AS CONFUSÕES SOBRE O MODELO CHINÊS E OS CAMINHOS PARA O BRASIL

Deng Xiaoping resumiu sua estratégia numa frase célebre: “Atravessar o rio sentindo as pedras.”

Dia desses entrevistei um brilhante cientista político sobre as próximas etapas do desenvolvimento brasileiro. Ao discutir o Plano Real, mencionei o período de desenvolvimento apoiado nas estatais, as mudanças tecnológicas e gerenciais dos anos 1980 e as formas de transição para um novo ciclo.

A União Soviética e o Brasil optaram, cada um à sua maneira, por rupturas liberalizantes. A China preferiu a transição programada.

A chamada terapia de choque é um conceito bastante preciso na literatura econômica. Consiste na liberalização rápida e simultânea de preços, câmbio, comércio exterior, sistema financeiro e propriedade estatal, em oposição ao gradualismo.Play Video

Na Rússia, Yegor Gaidar e a equipe de Boris Yeltsin, assessorados por Jeffrey Sachs e outros economistas ocidentais, aplicaram a abertura praticamente de uma só vez, antes que existissem instituições de mercado minimamente consolidadas: sistema bancário sólido, mercado de capitais, Judiciário preparado para garantir contratos, órgãos reguladores.

As consequências foram devastadoras.

O PIB despencou cerca de 40% entre 1990 e 1998. A hiperinflação destruiu a poupança da população e liquidou a antiga classe média soviética. A privatização por vouchers acabou capturada pelos próprios dirigentes das empresas estatais e, posteriormente, pelo esquema loans for shares, que transferiu parte do patrimônio energético russo para um pequeno grupo de oligarcas através de leilões manipulados.

O Brasil não reproduziu integralmente esse modelo. O Plano Real foi uma estabilização gradual e bem-sucedida. Mas, nas reformas patrimoniais iniciadas por Fernando Collor e aprofundadas por Fernando Henrique Cardoso, ocorreu fenômeno semelhante ao soviético: a velocidade da liberalização superou em muito a construção de uma estratégia nacional de transformação produtiva.

Privatizou-se, abriu-se a economia, liberalizaram-se mercados. Mas nunca se definiu qual estrutura produtiva deveria emergir dessas transformações.

A China percorreu exatamente o caminho oposto.

Deng Xiaoping resumiu sua estratégia numa frase célebre: “Atravessar o rio sentindo as pedras.” Nada foi feito por ruptura. Durante anos coexistiram preços administrados e preços de mercado (dual-track pricing).

As Zonas Econômicas Especiais funcionaram como laboratórios controlados, antes que as reformas fossem estendidas ao restante do país.

O sistema financeiro permaneceu sob controle estatal durante toda a transição. Nunca houve um choque monetário ou cambial. Evidentemente, essa característica está associada ao sistema político chinês e dificilmente seria reproduzível numa democracia.

Mas os elementos decisivos do modelo não dependiam disso.

A China obrigou empresas estrangeiras a constituírem joint ventures com empresas nacionais, utilizando o investimento externo como instrumento de transferência tecnológica. Em seguida, aplicou políticas industriais sucessivas para subir continuamente na cadeia de valor: do setor têxtil para eletrônicos; destes para telecomunicações; depois semicondutores, veículos elétricos, inteligência artificial e robótica.

Ao mesmo tempo, jamais abriu mão do comando sobre o crédito de longo prazo. O equivalente chinês ao BNDES não foi desmontado; foi fortalecido.

O resultado foi a única das três transições que produziu efetivamente um novo paradigma tecnológico.

Comentei essa experiência durante a entrevista.

Para minha surpresa, o cientista político respondeu que o Brasil jamais poderia seguir caminho semelhante porque a China é um regime politicamente fechado.

A observação revela uma confusão recorrente entre planejamento e autoritarismo. Planejamento estratégico não é uma forma de governo. É uma forma de coordenação econômica.

Regimes autoritários podem planejar desastrosamente — como demonstrou a União Soviética em sua fase final.

