COMO FUNCIONA O FASCISMO

Considerações sobre o livro de Jason Stanley

1.

O fascismo raramente retorna com a mesma forma pela qual entrou para a história. Quase nunca reaparece com a mesma cenografia, o mesmo léxico ou os mesmos signos exteriores que o tornaram reconhecível no século XX. Seu movimento, no presente, tende a ser menos teatral e mais capilar. Antes de se converter em regime, instala-se como método; antes de romper formalmente a ordem democrática, aprende a corroê-la a partir de dentro; antes de dispensar eleições, descobre como instrumentalizá-las. Essa transformação é central para compreender o tempo político atual.

É precisamente esse o ponto forte da análise de Jason Stanley em Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Seu argumento não consiste em banalizar o conceito de fascismo, como se toda polarização ou toda direita devesse ser automaticamente inscrita nessa categoria.

Ao contrário, o que o autor oferece é uma distinção conceitual mais rigorosa: existe uma política fascista, isto é, um conjunto de táticas orientadas à conquista, à concentração e à blindagem do poder por meio da fabricação de inimigos internos, da mitificação do passado, da manipulação moral da linguagem, do ataque ao conhecimento e da destruição da realidade compartilhada.

Seu sintoma mais marcante é a divisão deliberada da população entre “nós” e “eles”, com base em distinções étnicas, religiosas, raciais ou culturais, reorganizando a comunidade política a partir de uma lógica de pureza, medo e exclusão.

No Brasil de 2026, essa formulação adquire gravidade particular. A próxima eleição presidencial tende a ocorrer em ambiente já saturado por desinformação, hostilidade digital, fadiga institucional, polarização moral, ressentimento social e guerra cultural permanente. O problema, nesse quadro, não se limita a identificar programas, alianças e candidaturas. O problema mais fundo consiste em perguntar que tipo de linguagem, de imaginação política e de pedagogia afetiva organizará a disputa. Em outras palavras: não se trata apenas de saber quem tentará vencer, mas de saber como se tentará vencer e o que restará da democracia depois disso.

Democracias não são regimes sem conflito. São regimes que tornam o conflito civilizável. O pluralismo democrático não elimina antagonismos; ele os enquadra num espaço em que o outro continua sendo reconhecido como membro legítimo da comunidade política. Pode haver confronto duro, crítica severa, choques ideológicos profundos e projetos inconciliáveis. Ainda assim, persiste uma premissa elementar: o adversário não é um corpo estranho a ser removido da nação.

É exatamente contra essa premissa que opera a política fascista. Jason Stanley mostra que sua tática mais visível é dividir intencionalmente a sociedade entre “nós” e “eles”, produzindo um “nós” identificado com a virtude, a autenticidade, a ordem e a própria essência nacional, em contraste com um “eles” apresentado como corruptor, degenerado, ameaçador ou intrinsecamente desleal. A fronteira política, então, deixa de ser programática e torna-se ontológica. Já não se discute apenas o que o outro pensa, mas o que ele seria.

Essa mudança tem consequências devastadoras. Quando o opositor deixa de ser alguém que sustenta ideias erradas e passa a ser descrito como inimigo moral da coletividade, a política abandona sua estrutura democrática e entra em chave de guerra. A eleição já não funciona como disputa entre caminhos distintos para o país. Ela passa a ser narrada como combate entre salvação e ruína, pureza e contaminação, fidelidade e traição. O voto deixa de ser mediação institucional do dissenso e passa a ser convocado como instrumento de revanche histórica.

Não é preciso que a linguagem seja explicitamente exterminista para que esse processo esteja em curso. Ele pode operar por gradações aparentemente banais: quando certos grupos são retratados como menos nacionais, menos morais, menos confiáveis, menos produtivos, menos merecedores de direitos ou menos dignos de voz; quando o espaço público é reorganizado entre “gente de bem” e “inimigos do povo”; quando o pluralismo é apresentado como permissividade decadente; quando a divergência é reescrita como infiltração hostil. É aí que a democracia começa a adoecer.

2.

Nenhum projeto político orientado pela exclusão pode viver apenas da negação do presente. Ele precisa de uma promessa de retorno. Precisa construir a impressão de que a ordem perdida pode ser restaurada, de que a decadência tem uma origem identificável e de que o futuro só será viável se o país reencontrar sua essência supostamente traída. É nesse ponto que entra o mecanismo do passado mítico, central na análise de Jason Stanley.

