
A glorificação do bandeirantismo e o projeto anticomunista forjaram as bases ideológicas e institucionais da criação da Universidade de São Paulo na década de 1930
1.
Há no Chile um coletivo chamado “Histórias Desobedientes”, composto por pessoas que repudiam o genocídio realizado por seus familiares na ditadura militar que assolou aquele país (1973-1990).
O presente artigo trata de uma história absolutamente diferente, a história de uma universidade cujos fundadores glorificaram seus conterrâneos genocidas.
Existem importantes pesquisas sobre esse tema.
Sob a orientação de Luiz Pereira, um dos mais radicais pesquisadores da Escola Paulista de Sociologia, Irene Cardoso (1980/1982) fez uma pesquisa de doutorado pioneira e corajosa sobre o anticomunismo e o bandeirantismo na origem da USP.
A influência do bandeirantismo nas posições dos fundadores da USP também foi investigada por Kátia Abud (1985/2019) e Priscila Silva (2015).
A escravização e o genocídio indígenas foram estudados por John Monteiro (1994) e Manuel Pacheco Neto (2015).
As pesquisadoras Sueli Carneiro (1995) e Rachel Passos (2021) analisaram a violência contra as mulheres negras e indígenas e o estupro colonial.
Nos últimos anos, o pesquisador Nandi Barrios (2026) tem se dedicado ao estudo sobre a resistência das pessoas indígenas aos ataques dos bandeirantes.
As manifestações e protestos contra os monumentos dedicados aos bandeirantes foram apoiados pela deputada estadual por São Paulo Érica Malunguinho (Ramos, 2021), autora do PL 404/2020, que visa proibir homenagens a escravocratas, e foram estudados por Elisângela Lima e Mário Medeiros Silva (2024).
2.
No documentário “1935: o assalto ao poder”, ao narrar a história do Levante Comunista, Eduardo Escorel (2002) traça um panorama dos acontecimentos políticos no período em que a USP foi fundada. Ao mesmo tempo em que, liderados por Luiz Carlos Prestes, comunistas defendem a luta armada, com o apoio de políticos e empresários paulistas, Getúlio Vargas impõe o regime de exceção:
“Prestes chegou ao Brasil na semana em que Armando de Salles Oliveira tomou posse, como governador de São Paulo. Dias antes, fora aprovada pelo congresso e sancionada por Getúlio Vargas a Lei de Segurança Nacional, a Lei Monstro. (…) Armando Salles assumira a defesa da Lei de Segurança Nacional e do fortalecimento dos poderes do presidente da República. Na cerimônia de posse, o governador estava acompanhado de perto por um dos autores da Lei Monstro, o paulista Vicente Rao, ministro da Justiça de Getúlio Vargas” (Escorel, 2002, 29m 15s–29m 58s).
Antes de se tornar ministro, Vicente Rao figurou entre os primeiros docentes da USP, fundada por Armando Salles, com o apoio do empresário Júlio de Mesquita Filho, cunhado do governador e proprietário do jornal O Estado de São Paulo.
Em seus editoriais, provavelmente, elaborados pelo próprio Júlio de Mesquita, o jornal fez campanha a favor do projeto que inspira a Lei de Segurança Nacional:
“Reconhecer aos funcionários (públicos) o direito de greve é permitir, dentro do Estado, a constituição de um poder novo, com forças para enfrentá-lo, para embaraçá-lo no exercício regular de suas funções. É, por outras palavras, abolir a disciplina e suprimir a hierarquia. (…)
Mas o projeto não se limita a punir o funcionário (público) que se declara em greve. Pune, também, aquele que se filiar ostensiva ou clandestinamente, a partido ou agremiação de existência proibida. (…)
Com as ressalvas e cautelas que o projeto adotou nada há também que objetar contra a extensão da mesma penalidade aos professores que se aproveitam da liberdade de cátedra para a propaganda de guerra ou de processos violentos para subversão da ordem política ou social” (O Estado de São Paulo, 1935, p. 3).
3.
No início de 1936, alguns meses após o Levante Comunista, um editorial do jornal dirigido por Júlio de Mesquita sustentou: “O que precisamos criar, no Brasil, é uma forte mentalidade anticomunista” (O Estado de São Paulo, 1936, p. 3).
Tendo como plataforma eleitoral a criação da USP, Armando Salles apresentou-se como candidato à presidente. Num discurso, o político citou as nações dominadas pelo fascismo e o nazismo que, com regimes focados na disciplina, conseguiram “vencer a anarquia e isolar o germe marxista”, mas à custa da perda da liberdade. Todavia, segundo Armando Salles, estas “grandes nações” têm o que nos ensinar:
“Peçamos à Itália, à Alemanha e a Portugal os poderosos métodos de propaganda por meio dos quais levaremos aos últimos recantos do país a palavra de união e de fé em volta da bandeira da Pátria” (Jornal do Brasil, 1936, p. 13).
