
Se Al Capone precisasse hoje operar a partir de bares clandestinos, provavelmente perderia espaço para um algoritmo bem calibrado no TikTok.
A corrupção que se instalou na administração pública dos Estados Unidos talvez só encontre paralelo na Chicago das décadas de 1920 a 1970.

Chicago tornou-se o símbolo histórico da fusão entre crime organizado, máquina partidária e poder econômico. Desde o fim do século XIX, a cidade era marcada pela corrupção política sistêmica, pela prostituição aberta e pelo domínio de chefes do crime organizado. O auge veio com Al Capone e a Chicago Outfit, que controlavam jogos, bebidas e prostituição enquanto subornavam sistematicamente políticos, policiais e juízes. Paralelamente, consolidou-se a poderosa máquina democrata de Richard J. Daley, sustentada no clientelismo, no controle sindical e num domínio eleitoral quase absoluto.
Ainda assim, segundo críticos do segundo governo Donald Trump, o modelo atual superou Chicago em escala e sofisticação. A diferença fundamental é que o sistema contemporâneo opera menos nas sombras e mais à luz do dia — protegido por mecanismos legais, financiamento político institucionalizado e ecossistemas digitais de mobilização.Play Video
Relatório da minoria do Comitê de Supervisão da Câmara estima que os esquemas de pay to play (pedágio para conseguir negócios com o Estado) ligados a Trump movimentaram cerca de US$ 2,25 bilhões até janeiro de 2026, envolvendo entidades estrangeiras, oligarcas e interesses privados. O PAC MAGA Inc. arrecadou quase US$ 300 milhões em eventos realizados em propriedades da família Trump, com ingressos chegando a US$ 1 milhão por pessoa.
Os exemplos se multiplicam: contratos militares beneficiando empresas ligadas aos filhos do presidente; investimentos estrangeiros associados a negócios da família; perdões presidenciais concedidos após doações eleitorais; arquivamento de investigações contra grandes corporações financiadoras; e decisões regulatórias sistematicamente favoráveis a grupos econômicos aliados.
O quadro resultante é o de uma privatização do Estado federal americano: cargos, contratos, perdões e políticas públicas convertidos em moeda de troca política e financeira. A ampliação da imunidade presidencial pela Suprema Corte em 2024 reduziu ainda mais os riscos jurídicos inerentes a esse modelo.
Ultradireita e crime organizado
Esse fenômeno não é isolado. A ascensão global da extrema direita tem sido sustentada por alianças entre grandes interesses econômicos, lobby organizado, redes digitais e mecanismos sofisticados de influência política, abrindo espaço para o crime organizado.
Nos Estados Unidos, a NRA (Associação Nacional do Rifle) tornou-se o modelo pioneiro. De associação técnica de atiradores, transformou-se num movimento político-cultural estruturado a partir de mobilização identitária, pressão eleitoral permanente, uso intensivo de redes sociais, produção de conteúdo emocional de alta circulação e campanhas sistemáticas de guerra cultural.
Esse modelo foi exportado ao bolsonarismo no Brasil, especialmente através do movimento armamentista dos CACs. Os mecanismos são os mesmos: criação de uma sensação permanente de ameaça existencial, redes de influenciadores digitais, conteúdo algorítmico de alto impacto emocional e construção artificial de uma suposta maioria cultural.
O mesmo padrão se reproduziu em outros setores fortemente regulados, como apostas online e mineração: financiamento de influenciadores, campanhas digitais segmentadas, fabricação de “movimentos espontâneos” corporativamente financiados, captura de narrativas regionais e pressão contínua sobre marcos regulatórios.
No Brasil, tanto o mercado de bets quanto parcelas do setor mineral replicaram essa arquitetura com fidelidade.
Identifica-se assim um padrão estrutural comum, sustentado em quatro pilares: entidades aparentemente legítimas como fachada pública; financiamento eleitoral institucionalizado; ecossistemas próprios de mídia e redes sociais; e mobilização popular — real ou fabricada — como instrumento de pressão política.
A grande diferença é tecnológica
O suborno clássico dependia de malas de dinheiro, favores locais e acordos mantidos no silêncio. O modelo contemporâneo opera em escala industrial, impulsionado por algoritmos de engajamento, plataformas digitais e campanhas emocionais permanentes.
Se Al Capone precisasse hoje operar a partir de bares clandestinos, provavelmente perderia espaço para um algoritmo bem calibrado no TikTok.
Mercado financeiro e crime
A invasão do mercado financeiro pelo crime organizado decorre de dois fenômenos interligados: a ultra financeirização da economia e a espiral da especulação financeira.
O ganho do investidor se realiza sobre a valorização do ativo adquirido. Décadas de ultra fincanceirização, no entanto, tornaram os ativos reais extremamente caros em relação à oferta de dinheiro disponível. A saída encontrada pelo sistema foi abrir as comportas do mercado para a lavagem de capital em larga escala.
No Brasil, esse fenômeno tornou-se nítido a partir da gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central. Sob sua condução, autorizou-se o funcionamento irrestrito de fintechs e permitiu-se a constituição de fundos de investimento sem transparência mínima — criando as condições institucionais para que capital de origem ilícita circulasse livremente pelo sistema financeiro regulado.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)