gilberto Kassab e o MDB. Mas o clã Bolsonaro temia não receber indulto para a sua tentativa de golpe de Estado, como também perder o controle da extrema direita para a direita não golpista, que se uniria aos partidos do centro, formando um novo “Centrão”. Em outras palavras, como dizia Tomasi di Lampedusa em “Il Gattopardo”: “É preciso mudar para tudo continuar como está”.
Resultado: Jair escolheu, no fim de novembro, o filho 01 como o candidato a presidente do PL. A extrema direita aderiu entusiasticamente. A Faria Lima, que fechara aliança com Tarcísio de Freitas (que jogava com a alternativa da reeleição, confirmada em abril deste ano), aderiu contrariada, e a União-PP chegou a ensaiar indicar o vice na chapa de Flávio Bolsonaro: o senador e ex-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, senador Ciro Nogueira.
O vendaval do caso Master
Em abril, as pesquisas eleitorais apontavam Flávio Bolsonaro à frente de Lula em quase todas as regiões, exceto no Nordeste. Mas estouraram os primeiros vazamentos das investigações da Polícia Federal nos celulares e computadores do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, cujo Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025.
O primeiro exposto ao sol e à chuva foi o senador Ciro Nogueira, acusado no inquérito presidido pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, de receber gordas mesadas do Master para apresentar a proposta de elevação de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o teto de cobertura das aplicações em títulos de renda fixa do Fundo Garantidor de Crédito. Flávio Bolsonaro não deu uma palavra em socorro a seu ex-futuro companheiro de chapa.
Em 13 de maio, se entenderia o silêncio de Flávio. O senador, que dizia nem conhecer Daniel Vorcaro, teve exposto pelo site “Intercep Brasil” o áudio em que cobrava do “irmão” Vorcaro os restantes R$ 73 milhões dos R$ 134 milhões devidos para bancar o filme “Dark Horse” sobre o pai, Jair. As conversas ocorreram à véspera da intervenção do BC no Master. Após sucessivas contradições e mentiras, o senador admitiu que conhecera Vorcaro em 2024.
O palanque do senador foi abalado em vários estados. Sobretudo depois dos dois longos vídeos de queixas da madrasta, Michelle Bolsonaro, acusando o filho 01 de tê-la “maltratado” e a “apunhalado” pelas costas. Fotos divulgadas, nas quais posava, em 2022, sem camisa e bebericando à beira da piscina do Hotel Fasano, em Ipanema, com o “sicário” de Vorcaro, Luiz Phillipi Mourão, que se suicidou em março em Belo Horizonte, indicaria amizade mais antiga.
Os contratempos esvaziam a candidatura de Flávio Bolsonaro. Sem perspectiva de poder, os dirigentes do União (partido mais envolvido em aplicações milionárias de governos e prefeituras nos papéis do Master) desistiram de subir ao palanque do PL. Ameaçado em seu estado natal por candidatos aliados a Lula, Ciro Nogueira optou pela neutralidade do PP na eleição majoritária, esperando alguma simpatia de Lula para que conquiste uma das duas vagas ao Senado pelo Piauí. Lá, Lula tem mais de 60% das intenções de votos. Ato contínuo, o Republicanos, partido da Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, também se declarou neutro. Macedo precisa da tolerância do Banco Central (e de Lula) para o seu banco Digimais sobreviver.
Datafolha e El Niño
A pesquisa Datafolha, divulgada sexta-feira, com Lula tendo 40% contra 32% de Flávio no primeiro turno e 48% a 43% , respectivamente, no segundo, mas feita antes da rodada completa dos tarifaços e do pedido de desculpas de Flávio Bolsonaro à madrasta Michelle, pode antecipar movimentos na política, como o El Niño.
Às vésperas da reta final para a confirmação de candidaturas e de formação de alianças (o prazo final é 5 de agosto) e o registro definitivo de candidaturas (15 de agosto), as dificuldades para Flávio Bolsonaro de formar palanques pluripartidários nos estados são um grande sintoma de perda de confiança política. O vídeo com pedido de desculpas à madrasta não resolve o problema. Um cristal quando trinca está perdido para sempre.
Nada pior do que a solidão na política. Nos estertores da ditadura, sob o bipartidarismo e a larga supremacia do PDS sobre o PMDB no Colégio Eleitoral que escolheria, em novembro de 1984, o sucessor do general João Figueiredo, último ditador do regime militar, o deputado federal Paulo Maluf viveu as duas faces do poder. Quando era governador de São Paulo usou o Banespa e a Vasp para bajular deputados, senadores e prefeitos com voto no Colégio Eleitoral, e depois se elegeu para a Câmara para fechar mais laços políticos. Enquanto parecia que teria o governo nas mãos, era paparicado pelas classes política e empresarial.