Segundo o autor, a política fascista invoca invariavelmente um passado puro, glorioso e patriarcal, destruído pelo liberalismo, pelo cosmopolitismo e pela igualdade. Não se trata de reconstrução histórica, mas de engenharia ideológica. O passado não é mobilizado como campo de investigação, e sim como reserva emocional. Sua função não é esclarecer o presente, mas submetê-lo a uma nostalgia politicamente produtiva.

A eficácia desse mito reside em sua aparente simplicidade. Em vez de oferecer explicações complexas para a crise social, econômica ou cultural, ele fornece ao público um enredo moralmente inteligível: houve um tempo em que as coisas estavam em seu devido lugar, em que a autoridade não era contestada, em que a família era estável, em que a escola transmitia disciplina, em que a religião dava unidade à vida comum, em que os papéis sociais eram nítidos e em que a nação possuía coesão. A modernidade democrática aparece, então, como o princípio da dissolução. O líder autoritário se apresenta não como radical, mas como restaurador.

Essa operação é perigosa porque faz da nostalgia uma arma contra a própria história. O passado mítico nunca é inocente. Ele costuma vir associado à revalorização de hierarquias, à contenção da igualdade, ao ideal da família patriarcal e à exclusão de grupos que não cabem na imagem de pureza nacional. Jason Stanley mostra exatamente isso ao destacar como, na estrutura fascista, o passado serve para legitimar a imposição de hierarquia no presente.

No Brasil, esse dispositivo pode se manifestar nas mais variadas modalidades de saudosismo político: a escola “sem conflito”, a autoridade “sem mediação”, a religião “sem pluralidade”, a família “sem diferença”, a pátria “sem inimigos internos”, a moral “sem relativismo”. Em todos esses casos, o que se oferece não é memória, mas uma ficção restauradora destinada a produzir obediência e a reencenar desigualdades como se fossem ordem natural.

3.

Uma das maiores forças do fascismo moderno está em sua capacidade de falar por meio de palavras que, em si mesmas, pertencem ao repertório moral da democracia. Jason Stanley chama atenção para esse fenômeno ao mostrar como a propaganda usa a linguagem de ideais virtuosos para mascarar objetivos destrutivos. É precisamente por isso que a política fascista não precisa anunciar-se como barbárie. Ela pode vestir a gramática da virtude.

A liberdade pode ser invocada para atacar a liberdade dos outros. O combate à corrupção pode servir para enfraquecer instituições de controle e blindar o poder arbitrário. A defesa da família pode funcionar como instrumento de disciplina dos corpos e de exclusão de formas legítimas de vida. O patriotismo pode se converter em senha para a humilhação de dissidentes. A segurança pode ser mobilizada como pretexto para criminalização seletiva. A propaganda fascistizante é bem-sucedida porque não exige abandono do léxico democrático; exige apenas sua deformação estratégica.

Esse ponto é decisivo em ano eleitoral. Em ambientes de comunicação acelerada, slogans emocionalmente densos têm mais alcance do que argumentos complexos. A política passa a disputar pela associação imediata entre campos e valores: um lado se apresenta como portador da moralidade, da pátria, da ordem, da fé e do povo; o outro é empurrado para o lugar do caos, da degradação, da corrupção e da traição. A discussão concreta sobre instituições, políticas públicas e projetos de sociedade cede espaço à guerra semântica.

Jason Stanley mostra, por exemplo, que o discurso anticorrupção pode ser instrumentalizado para atacar um Judiciário independente, substituindo controles legais por fidelidade partidária. O que está em jogo, nesses casos, não é a integridade pública, mas a captura da própria legitimidade moral da crítica. O poder autoritário não aparece como negação do bem; aparece como sua forma mais enérgica. E é precisamente isso que o torna perigoso.

A questão, portanto, não está em saber se uma campanha fala de liberdade, família, nação ou moralidade. A questão está em saber o que ela faz com essas palavras. Quando o vocabulário da democracia passa a operar como cobertura simbólica da exclusão, da concentração de poder e da deslegitimação das mediações institucionais, a linguagem pública já foi parcialmente ocupada pelo método fascista.

