
Inicialmente formulada na química, a teoria da bifurcação tem suscitado interesse na filosofia, na arte, na sociologia etc. O sociólogo Immanuel Wallerstein foi um dos que mais se sentiu atraído pela teoria de Prigogine e mais a aprofundou no campo da sociologia. Segundo ele, o sistema mundial moderno vem acumulando contradições; seu desenvolvimento desde o século XVI se assenta em certas premissas e tendências de longo prazo que, uma a uma, têm desaparecido ou sido colocadas em questão. O sistema mundial enfrenta neste momento uma crise estrutural que configura uma situação de bifurcação, um período de transição caótica de grande volatilidade política e econômica.
Segundo Wallerstein, essa transição poderia durar até 2050 e o que se seguiria a ela poderia ser algo mais autoritário e hierárquico ou mais democrático e igualitário. Estou convencido de que a história se acelerou nos últimos tempos e de que entraram novos fatores de imprevisibilidade, sobretudo três: o iminente colapso ecológico, o desenvolvimento da inteligência artificial e a emergência de um sionismo extremista judaico-cristão. A imprevisibilidade é maior do que nunca. Qualquer decisão de risco calculado pode resultar em um risco incalculável. Estará o mundo, concebido como o sistema mundial moderno, entrando em um momento de bifurcação? Será a guerra do Irã a manifestação desse momento? Se assim for, qualquer ação por qualquer dos principais intervenientes (Israel, EUA e Irã) ou por seus aliados, por mais calculada que seja, pode ter consequências incalculáveis:
Uma nova guerra mundial (que para alguns já começou)? Uma guerra mais militar do que econômica ou mais econômica do que militar? O fim do sistema mundial moderno assentado na vitalidade do capitalismo moderno e na hegemonia do Ocidente (sucessivamente: cidades-Estado da Itália, Portugal, Espanha, Holanda, França, Reino Unido, EUA)? Um novo período de hipernacionalismos rivais ou de guerras religiosas entre extremismos (fundamentalismo sionista judaico-cristão versus fundamentalismo islâmico)? A aceleração do colapso ecológico e do consequente deslocamento massivo de populações (os refugiados ambientais)? Uma nova conflituosidade política entre política de vida e política de morte em substituição à conflituosidade moderna entre esquerda e direita? A revolução dos sub-humanos e dos subproletários do mundo ciberautomatizado guiada por insiders arrependidos que conhecem como ninguém as vulnerabilidades do poder que se apresenta como invulnerável?
Se, por um momento, conseguirmos desviar a atenção da fachada midiática provisoriamente composta por Benjamin Netanyahu e Donald Trump, será possível centrar os esforços na busca de um possível novo equilíbrio entre o medo e a esperança, talvez só viável pós-bifurcação. E, para isso, um pouco de história pode ajudar.
Uma história de dois estreitos
Durante a Idade Média (séculos XIII, XIV e XV), o Mediterrâneo era o centro comercial do Oriente com o Ocidente, o comércio do Levante. O Oceano Índico era então dominado pelos povos da região e, desde o século VIII, pelos árabes muçulmanos. O comércio mediterrânico ocorria entre mercadores cristãos (sobretudo das cidades-Estado italianas Veneza e Gênova) e mercadores muçulmanos (do Mediterrâneo Oriental e do Norte da África), e se estendia ao Oceano Atlântico para chegar à Europa Noroeste (o noroeste do que hoje é a Espanha, o sudoeste da Inglaterra e a Flandres, Bruges, destino final). No século XIII, as casas bancárias de Florença tinham 80 filiais na Europa que funcionavam simultaneamente como instituições financeiras e seguradoras do trânsito marítimo. Trocava-se de tudo e alguns produtos eram particularmente importantes. Desde a Antiguidade, o estanho do noroeste da Espanha e do sudoeste da Inglaterra era fundamental para produzir o bronze, o metal resistente por excelência da época. A pimenta, vinda do Oriente, tinha uma importância difícil de imaginar hoje. Era uma especiaria tão importante que frequentemente era usada como moeda para pagar direitos alfandegários, impostos e dívidas entre Estados. No triângulo entre os rios Sena e Reno e o Mar do Norte, a mercadoria mais preciosa eram os tecidos. As galés da Flandres uniam o Mediterrâneo ao Mar do Norte.