Entretanto, com o racha no PDS, que gerou o PFL, que se uniu ao PMDB que indicara Tancredo Neves para presidente e o ex-presidente do PDS, José Sarney, para vice, a candidatura Maluf minguou a tal ponto que o experiente Tancredo, uma das maiores raposas políticas do país, não só recusava adesões de última hora, como fazia força para que o deputado, senador ou prefeito de capital continuasse no PDS e fosse votar em Maluf. Seu temor era de que os militares não aceitassem o derretimento precoce de Maluf e dessem o golpe para evitar a derrota democrática. Tancredo tinha faro político e demorou a se operar (o que lhe custou a vida) até a véspera da posse, ainda com medo de golpe.
A fantástica fábrica de chocolates
É voz corrente nos meios policiais que o criminoso costuma voltar à cena do crime. Por isso, Sherlock Holmes, o genial detetive inglês criado por Conan Doyle, também voltava a investigar a cena do crime, pois o criminoso sempre tem a tentação de lá pôr pés ou lá deixar as digitais de novo.
Quando era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Flávio Bolsonaro foi acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro da prática de “rachadinhas”. Empregava várias pessoas, entre amigos e cabos eleitorais, no gabinete, mas parte do salário era devolvido no mesmo dia. A maioria aceitava de bom grado. Ganhavam algo sem precisar trabalhar ou bater ponto.
Entre março de 2015 e dezembro de 2018, quando foi eleito senador pelo Republicanos-RJ, na esteira da vitória do pai, Jair Bolsonaro, como presidente, Flávio Bolsonaro teve no mesmo período uma “criativa” e “lucrativa” franquia de chocolates da marca Kopenhagen em um “shopping” na Barra da Tijuca. O MP-RJ identificou que a criatividade da loja estava no fato de que, embora o estoque não indicasse tal volume de vendas, a conta bancária da franquia, da qual tinha um sócio, recebia depósitos de dinheiro em série. Logo no primeiro ano, Flávio recebeu R$ 180 mil em “distribuição de lucros”, o que excluiu o sócio.
O inquérito estava sob a guarda da 27ª Câmara Federal do Rio de Janeiro, presidida pelo então juiz Flávio Itabaiana. Como os caixas eletrônicos só aceitavam um máximo de 50 notas por envelope em dinheiro e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) rastreava depósitos acima de R$ 3 mil, a conta da franquia recebeu de março de 2015 a dezembro de 2018 nada menos que 1.512 depósitos em dinheiro. No período foram 63 envelopes de R$ 1.500 cada; 62 depósitos de R$ 2 mil cada e 74 depósitos individuais com R$ 3 mil. As operações eram feitas no terminal da Alerj pelo assessor de gabinete, o ex-PM Fabrício Queiroz.
Com a eleição de Flávio Bolsonaro a senador, o caso saiu da primeira Instância para o Superior Tribunal de Justiça. As provas foram consideradas nulas e o inquérito só será eventualmente retomado (junto com outras acusações) se o senador não for eleito presidente ou outro cargo público, e perder o foro especial. Para esquecer o passado, Flávio vendeu a franquia e não se falou mais disso.
Mas vejam como os rastros deixam pistas. Em duas das três notas fiscais, no valor de R$ 1,5 milhão emitidas em abril de 2025, por “serviços advocatícios”, pelo escritório de Flávio Bolsonaro, que é advogado, justamente as duas canceladas eram da empresa Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. (a marca de chocolate tem K), e ficou valendo só a de R$ 500 mil à Contábil Correa Contabilidade & Auditoria LTDA, do contador Rogério Lourenço Novo.
Rogério Lourenço Novo está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo e une o filho “01” de Jair Bolsonaro a um suposto esquema conduzido pelo grupo ligado a Daniel Vorcaro nos processos de privatização da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A., a Emae, conduzidas pelo governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) entre abril e julho de 2024. O rombo da Ambipar, sob investigação da Comissão de Valores Mobiliários, o “xerife” do mercado de capitais, equivale a quase mil vezes o montante das “rachadinhas”.
GILBERTO DE MENEZES CÔRTES ” JORNAL DO BRASIL” ( BRASIL)