
A aproximação de Lula a George W. Bush foi intermediada, entre outros, por André Araújo, uma personalidade brilhante.
A aproximação do governo Bush, e do Departamento de Estado, com o governo Lula, assim que foi eleito, deveria servir de exemplo, senão aos Estados Unidos de Donald Trump, pelo menos à direita civilizada brasileira.

A aproximação entre os dois governos foi intermediada, entre outros, por André Araújo, um precioso colaborador do Jornal GGN, e uma das personalidades mais brilhantes que conheci – e, olhe!, que em minha longa carreira jornalística, conheci grandes personalidades do Brasil e do mundo. Antes das críticas à financeirização e às políticas de austericídio ganharem as manchetes, escreveu uma obra portentosa, “Moeda e Prosperidade”.
Em novembro André compareceu a um encontro com Lula, na Granja do Torto, acompanhado de Otto Reich (subsecretário do Departamento de Estado), e Ed Miller, o chefe de Planificação Política para a América Latina e o encarregado do Brasil no Departamento de Estado; do outro, Lula, Antonio Palocci, José Dirceu e Aloizio Mercadante.Play Video
Coube a André articular uma primeira reunião entre Lula e a administração Bush. Do lado norte-americano, participaram Ed Miller, conselheiro sênior latino-americanista do Partido Republicano, servindo em tempo parcial ao governo. Serviu ao Conselho de Segurança Nacional e ao Comitê de Relações Exteriores do Senado.
“Em setembro [de 2002] ficou claro que Lula iria vencer — e sabia-se dos problemas na América Latina, com Chávez e a situação argentina horrível; não se sabia o que ocorreria no México. Houve grande esforço para chegar ao novo governo Lula.
Um pouco estranho no início — uma conversa entre o PT e Partido Republicano —, com a natural desconfiança ideológica. Fizemos o esforço e Lula aceitou. Tentamos a mesma coisa com Kirchner, sem êxito. Em dezembro, houve a visita de Lula a Washington — é fora do normal uma visita antes da posse. E a visita de Estado seis meses depois da posse, fora do comum. O princípio das negociações: canal aberto; colaboração com o que concordamos; não atrapalhar o que não concordamos.
Durante a campanha de 2000, eu queria somar coisas novas ao Nafta, que era a estrela polar dos anos 1990. Mas não parecia urgente naquela época: o preço do petróleo estava em 22 dólares, e havia muitos interesses.
Dos países da América Latina, o Chile era o mais redondo: economia moderna, inclusão social. A Venezuela era o país com a maior renda per capita do mundo desde 1920 — petróleo, gás, alumínio — e não se fez nada até 2000; não se criou cultura de trabalho: lá, quem trabalha são os colombianos, os equatorianos e os imigrantes que chegaram nos anos 90. O México poderia manter o sistema, mas a população pobre era muito grande. Os países centro-americanos estavam cada vez mais integrados na economia norte-americana. A Colômbia estava melhor do que há dez anos. Na Argentina, o setor energético estava com preços congelados.
Os funcionários americanos ficaram Impressionados com o Brasil: muito trabalho por fazer, muita gente pobre — mas com sistema político estável e investimento chegando. Para um país em desenvolvimento faltavam capital, tecnologia, gerência e educação.
O Brasil estava captando, importando tecnologia. O Partido Socialista chileno era pior do que o comunista; o PS da Espanha era títere do Estado. Precisava-se de partidos de esquerda responsáveis, segundo o pensamento do Departamento de Estado”
André ajudou a organizar não só a viagem de Lula aos Estados Unidos, mas também o périplo de José Dirceu, que chegou até Condoleezza Rice e a um jantar prestigiadíssimo oferecido pelo The Washington Post.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)