O DESTINO DOS NOVOS INTELECTUAIS BRASILEIROS

Ensaio sobre a expansão universitária, a crise do trabalho intelectual e o esgotamento de uma promessa histórica.

1.

Há algo de particularmente desconcertante na situação contemporânea dos doutores brasileiros em humanidades. Durante décadas, a ampliação do sistema universitário foi apresentada como condição indispensável à superação de nosso atraso histórico, compreendido simultaneamente como deficiência econômica e insuficiência intelectual.

A universidade, cuja implantação entre nós se fez tardiamente, deveria constituir o lugar em que a sociedade brasileira encontraria os instrumentos de sua própria inteligibilidade. A constituição de um corpo de pesquisadores prometeu ainda nos tempos de ditadura militar que a consolidação da pós-graduação seria uma etapa em nosso vislumbrado processo civilizatório.

Ocorre que a extraordinária ampliação desse sistema, cujo significado democrático seria absurdo desconhecer, produziu uma contradição que seus promotores parecem pouco dispostos a examinar: formamos pesquisadores em número crescente, ao mesmo tempo que se estreitam as condições sociais e institucionais necessárias à continuidade de seu trabalho.

Os números oferecem a dimensão do problema, embora sejam insuficientes para explicá-lo. Entre 1996 e 2021, o Brasil passou de 1.209 para 4.691 programas de pós-graduação, crescimento de 288%. A expansão implicou a formação de sucessivas gerações de mestres e doutores, a diversificação das agendas de pesquisa e a incorporação de parcelas da população historicamente afastadas da vida universitária fez de nossos pátios escolares um ambiente renovado em vida.

Entretanto, a passagem da formação ao exercício profissional permaneceu dependente de uma estrutura ocupacional relativamente restrita. Em 2021, aproximadamente 72% dos empregos formais ocupados por doutores concentravam-se no setor da educação. Essa concentração demonstra a fragilidade de um sistema cuja reprodução depende, em larga medida, de sua capacidade de absorver os indivíduos que ele mesmo certifica.

Na ausência de uma expansão correspondente das posições permanentes de pesquisa e docência, a titulação passa a representar uma promessa cuja realização se torna progressivamente incerta. Por outro lado, seria precipitado concluir que o país possui doutores em excesso. A questão é saber por que uma sociedade que ainda apresenta índices modestos de formação avançada se revela tão pouco capaz de incorporar seus próprios intelectuais.

2.

A dificuldade decorre, em parte, de uma transformação mais geral das relações entre conhecimento e trabalho. Quando Max Weber, em sua conferência sobre a ciência como vocação, examinava a condição do jovem acadêmico, já reconhecia o caráter contingente e frequentemente arbitrário de seu ingresso na carreira universitária. A vocação científica nunca constituiu garantia de reconhecimento institucional.

Contudo, a instabilidade que Max Weber identificava no acesso às posições acadêmicas adquire outra configuração quando a excepcionalidade tende a converter-se em regra. O pesquisador contemporâneo é frequentemente submetido a um regime de preparação indefinida: graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, contratos temporários, bolsas sucessivas, deslocamentos territoriais e concursos cuja oferta mantém relação cada vez mais tênue com o contingente de profissionais formados.

A carreira, outrora concebida como uma progressão institucional, assume a forma de uma espera sem horizonte determinado. No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, a Secretaria Estadual de Educação não organiza concursos públicos para seus quadros há doze anos. A juventude intelectual, nesse regime, prolonga-se artificialmente até uma idade em que não é possível confundi-la com uma etapa ordinária de formação.

A expansão universitária brasileira contém em si uma ambiguidade histórica. Ela realizou de maneira incompleta uma promessa de democratização social, ao mesmo tempo que ampliou o contingente de indivíduos submetidos à competição por um conjunto limitado de posições. Seria conveniente aos defensores de uma explicação puramente meritocrática atribuir os insucessos individuais à qualidade insuficiente da formação ou à incapacidade de adaptação dos candidatos.