Em completa sintonia, Júlio de Mesquita e Armando Salles apostam no bandeirantismo como peça central de sua ideologia anticomunista. Em outro discurso de campanha, Armando Salles afirma:
“Não há quem desconheça a concepção de Brecheret. (…) Dois bandeirantes, os chefes, vão à frente, a cavalo: é o princípio da autoridade, o mais forte esteio da civilização que o comunismo tenta destruir. As figuras decrescem de tamanho: é a hierarquia, inseparável da disciplina, e um dos mais belos princípios da organização social, porque permite ao que está no ponto mais baixo ascender por si mesmo à posição mais alta” (Revista São Paulo, 1936, p. 5).
4.
Os estupros e demais atrocidades dos bandeirantes estão registrados nos documentos, cartas e escritos dos jesuítas (Monteiro, 1994; Pacheco Neto, 2015). Indicarei passagens desses textos que, certamente, eram conhecidos pelos fundadores da USP, e agora serão por quem se interessar e tiver acesso à internet.
Uma das principais fontes sobre os ataques dos bandeirantes aos indígenas são os textos do jesuíta peruano Antonio Ruiz de Montoya que, no século XVII, atuou nas missões ou reduções da região do Guaíra (Argentina, Brasil e Paraguai).
Sobre os ataques, em 1629, da tropa de Raposo Tavares às reduções de San Antonio e San Miguel, afirma Ruiz de Montoya: “entraram a som de caixa e em ordem militar (…), destroçando índios a machadadas. Os pobres índios com isso se refugiaram na igreja, onde os matavam – como no matadouro se matam vacas” (1639/1997, p. 142).
Na região do Tape (Rio Grande do Sul), onde as reduções também foram destruídas pela tropa de Raposo Tavares, os bandeirantes mataram todos os indígenas que não conseguiram escravizar: “É um costume comum destes homicidas que, quando vão embora apressados, queimem os enfermos, os velhos e os impedidos de caminhar. Porque, se estes ficam com vida, os que vão, não os esquecem e voltam para trás, estimulados pela lembrança dos que ficaram” (Montoya, 1639/1997, p. 283).
Nesse lugar, Ruiz de Montoya acolheu uma indígena de aproximadamente 7 anos, perdida pelo mato, com duas feridas na cabeça. Ela relatou o que aconteceu a ela e ao irmão depois que seus pais foram assassinados no ataque dos bandeirantes:
“Abandonaram-nos, pensando que estivéssemos mortos. Eu voltei, contudo, a mim, recuperando os sentidos, e reconheci que meu irmão ainda vivia. Cheia de medo meti-me neste mato, levando a meu manito nos braços. Estive com ele três dias, sem comer, nem beber, sustentada apenas pela esperança de que, voltando ele a si, houvéssemos de continuar a nossa viagem. Vendo, porém, que ele já ia acabando, e enxergando a mim qual me vedes, deixei-o ainda com vida, mas atravessada eu de dor. Experimentei carregá-lo às costas, mas não pude” (1639/1997, p. 282).
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De maneira parcimoniosa, os jesuítas confirmam a prática recorrente dos bandeirantes violentarem e estuprarem as mulheres negras e indígenas. Em seu relato sobre o ataque à redução de Jesus Maria, lamenta Ruiz de Montoya: “As mulheres deste povo e de outros destruídos, quando de boa aparência, fossem elas casadas, solteiras ou pagãs, encerrava-as o dono consigo num aposento, passando com elas as noites como o faz um bode num curral de cabras” (1639/1997, p. 278).
Segundo o relato Pierre Charlevoix a respeito das brutalidades da tropa comandada por Manuel Morato Coelho, que colaborou com Raposo Tavares nos ataques às reduções de San Antonio e San Miguel: “Alguns tentaram violentar moças cristãs, que preferiram deixar-se degolar a ceder à sua paixão brutal” (1757, p. 270).
Indígenas e jesuítas resistiram como puderam aos ataques dos bandeirantes. Em 1640, Ruiz de Montoya enviou uma carta ao rei Filipe IV suplicando que “se digne conceder a mercê de ordenar a emissão de licença para que as reduções possuam armas de fogo necessárias para defender-se das referidas invasões” (1640/1951, p. 434).