4.

A política fascista não se limita a fabricar antagonismos; ela precisa estabilizá-los. Para isso, não basta construir um inimigo. É necessário convencer o grupo dominante de que ele próprio está ameaçado, acuado, humilhado ou despojado. Jason Stanley identifica esse movimento ao mostrar que, quando a realidade compartilhada se desorganiza, a política fascista procura naturalizar diferenças sociais como hierarquias humanas e transformar qualquer avanço de grupos subordinados em fonte de vitimização da população dominante.

Esse é um dos mecanismos mais poderosos do autoritarismo contemporâneo. A igualdade deixa de parecer princípio democrático e passa a ser percebida como agressão. Direitos conquistados por mulheres, negros, minorias religiosas, grupos dissidentes ou populações marginalizadas podem ser apresentados como privilégios escandalosos. O reconhecimento do outro é traduzido emocionalmente como rebaixamento de “nós”. A inclusão torna-se espoliação simbólica.

A força dessa operação deriva de sua capacidade de reorganizar o sofrimento social. Em vez de explicar a angústia coletiva por desigualdades econômicas, precarização da vida, abandono estatal, concentração de riqueza ou ausência de horizontes materiais, a política fascistizante oferece uma explicação mais simples e mais inflamável: a maioria estaria sendo substituída, silenciada ou humilhada por minorias protegidas, elites culturais, intelectuais, burocratas ou instituições que deixaram de refletir a “verdadeira nação”. O ressentimento é desviado das estruturas e redirecionado contra alvos politicamente úteis.

É assim que o mal-estar social se converte em energia de coesão autoritária. Não porque o sofrimento seja inventado, mas porque ele é narrativamente apropriado. A política já não busca compreender as razões profundas da crise; busca administrá-la afetivamente, oferecendo à frustração coletiva um rosto a odiar. O problema deixa de ser a ordem social e passa a ser o “outro” que teria avançado demais.

No Brasil de 2026, esse mecanismo pode ser particularmente explosivo. Num país de desigualdade extrema, insegurança material e circulação massiva de desinformação, a fabricação da maioria ofendida oferece uma identidade emocional pronta. A campanha fascistizante não precisa resolver nada de substantivo. Basta convencer setores amplos de que foram traídos pela democracia e de que sua dignidade só poderá ser restaurada mediante contenção, recuo ou punição de outros grupos.

5.

A história do fascismo ensina que as formas mais violentas de exclusão política raramente começam anunciando violência. Elas costumam se apresentar como necessidade de proteção. Proteção da ordem, da família, das crianças, da moral, da segurança, da pátria. Jason Stanley mostra como a política fascista utiliza a retórica de “lei e ordem” para dividir a sociedade entre cidadãos legítimos e grupos convertidos em ameaça existencial, bem como mobiliza a ansiedade sexual como instrumento de pânico moral e reafirmação patriarcal.

“Lei e ordem”, em abstrato, é expressão compatível com qualquer regime jurídico. O problema começa quando ela deixa de se referir à aplicação impessoal da lei e passa a funcionar como senha para a criminalização seletiva. Certos corpos, certos territórios, certas linguagens, certos movimentos e certas formas de vida são inscritos previamente na figura do desvio, do perigo ou da desordem. O crime deixa de ser conduta a ser apurada e passa a ser aura que recai sobre grupos inteiros.

A mesma lógica aparece no campo moral. A política fascistizante recorre com frequência à sexualização da ameaça. A igualdade de gênero, a autonomia feminina, a pluralidade sexual, a crítica ao patriarcado e os rearranjos familiares são transformados em sintomas de dissolução. O líder autoritário surge, então, como protetor da inocência, da família e da própria masculinidade nacional, enquanto o adversário passa a ser associado à degradação moral, à corrupção da infância ou à subversão do mundo íntimo.

Esse é um dos terrenos em que o fascismo contemporâneo mais se atualiza. Ele aprende a operar não apenas com medo físico, mas com medo cultural. Não apenas com insegurança social, mas com ansiedade moral. E justamente por isso esses temas tendem a ser tão centrais em campanhas eleitorais: porque permitem condensar em imagens imediatas um vasto conjunto de angústias difusas. Em vez de discutir direitos, igualdade, políticas sociais e instituições, a política passa a falar em decadência, contaminação, desproteção e necessidade de retorno à disciplina.