Essa interpretação encontra seu limite na própria estrutura do problema. Quando dezenas de pesquisadores disputam uma única vaga, o resultado do processo seletivo informa sobre a distribuição das posições disponíveis, sem constituir necessariamente um juízo absoluto sobre a competência dos concorrentes.

A excelência, cuja definição institucional já apresenta dificuldades consideráveis, transforma-se em instrumento de classificação numa situação em que a exclusão é previamente determinada pela escassez. O sistema continua a exigir desempenho extraordinário mesmo quando perdeu a capacidade de oferecer perspectivas ordinárias de integração profissional.

3.

A referência a Pierre Bourdieu é instrutiva. O campo acadêmico distribui espécies específicas de capital simbólico, cuja acumulação depende de mecanismos de reconhecimento que não se confundem imediatamente com aqueles do mercado econômico. No Brasil, porém, a crescente produção de títulos e credenciais encontra uma dificuldade suplementar: a conversibilidade do capital acadêmico em segurança material está longe de ser assegurada.

O pesquisador pode acumular publicações, domínio de línguas estrangeiras, experiência docente, participação em congressos e reconhecimento de seus pares, permanecendo, entretanto, desprovido de uma posição profissional estável. Instaura-se uma cisão entre consagração simbólica e existência social. A universidade reconhece a competência que ajudou a produzir, mas esse reconhecimento frequentemente se encerra nos limites de seus próprios rituais.

A situação torna-se ainda mais contraditória quando examinamos a organização interna das próprias universidades. A crise de reconhecimento das humanidades encontra correspondência em práticas acadêmicas que frequentemente subordinam a elaboração intelectual à administração de indicadores de produtividade. A busca pela produção infinita passa a funcionar como métrica última de desempenho.

Sob tais condições, a continuidade de uma pesquisa de longa duração, a elaboração de uma obra teórica de grande fôlego ou a dedicação paciente aos problemas filológicos tornam-se atividades progressivamente difíceis de compatibilizar com os regimes de avaliação.

A consequência não é necessariamente a diminuição quantitativa da produção, mas a possibilidade de uma transformação qualitativa em seus princípios de organização. A pesquisa passa a ser frequentemente planejada segundo as exigências de sua circulação institucional, e não segundo a temporalidade interna de seus problemas.

Theodor Adorno reconheceu, no fenômeno da semiformação (Halbbildung), uma das manifestações mais perturbadoras da sociedade administrada. Sua análise, embora situada em circunstâncias históricas distintas, permite interrogar a distância crescente entre a acumulação de credenciais culturais e a efetiva experiência formativa.

A erudição, quando reduzida a um conjunto de competências demonstráveis, corre o risco de perder precisamente aquilo que justificava sua importância: a possibilidade de estabelecer relações não imediatamente previstas entre objetos, tradições e formas de conhecimento. Uma universidade pode multiplicar seus diplomas, aperfeiçoar seus mecanismos de avaliação e ampliar sua produção bibliográfica sem assegurar, por isso, o fortalecimento da vida intelectual. O crescimento quantitativo das instituições não constitui critério suficiente para aferir a vitalidade do pensamento que nelas se desenvolve.

4.

Não seria menos equivocado, entretanto, transformar essa crítica em nostalgia da antiga universidade de elite. O acesso restrito à formação superior constituiu, por muito tempo, um dos instrumentos de reprodução das hierarquias sociais brasileiras. A formação de pesquisadores provenientes das classes populares representou uma conquista histórica, cujas consequências intelectuais ainda não foram inteiramente avaliadas.

A entrada desses indivíduos na universidade permitiu o surgimento de novas questões, experiências e perspectivas interpretativas. Precisamente por isso, a atual precarização assume um significado político ainda mais grave. A instituição que tornou possível a ascensão intelectual de sujeitos anteriormente excluídos revela-se incapaz de assegurar a continuidade material de suas trajetórias. A democratização do acesso, desacompanhada de políticas equivalentes de inserção profissional, ameaça converter-se numa democratização da vulnerabilidade.

É sobretudo na relação com o futuro que a crise assume sua configuração mais profunda. Reinhart Koselleck mostrou como a experiência histórica moderna se organizou mediante uma tensão entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa. A formação universitária participou dessa estrutura temporal ao oferecer aos indivíduos a possibilidade de projetar uma existência diferente daquela determinada por sua origem social.