Um ano depois, bem armados, sob a liderança do morubixaba guarani Ignácio Abiaru, indígenas e jesuítas venceram a Batalha de M’Bororé. No fim do confronto, eles foram resgatar as pessoas da comunidade que tentaram fugir para a floresta:
“Encontraram-se corpos sem vida, mortos violentamente a facadas e golpes; crianças, idosos e alguns jovens que, de tão debilitados pela fraqueza, não conseguiram escapar. Partia o coração ouvir tais relatos, e mais ainda presenciá-los; para os nossos filhos, essas cenas serviram como lições vivas sobre a importância de viverem com prudência e de se defenderem de seus inimigos” (Ruyer, 1641/1969, p. 367).
6.
Os textos de Ruiz de Montoya (1639/1997) e de Pierre Charlevoix (1757) contribuíram para a construção de uma “Legenda Negra” (ou lenda negra) sobre os bandeirantes, apresentando-os como cruéis e criminosos (Abud, 1985/2019).
Ainda no século XVIII, a “Legenda Negra” foi criticada por Frei Gaspar Madre de Deus (1797/1920) e por seu primo Pedro Taques Leme (1768/1929), sobrinho-neto do bandeirante Fernão Dias Pais Leme.
Para esses autores, os jesuítas questionam os bandeirantes motivados por ressentimento. Taques Leme destaca que, em julho de 1640, os padres jesuítas foram expulsos do Colégio de São Paulo, razão pela qual eles mantiveram “o conhecimento muito arredado da verdade” (1768/1929, p. 178).
No século XX, Capistrano de Abreu retomou a perspectiva da “Legenda Negra”: “Compensará tais horrores a consideração de que por favor dos bandeirantes pertencem agora ao Brasil as terras arrasadas?” (1907, p. 104).
A “Legenda Negra” voltou a ser criticada pelo imortal da Academia Brasileira de Letras Afonso de Taunay, que compreende a violência como um procedimento comum a qualquer processo de colonização: “Seria néscia infantilidade pretender ocultar que o bandeirantismo se incorpora ao panorama de violência que caracterizou o apossamento da América pelos Europeus” (1924/1953, p. 21).
7.
Nos anos 1940, após Afrânio Peixoto (1940) publicar um texto contra os bandeirantes, Júlio de Mesquita Filho escreveu um livro sobre o tema: “Volta, assim, a historiografia, no Brasil, aos tempos em que Capistrano de Abreu, louvando-se unicamente nos depoimentos suspeitíssimos dos Montoya e Charlevoix, para explicar o drama cruento e complexo em que se empenharam” (1946/1956, p. 215).
Esse livro teve uma resenha bastante elogiosa de Antonio Candido de Mello e Souza, docente da Faculdade de Filosofia da USP: “argumentação rigorosamente objetiva, despida de partidarismos e estribada em dados e interpretações científicas” (1946, p. 4). Sobre a violência dos bandeirantes, discorre Antonio Candido:
“Terão agido com a crueldade excepcional e o instinto predatório que lhes são frequentemente atribuídos? O sr. Júlio de Mesquita nega-o de modo cabal. Com efeito, a política dos povos colonizadores obedece, sem exceção, ao critério da ocupação violenta e do aniquilamento das populações indígenas. (…) Os portugueses não escaparam à regra e, com eles, os seus filhos bandeirantes. Mas, indica o autor, comparando dados estatísticos, estes, na realidade, foram bem pouco sanguinários em comparação com qualquer outro grupo colonizador” (1946, p. 4).
8.
Por causa de uma entrevista de Roger Bastide a Irene Cardoso (1973), citada por ela em seu doutorado (Cardoso, 1980/1982), Claude Lévi-Strauss (1996) confirmou não ter sido recontratado na USP, em 1938, por ser socialista.
No ano anterior, Lévi-Strauss (1937) publicou uma série de artigos em O Estado de São Paulo sobre a Exposição Universal de 1937, organizada pela Frente Popular (coligação francesa de esquerda), isso teria desagradado Júlio de Mesquita (Cardoso, 1973).
O primeiro docente de História do Brasil da USP foi Afonso de Taunay, historiador especializado e fervoroso defensor do bandeirantismo (Abud, 1985/2019). Anos depois, ele foi sucedido por Alfredo Ellis, que passou no concurso para a cátedra em História do Brasil com a tese Meio século de bandeirantismo (1938/1948).
Nos anos 1930 e 1940, além de marcar o debate intelectual e político dos principais fundadores da USP, o anticomunismo e o bandeirantismo parecem ter influenciado algumas contratações de docentes na Faculdade de Filosofia.
PAULO FERNANDES SILVEIRA ” BLOG A TERRA É REDONDA”( BRASIL)
*Paulo Fernandes Silveira é professor da Faculdade de Educação da USP e pesquisador do Grupo de Direitos Humanos do IEA-USP.