No Brasil, esse processo já se mostrou decisivo em ciclos recentes e tende a reaparecer em 2026 com grande intensidade. O perigo não está em debater família, segurança ou moralidade. O perigo está em permitir que esses termos sejam sequestrados por uma imaginação autoritária que transforma parte da população em ameaça intrínseca e faz da crueldade um atalho de legitimidade.

6.

Para que passado mítico, propaganda moralizante, ressentimento e pânico social se mantenham eficazes, é preciso enfraquecer as instituições que poderiam nomear a realidade com precisão. Jason Stanley formula esse ponto com clareza: a política fascista procura minar o discurso público atacando e desvalorizando a educação, a especialização e a linguagem.  O anti-intelectualismo, aqui, não é um acessório cultural. É uma peça central da máquina política.

Universidades, escolas, pesquisa, ciência, jornalismo profissional, linguagem especializada e memória histórica são perigosos para o fascismo porque impõem mediações. Eles dificultam a transformação imediata de angústia em obediência. Introduzem complexidade, verificabilidade, nuance, historicidade e pluralidade. O autoritarismo precisa, portanto, desacreditá-los. Precisa convertê-los em centros de suspeita: redutos de doutrinação, degeneração, elitismo, conspiração ou inutilidade.

Jason Stanley observa ainda que, na ideologia fascista, existe apenas um ponto de vista legítimo: o da nação dominante. Isso significa que a função do sistema educacional deixa de ser formar sujeitos autônomos e passa a ser glorificar um passado mítico, naturalizar a hierarquia e reproduzir a identidade dominante como se fosse a própria verdade da civilização. Quando isso não é possível, resta apresentar professores, pesquisadores, jornalistas e especialistas como inimigos do povo.

O empobrecimento da linguagem pública é parte do mesmo processo. Palavras complexas desaparecem; distinções importantes são ridicularizadas; conceitos analíticos são substituídos por rótulos agressivos; o debate cede lugar ao slogan. A crítica vira “doutrinação”, a ciência vira “ideologia”, o fato vira “narrativa”, a verificação vira “censura”. A ignorância, então, pode se apresentar como autenticidade popular.

O problema é que não existe democracia funcional sem algum grau de respeito pelas mediações da verdade. Uma sociedade que desacredita sistematicamente seus professores, seus pesquisadores, sua imprensa, sua história documentada e seus instrumentos técnicos de descrição do mundo cava, com as próprias mãos, o terreno da submissão à mentira.

7.

O ponto de chegada dessa engrenagem é aquilo que Jason Stanley chama de irrealidade. Quando propaganda e anti-intelectualismo fazem seu trabalho, abre-se espaço para que teorias conspiratórias e notícias falsas substituam o debate fundamentado. Aqui a mentira deixa de ser falha eventual e se torna ambiente político. Seu objetivo já não é apenas fazer acreditar em uma inverdade específica, mas dissolver a própria possibilidade de estabilização pública da verdade.

Esse aspecto é decisivo. A política fascistizante não precisa que toda mentira seja integralmente acreditada. Basta que ela contamine o espaço público de tal modo que nenhuma instituição, nenhuma prova, nenhuma mediação e nenhum procedimento possam funcionar como referência confiável. O que se busca é a fadiga cognitiva da sociedade. O cidadão deixa de saber em quem confiar, e essa exaustão abre espaço para a autoridade que promete certezas simples.

As teorias conspiratórias são especialmente úteis nesse processo porque não operam apenas como descrição delirante do mundo, mas como dispositivo de suspeição total. Seu papel é insinuar que tudo está manipulado: imprensa, universidades, eleições, tribunais, estatísticas, ciência, movimentos sociais, opositores. Uma vez instalada essa atmosfera, o líder autoritário aparece como único ponto estável de interpretação. O mundo deixa de ser conhecido por evidência e passa a ser lido por fidelidade.