Democracias podem planejar com enorme eficiência — como fizeram os Estados Unidos no New Deal, a França do pós-guerra, o Japão do MITI, a Coreia do Sul e vários países europeus.

O verdadeiro debate nunca foi entre democracia e autoritarismo. Sempre foi entre países capazes de construir estratégias nacionais e países que deixam seu futuro exclusivamente à lógica espontânea dos mercados.

Fernando Henrique acabou praticando uma espécie de gradualismo tardio.

Primeiro estabilizou a moeda. Depois promoveu as privatizações, preservando intacta a arquitetura financeira criada pelo Plano Real: juros elevados, dívida pública altamente indexada e crescente centralidade do sistema financeiro. Essa estrutura acabou tornando-se a espinha dorsal do que poderíamos chamar de extrativismo financeiro.

Ao contrário da China, o Brasil jamais utilizou as privatizações como instrumento deliberado de modernização tecnológica. Os ativos privatizados passaram a operar principalmente como plataformas de captura de renda — concessões, tarifas, spreads bancários — e não como motores de inovação. O novo modelo brasileiro tornou-se financeiro, não tecnológico.

Na época acompanhei de perto esse processo.

Fui inúmeras vezes ao BNDES, profundamente inconformado com os modelos de privatização adotados. Era evidente que setores como siderurgia e petroquímica necessitavam de escala internacional para competir globalmente.

Não se tratava de impedir privatizações, mas de modelá-las. 

A modelagem é a verdadeira política industrial. Ela define quem poderá competir, quais cadeias produtivas serão fortalecidas, quais tecnologias serão desenvolvidas e quais mercados nascerão dali para frente.

Ao mesmo tempo, reduz enormemente o espaço para privatizações dirigidas e jogos de cartas marcadas.

Conversei diversas vezes com Eduardo Modiano. Os poucos economistas que percebiam a dimensão estratégica do processo — entre eles Sérgio Besserman — jamais tiveram influência proporcional à importância de suas ideias.

Recordo-me de uma palestra de Pérsio Arida. Explicava que o objetivo era desmembrar as empresas estatais para maximizar o valor obtido em sua venda. A lógica fazia sentido para um banqueiro de investimentos. Mas não para um Estado.

A racionalidade financeira pergunta:

Como obter o maior preço hoje?

A racionalidade do desenvolvimento pergunta:

Que estrutura produtiva permitirá ao país gerar inovação, renda e competitividade daqui a vinte ou trinta anos?

São perguntas completamente diferentes.

Na lógica chinesa — perfeitamente adaptável a uma democracia — o ponto de partida seria outro.

Primeiro identificar as empresas verdadeiramente estratégicas, aquelas cuja operação constitui pré-condição para que os próprios mercados funcionem competitivamente.

Transferir uma empresa dessa natureza para um único agente privado pode significar erguer barreiras permanentes à entrada de novos concorrentes.

É exatamente esse tipo de reflexão que o Brasil precisará fazer agora diante das terras raras, da transição energética, da bioeconomia amazônica, da indústria da inteligência artificial e das novas cadeias produtivas da economia verde.

A grande lição da China não está em copiar seu regime político. Está em compreender que nenhuma nação alcançou a fronteira tecnológica deixando que sua estrutura produtiva fosse definida exclusivamente pelo mercado.

Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e China utilizaram, cada um à sua maneira, o Estado como coordenador das grandes transformações econômicas.

O desafio brasileiro é adaptar essa tradição à democracia inaugurada pela Constituição de 1988, construindo pactos políticos capazes de sustentar projetos de longo prazo.

Se conseguir fazê-lo, o país poderá converter suas vantagens naturais — biodiversidade, energia limpa, agricultura tropical, minerais estratégicos e uma base científica respeitável — em um novo ciclo de desenvolvimento.

Talvez, então, o Brasil finalmente se apresente ao mundo não apenas como uma grande economia periférica, mas como a primeira grande civilização democrática do Sul Global capaz de combinar liberdade política, inclusão social e liderança tecnológica.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

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