
Agora, esse vendaval de cidadania terá de enfrentar a frigidez de instituições esclerosadas e varrer o pó do anacronismo.
Houve quem definisse esses movimentos de massa como de “encantamento”. As pessoas que invadiram a Esplanada em 8 de janeiro, quebrando tudo, estavam envolvidas nesse “encantamento”: a possibilidade de dar um objetivo a uma vida vazia e de participar de novos tempos, ainda que por meio da destruição dos poderes da República.

Outro dia, em Serrania, uma prima me contou sobre o vendedor de laranjas que tinha uma carrocinha na praça e se encantou com a possibilidade de fazer história. Mandou-se para Brasília, participou do quebra-quebra e só caiu em si quando voltou a Serrania, pedindo asilo na casa dos fregueses em troca de laranjas.
Esse mesmo “encantamento”, manipulado pela ultradireita, manifestou-se, agora em favor do Brasil, nas jornadas inesquecíveis do segundo turno. Havia uma carência de Brasil no ar. Aqui mesmo apontei várias vezes esse fenômeno: o frisson nacional com qualquer brasileiro que se destacasse no mundo, seja no cinema, na música, nos esportes ou em competições científicas.
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Ao mesmo tempo, as redes sociais passaram a inundar o país com relatos de estrangeiros sobre o Brasil, sobre o modo de ser brasileiro, a informalidade, o jeitinho e a gentileza. No Carnaval, turistas estrangeiros que chegaram ao Rio de Janeiro passaram a fazer reels (aqueles pequenos vídeos) sobre o que viram na cidade, tendo como fundo sonoro o samba “Vai na fé” e outros hinos ao modo de ser brasileiro.
Intelectuais estrangeiros deram depoimentos para que o brasileiro deixasse de lado o complexo de inferioridade em relação à cultura europeia e entendesse a grandiosidade da cultura nacional, capaz de amalgamar todas as influências e gerar uma síntese grandiosa, como a própria música brasileira. De certo modo, isso retoma a ideia de que não existe cultura superior; a grande cultura é a que consegue assimilar todas as demais.
Esse enorme potencial, a aposta nas potencialidades do país e a luta para impedir o fim do projeto nacional nasceram da juventude. Uma passeata da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, espalhou-se como um rastilho de pólvora, incendiando o Brasil de norte a sul, em qualquer cidade que tivesse uma faculdade ou universidade.
Depois, veio o exército de Janones e as passeatas inesquecíveis na Avenida Paulista, em Copacabana e nas praças do Brasil afora, tendo como grande elemento congregador a figura de Lula, as cores verde e amarela recuperadas e o gesto do “L” com os dedos. Desse modo, essa febre cidadã espalhou-se pelo mundo como ponto de partida para a reação contra a ultradireita.
Aproveitar a oportunidade
Agora, esse vendaval de cidadania terá de enfrentar a frigidez de instituições esclerosadas e varrer o pó do anacronismo. Nem se pense em intervenções ou manobras heroicas. A renovação virá de baixo para cima, impulsionada pelos sentimentos ancestrais que renasceram sob os augúrios das caminhadas do segundo turno: a solidariedade, a busca por novas soluções, a modernização com o brasileiro no foco central das políticas e o orgulho de ser brasileiro.
Será a grande oportunidade para um salto de qualidade no desenvolvimento brasileiro. Frustrar essas esperanças significará jogar o país nas mãos do próximo candidato a déspota — e, dado o histórico brasileiro, haverá grandes chances de ser um déspota não esclarecido.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” (BRASIL)