Acontece que, tal como hoje, o comércio e a guerra andavam juntos, e o estreito de Ceuta (hoje Gibraltar) era um ponto nevrálgico de enfrentamento. Os comerciantes muçulmanos (e não só) praticavam o corso e a pirataria e frequentemente bloqueavam o estreito, impedindo a passagem dos barcos cristãos ou exigindo pesadas taxas para permitir a passagem, o que contribuía para aumentar o preço dos produtos. Alguns produtos se tornaram tão caros que desapareceram do mercado. Foi para pôr fim a esses bloqueios e à insegurança que os portugueses conquistaram Ceuta em 1415. Segundo os cronistas da época, ao tempo da conquista de Ceuta, 12 libras de pimenta, um produto típico do comércio do Levante, chegaram a custar 32 xelins. Enquanto, nas três décadas depois da conquista, o preço caiu sucessivamente para 16, 13 e 9 xelins. 1415 marca o início da expansão colonial da Europa (descobrimentos, reconhecimentos e achamentos) e da emergência da economia-mundo dominada pelo Ocidente. Com a tomada de Ceuta, abre-se o comércio do Mediterrâneo, do Atlântico Norte e a expansão para o Ocidente, a começar pelos arquipélagos dos Açores, da Madeira e das Canárias.
Não se pense que o objetivo era a liberdade do comércio sem limites. Visava-se criar novos monopólios e zonas exclusivas de navegação, o mare clausum [mar fechado] que o Tratado de Tordesilhas (1494) iria consagrar. Só no século XVII o mare clausum seria substituído pelo mare liberum [mar aberto]. E isso ocorreu quando as burguesias do Norte da Europa se consolidavam no domínio do comércio mundial e convertiam o colonialismo em um dos pilares da acumulação primitiva necessária ao desenvolvimento do capitalismo industrial, um processo histórico que atingiria seu clímax na Conferência de Berlim (1884-85).
Menos de um século depois da conquista de Ceuta, em 1507, os portugueses conquistavam o estreito de Ormuz e construíam uma fortaleza na ilha de Ormuz, junto à costa do que hoje é o Irã. O objetivo era controlar o comércio entre a Índia e a Europa que transitava pelo Golfo Pérsico (ou Golfo Arábico). Em 4 de dezembro de 1513, Afonso de Albuquerque, desde 1509 vice-rei da Índia, escreve de Cananor ao rei de Portugal, D. Manuel I, uma carta reveladora do controle português do estreito:
Em toda esta costa me pediram seguros para naus de Malaca, e a todos os dei e outros para naus e portos de Ormuz, com tal condição que os cavalos tragam a Goa, porque assim fica assentado por toda esta costa não entrarem cavalos da Arábia e da Pérsia em outro nenhum porto senão em Goa. E creio que o farão, pelo bom despacho que as naus do ano passado levaram.
O domínio português durou até 1622 e foi substituído durante muito tempo pelo domínio direto ou indireto do Reino Unido (por meio de alianças com os sultanatos). Durante o século XIX e até 1921 (e depois durante a Segunda Guerra Mundial), o Reino Unido e a Rússia rivalizaram pela supremacia sobre o Irã. Isso sem esquecer o Kaiser Wilhelm II, da Alemanha, com seu projeto da linha ferroviária entre Berlim e Bagdá, cuja construção começou em 1888. Essa linha ferroviária seria parte do Eixo Transversal da Eurásia, que ligaria Hamburgo a Basra, no Golfo Pérsico, via Praga, Budapeste, Constantinopla (hoje Istambul) e Alexandreta (hoje İskenderun). Era a primeira versão do “Drang nach Osten”, a expansão para o Leste do imperialismo alemão. Um dos conselheiros do Kaiser, Paul Rohrbach, defendia que o Império Britânico poderia ser mortalmente atingido no Oriente Médio. A segunda versão do “Drang nach Osten” seria protagonizada por Hitler, tendo, nesse caso, como alvo os povos eslavos e, sobretudo, a Rússia. Depois da Segunda Guerra Mundial, a luta pela supremacia sobre o Irã passou a ser dominada pelos EUA. Como sabemos, o estreito de Ormuz é hoje parte do Irã e sofre atualmente o bloqueio dos EUA.
