
Dois fatores parecem orientar a linha editorial do jornal: uma é o antipetismo visceral e outra é seu alinhamento com Israel
Há um expediente jornalístico conhecido: quando não se pode defender abertamente uma tese — porque ela é ilegítima ou indefensável —, atacam-se seus adversários. O resultado prático é o mesmo.

É o que faz o Estadão. No editorial de hoje, o jornal reedita a lógica do tristemente célebre “Uma escolha muito difícil”, publicado nas eleições de 2018, quando equiparou Fernando Haddad a Jair Bolsonaro. Agora, em outro editorial indigno de sua história, procura vincular Lula à crise do Supremo Tribunal Federal.
O método é o mesmo: colocar Lula e Flávio Bolsonaro no mesmo plano para apagar a diferença essencial entre as duas candidaturas. Não se trata apenas de comparar programas ou estilos de governo, mas de distinguir democracia de autoritarismo, atividade política de métodos associados ao submundo do poder. Ao dissolver essas diferenças numa equivalência artificial, o jornal acaba favorecendo justamente o candidato mais comprometido com a continuidade do bolsonarismo.Play Video
Foi assim em 2018. Ao apresentar Haddad e Bolsonaro como riscos equivalentes, o Estadão não permaneceu neutro: ajudou a normalizar o candidato que defendia a ditadura, exaltava torturadores e ameaçava as instituições democráticas. A falsa simetria serviu, na prática, como apoio indireto à alternativa mais perigosa.
Dois fatores parecem orientar essa linha editorial.
O primeiro é o antipetismo visceral do jornal. Não se trata de cobrar do PT seus erros, contradições e responsabilidades — tarefa legítima de qualquer veículo de imprensa. Trata-se de lançar o partido no terreno nebuloso das “forças ocultas”, das conspirações subterrâneas e das ameaças imaginárias. É uma retórica com antecedentes conhecidos: esteve presente na campanha contra Getúlio Vargas, na ofensiva contra Juscelino Kubitschek e na preparação do ambiente político que desembocou no golpe de 1964.
O segundo fator é Israel — e, nesse ponto, é necessário examinar os vínculos políticos e ideológicos envolvidos.
A posição do Estadão sobre Gaza é reveladora. No editorial “O resgate de Gaza”, a devastação do território palestino é atribuída à corrupção de suas autoridades e à ação do Hamas, que alimentaria a “desconfiança” de Israel. O massacre de civis e a morte de crianças são, assim, diluídos numa formulação abstrata sobre desconfiança e segurança.
Em “A guerra está voltando a Gaza”, reaparece o mesmo paralelismo:
“A trégua produziu uma estranha geografia: metade de Gaza sob controle israelense, metade entregue de volta ao poder que a arruinou.”
A frase transforma ocupante e ocupado, força militar e população sitiada, em polos aparentemente equivalentes. A assimetria concreta desaparece sob uma simetria retórica.
É nesse ponto que a política externa se encontra com a política brasileira. Uma das diferenças fundamentais entre Lula e Flávio Bolsonaro está na posição diante do governo israelense e da tragédia palestina. Lula denuncia a destruição de Gaza; o bolsonarismo se alinha incondicionalmente à direita israelense.
Esse alinhamento ajuda a explicar aproximações que, à primeira vista, parecem contraditórias. A Hebraica do Rio de Janeiro abriu suas portas a Jair Bolsonaro mesmo depois de declarações racistas e autoritárias. Agora, o presidente da Conib aceita o convite para integrar um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Em um dia, comparece à celebração, na Catedral da Sé, em memória de Vladimir Herzog; no seguinte, alia-se ao filho do político que homenageou publicamente o coronel Brilhante Ustra, um dos mais notórios torturadores da ditadura.
A contradição é brutal.
O que se vê, no Brasil, é o reflexo de um movimento internacional: setores do sionismo político abandonam progressivamente compromissos democráticos e se aproximam da extrema direita, desde que ela ofereça apoio irrestrito ao governo de Israel. Autoritarismo, racismo e apologia da tortura tornam-se questões secundárias diante dessa aliança.
Não se deve confundir essa corrente política com o judaísmo nem com o conjunto da comunidade judaica, dentro da qual existem fortes vozes contrárias à ocupação, ao massacre de civis e à extrema direita. A crítica necessária dirige-se a organizações, dirigentes e projetos políticos concretos — não a um povo ou a uma religião.
É justamente isso que a falsa equivalência do Estadão procura encobrir. Ao nivelar Lula e Flávio Bolsonaro, o jornal apaga a fronteira entre democracia e autoritarismo e converte uma escolha política fundamental em simples disputa entre dois extremos. Como em 2018, a pretensa neutralidade acaba funcionando como tomada de posição.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” (BRASIL)