No Brasil, o risco de 2026 está exatamente aí. O país já demonstrou vulnerabilidade aguda a circuitos digitais de desinformação, repetição algorítmica de boatos, escândalos fabricados, paranoia institucional e sabotagem da confiança pública. O problema agora não é apenas o volume de mentiras, mas o potencial de consolidação de um ecossistema em que a realidade compartilhada perca completamente sua função de limite.

Sem esse limite, a eleição continua existindo como rito, mas a democracia deixa de existir como deliberação. O voto permanece, mas o mundo comum desaparece. E quando o mundo comum desaparece, o poder já não precisa convencer; precisa apenas dominar a desorientação.

Talvez o alerta mais importante de Jason Stanley esteja em sua conclusão: o maior perigo da política fascista é a normalização. Essa observação atinge o coração do problema brasileiro. O autoritarismo raramente avança de uma só vez. Em geral, ele se banaliza antes de triunfar. Suas formas de linguagem tornam-se familiares; seus métodos passam a parecer parte ordinária da política; seus excessos vão sendo reinterpretados como estilo, franqueza, espontaneidade, coragem ou simples “calor da disputa”.

É assim que a humilhação do adversário se transforma em autenticidade. Que a crueldade passa por sinceridade. Que o ataque às instituições independentes parece rebeldia justa contra elites. Que a mentira é tratada como “outra versão dos fatos”. Que a nostalgia hierárquica se fantasia de amor à tradição. Que a exclusão se apresenta como defesa da maioria. O absurdo moral perde sua força de choque e entra na rotina.

A normalização é devastadora porque não exige adesão ideológica plena. Basta dessensibilização. A sociedade não precisa tornar-se integralmente fascista para começar a operar segundo a lógica fascista. Basta aceitar, pouco a pouco, que certos grupos contem menos, que certos fatos possam ser descartados, que certas instituições sejam tratadas como obstáculos ilegítimos e que a política possa funcionar pela pedagogia do medo.

Recusar essa banalização exige disciplina intelectual e coragem moral. Exige perceber que nem tudo o que se torna comum se torna legítimo. Exige manter sensibilidade para distinguir conflito democrático de degradação autoritária, crítica institucional de sabotagem, divergência de desumanização, liberdade de licença para esmagar o outro. Exige, sobretudo, não aceitar que a habituação substitua o juízo.

8.

A contribuição mais contundente de Jason Stanley para a leitura do Brasil contemporâneo talvez esteja em nos obrigar a deslocar a pergunta. A questão decisiva não é apenas se um determinado ator político deve ou não ser chamado de fascista em sentido pleno. A questão é se táticas fascistas estão sendo empregadas para reorganizar a linguagem pública, os afetos sociais, a memória histórica e a percepção da realidade. Quando isso acontece, a democracia já entrou em processo de corrosão, ainda que seus ritos formais permaneçam de pé.

Em 2026, o Brasil poderá se ver diante desse tipo de encruzilhada. Não bastará observar o resultado das urnas. Será preciso examinar o tipo de país que a própria disputa terá produzido. Se a eleição for organizada por fabricação de inimigos, nostalgia restauradora, sabotagem das mediações da verdade, manipulação moral da linguagem, criminalização seletiva e desorganização deliberada da realidade, então o problema nacional já não será apenas institucional. Será um problema de erosão civilizatória.

Democracias não morrem apenas quando o voto desaparece. Elas também apodrecem quando a sociedade perde a capacidade de reconhecer seus próprios membros como iguais em dignidade política; quando o mundo comum cede lugar à guerra de delírios; quando a crueldade se banaliza; quando a mentira se emancipa de qualquer custo; quando o poder aprende a falar a língua da virtude para corroer a própria possibilidade da vida comum.

Nomear esse processo com precisão deixou de ser excesso conceitual. Tornou-se tarefa elementar de defesa democrática. Porque o fascismo contemporâneo não precisa reaparecer com a face antiga para repetir seu trabalho histórico. Basta que consiga, mais uma vez, ensinar a sociedade a temer, odiar, lembrar e obedecer da maneira certa.

EDUARDO S.VASCONCELOS ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Eduardo S. Vasconcelos, professor e diretor do Instituto Federal Goiano (IFG), é doutor em ciências pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

Referência


Jason Stanley. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Tradução: Bruno Alexander. Porto Alegre, L&PM, 2018, 208 págs. [https://amzn.to/4nkhczt]

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