O princípio e o fim?
O estreito de Gibraltar (à época chamado estreito de Ceuta) no início do século XV e o estreito de Ormuz nos nossos dias têm uma grande semelhança aparente. O domínio do estreito de Ceuta pelos árabes muçulmanos não visava impedir o comércio, visava apenas alterar a seu favor os termos das trocas comerciais. Podemos dizer que o mesmo se passa com os persas muçulmanos ao reivindicarem o controle do estreito de Ormuz. O bloqueio de retaliação por parte dos EUA terá visado apenas eliminar as vantagens comerciais que o Irã procurava obter com o controle do estreito.
A semelhança aparente entre as duas situações esconde uma profunda diferença. O Irã, tal como os países do Golfo Pérsico, tem todo o interesse na liberdade do comércio através do estreito. O controle que o Irã agora pretende é apenas uma resposta aos bombardeios e à ameaça de invasão por parte dos EUA e de Israel. Como diria o escritor francês Jean Rolin, é uma “tática assimétrica” para contornar a enorme superioridade militar dos agressores. Jean Rolin publicou em 2013 um romance intitulado Ormuz. Nesse romance, há muita informação sobre a natureza e o significado do estreito. Dois mundos diferentes, o árabe e o persa, a mesma religião: dois modos diferentes de ser muçulmano. Com base na rica informação, o escritor defende que o Irã pode recorrer ao que designa por “táticas assimétricas”, táticas suscetíveis de contornar a superioridade militar e tecnológica do adversário. É isso o que está acontecendo. Diante disso, é necessário mostrar as diferenças entre Gibraltar do século XV e Ormuz do século XXI.
O significado de Gibraltar
O domínio do estreito de Ceuta por parte dos portugueses e do Ocidente em geral não foi apenas um acontecimento conjuntural a serviço dos mercadores cristãos. Foi o início do declínio do domínio dos árabes/muçulmanos no Mediterrâneo e no comércio do Levante, um declínio que se consumaria com a queda de Al-Andalus em 1492. Foi, por outro lado, o momento inaugural de um novo período histórico dominado pelo Ocidente, o moderno sistema mundial. Foi uma das primeiras manifestações de um novo centro de poder mundial que tinha a seu favor dois fatores: a emergente burguesia europeia e a ciência moderna.
A longo prazo, a abertura do estreito favoreceu menos os Estados mediterrânicos ou da Península Ibérica do que os países da Europa do Norte. O capitalismo emergia então como um sistema global, enquanto economia-mundo, muito dinâmico, mas também muito contraditório, sujeito a crises recorrentes. Por sua vez, a derrota do islã em Ceuta significou a confiança em um novo sistema de conhecimento experimental e de observação empírica que recorria aos melhores cartógrafos, astrônomos, astrólogos, médicos e cientistas em geral, quase todos judeus, para aprofundar os conhecimentos que garantissem o domínio dos mares. Não é por acaso que o Infante D. Henrique foi nomeado governador de Ceuta em 1416, logo após a conquista. O Infante D. Henrique foi o fundador da Escola Náutica de Sagres e o grande arquiteto da expansão marítima portuguesa. Gomes Eanes de Azurara que, tal como Luis (Alvise) Cadamosto, esteve muito próximo do Infante e escreveu as crônicas da primeira fase da expansão colonial portuguesa, afirma que o Infante passava noites seguidas sem dormir estudando astronomia e geografia.