O doutorado, nesse sentido, constituía uma aposta na inteligibilidade do futuro. Os anos de dedicação intelectual seriam recompensados pela possibilidade de participar da vida científica de maneira relativamente estável. Quando essa relação se rompe, não desaparece apenas uma expectativa profissional. Enfraquece-se a confiança nas mediações institucionais. A incerteza passa a constituir sua condição permanente da produção de teoria.

Daí decorre uma forma particular de sofrimento intelectual. O pesquisador desempregado não experimenta somente a privação de renda, cuja gravidade seria suficiente para justificar uma intervenção pública. Ele se confronta com a possibilidade de que os conhecimentos adquiridos ao longo de muitos anos permaneçam socialmente inoperantes.

Bibliotecas pessoais, manuscritos, idiomas aprendidos, arquivos e problemas teóricos longamente amadurecidos passam a existir numa espécie de suspensão histórica. O indivíduo continua a possuir uma formação que a sociedade, em princípio, reconhece como excepcional, mas encontra dificuldades crescentes para exercê-la.

5.

A interrupção de uma carreira de pesquisa significa também a possível dispersão de uma experiência intelectual acumulada. A perda, portanto, excede a biografia de quem a sofre. Ela alcança o próprio patrimônio cognitivo que a coletividade financiou, direta ou indiretamente, para constituir.

Talvez seja nesse sentido que se possa falar, sem ceder prematuramente ao catastrofismo, de um possível fim das humanidades acadêmicas. Refiro-me ao esgotamento de uma configuração institucional específica, na qual a investigação humanística encontrou condições relativamente estáveis de reprodução e reconhecimento.

O fim aqui considerado não se anuncia necessariamente pelo fechamento das faculdades ou pela extinção formal dos departamentos. Pode realizar-se de maneira mais discreta: pela redução das oportunidades de carreira, pela precarização dos vínculos docentes, pela dissolução do tempo de pesquisa e pela progressiva aceitação da irrelevância pública das disciplinas.

Há, por fim, uma ironia histórica que merece ser registrada. Durante muito tempo, o atraso brasileiro foi atribuído à ausência de universidades, à insuficiência de pesquisadores e à precariedade de nossa vida científica.

Hoje, quando dispomos de um sistema de pós-graduação complexo, capaz de produzir investigações reconhecidas internacionalmente, defrontamo-nos com uma dificuldade que parece inverter os termos do antigo diagnóstico: já não basta formar aqueles de cuja inexistência nos lamentávamos. É necessário que sua existência encontre lugar efetivo na organização social.

A universidade brasileira ampliou, de maneira extraordinária, a capacidade de produzir pensamento; permanece em aberto a questão de saber se o país deseja criar as condições para que esse pensamento continue a existir.

A história intelectual brasileira talvez venha a reconhecer nessa contradição um dos sinais mais expressivos de nosso tempo. Uma sociedade que investe na formação de seus intérpretes e, concluída essa formação, os abandona à instabilidade permanente compromete sua própria capacidade de autocompreensão. Nenhuma comunidade política pode dispensar indefinidamente os instrumentos críticos mediante os quais examina sua experiência, conserva sua memória e questiona seus horizontes de possibilidade.

A extinção das humanidades acadêmicas, caso venha a consumar-se, dificilmente será anunciada por um decreto. Talvez se manifeste, antes, no silêncio progressivo de bibliotecas que já não encontram seus pesquisadores, de trabalhos que não chegam a ser escritos e de inteligências cuja formação a sociedade custeou, mas cuja atividade deixou de considerar necessária.

O que então terá desaparecido será algo mais difícil de reconstruir que uma carreira ou um departamento: a confiança coletiva de que o exercício paciente do pensamento merece um lugar na vida de uma nação.

LUIZ COSTA LIMA” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASL)

*Luiz Costa Lima é Professor Emérito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC/RJ) e crítico literário. Autor, entre outros livros, de O chão da mente: a pergunta pela ficção (Unesp). [https://amzn.to/3FpYW2F]

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