É hoje difícil imaginar que ainda no início do século XVIII um dos prêmios mais cobiçados na Europa de então fosse conferido a quem descobrisse o meio mais exato de determinar a longitude, um dado fundamental para orientar a navegação em alto-mar. Uma lei de 1714 da Câmara dos Comuns do Reino Unido atribuía um prêmio a quem descobrisse o modo de determinar a longitude da forma mais exata: 10.000 libras esterlinas a quem assegurasse observações de longitude com 1 grau de aproximação; 20.000 a quem a determinasse com aproximação de meio grau; e 15.000, com aproximação intermediária. Da comissão de avaliação faziam parte Isaac Newton e vários membros da Royal Society. A França oferecia prêmios similares. Só a partir de 1765 foi possível determinar a longitude com erros ínfimos.
Se se quiser, havia ainda um terceiro fator na construção da nova época, a religião, em um primeiro momento, o catolicismo e depois o catolicismo e o protestantismo. Ao longo da Idade Média, desde as Cruzadas, a Igreja Católica tinha sido um importante fator de articulação entre os diferentes Estados cristãos europeus e entre suas elites. Esse impulso, combinado com as vantagens econômicas, permitia manter as rivalidades funcionais ao desenvolvimento do capitalismo.
O significado de Ormuz
O estreito de Ormuz tem talvez hoje a importância que tinha no fim da Idade Média o estreito de Gibraltar. Todo o petróleo produzido no Oriente Médio (com exceção do Egito e da Turquia) é produzido no Golfo Pérsico e constitui entre 20% e 30% da produção mundial. Todo ele passa pelo estreito, para não falar dos derivados do petróleo, dos fertilizantes, do alumínio etc. Mas o contexto em que ocorre hoje o conflito no estreito de Ormuz é radicalmente diferente do que ocorreu em Ceuta (Gibraltar) no início do século XV. Ao contrário do que sucedia então, o dinamismo do capitalismo global deslocou-se para o Oriente. O Irã não está só. Está acompanhado da Rússia e da grande fábrica do mundo, a China.
Por sua vez, também é diferente a luta pelo conhecimento que possa se traduzir em vantagem geoestratégica. A rivalidade para determinar a longitude ocorria entre países europeus, enquanto a rivalidade pelo avanço tecnológico nos nossos dias, sobretudo no domínio da Inteligência Artificial, ocorre entre os Estados Unidos e a China.
Além disso, a própria superioridade militar dos EUA é questionável. Os EUA têm uma forte presença militar no Oriente Médio e as bases militares mais importantes estão localizadas no Golfo Pérsico: Bahrein, Kuwait, Catar, EAU e Arábia Saudita. Informações confiáveis mostram que toda essa exibição de poderio militar era afinal um alvo fácil e frágil. Os drones e mísseis lançados pelo Irã reduziram essas bases a ruínas ou as tornaram inoperantes, o que levou de imediato alguns dos países que acolhem as bases a repensar sua estratégia de novas alianças, já não exclusivamente centradas nos EUA.
Se se confirma a hipótese do momento de bifurcação, depois do estreito de Ormuz, o mundo será diferente. O Irã não é a Venezuela e, por isso, as “vitórias fáceis” de que fala Donald Trump podem redundar em amargas derrotas. Se o Irã ainda não ganhou do Ocidente, mostrou, pelo menos, que se pode ganhar. E isso é irreversível.
No campo científico, o termo bifurcação foi utilizado pela primeira vez por Henri Poincaré, mas, na segunda metade do século XX, o conceito e a teoria da bifurcação passaram a ser associados ao químico e Prêmio Nobel Ilya Prigogine. A teoria da bifurcação de Prigogine se assenta nas seguintes ideias: a indeterminação fundamental da realidade e a consequente insistência em não considerar o acaso, o caos, a desordem como pura negatividade, fora do campo científico; os sistemas complexos criam formas de auto-organização que produzem mudanças e transições imprevisíveis (estruturas dissipativas); em situações fora do equilíbrio (entropia, segunda lei da termodinâmica), a desordem prevalece sobre a ordem e os sistemas podem entrar em momentos de bifurcação em
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