GENERAL DE ORMUZ ERA PORTUGUÊS

O Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, que separa o Irã dos Emirados Árabes Unidos, voltou ao noticiário de todo o mundo, nos últimos meses, com o bloqueio à navegação imposto pelo regime fundamentalista dos aiatolás muçulmanos xiitas de Teerã. Foi uma represália à denominada “Operação Fúria Épica”, coordenada pelos Estados Unidos e Israel, desencadeada na madrugada de 28 de fevereiro deste ano, visando instalações nucleares e militares iranianas.

Desde então, curiosamente, alguns jornalistas brasileiros demonstram surpresa, sobretudo nos canais noticiosos televisivos, ao constatarem que o estratégico estreito já foi controlado por Portugal. Ormuz passou às mãos da Coroa de Lisboa na primeira década do século XVI, conquistado pelo “Leão dos Mares”, o legendário fidalgo Dom Afonso de Albuquerque (1453 – 1515), “O Grande”, Governador-Geral da Índia e Vice-Rei do Império Português do Oriente – conforme coluna que aqui publiquei na edição de 12 de setembro de 2013.

Mais curioso ainda é que vários dos descendentes desses portugueses, estabelecidos nos dois lados do célebre estreito, embora convertidos ao Islã, orgulham-se de suas origens. As marcas de Portugal no Oceano Índico, na borda oposta à Índia, não se limitam, entretanto, ao atavismo familiar. Resistem ao tempo, até hoje, fortificações e palácios erguidos pelos portugueses, ao longo da costa oeste de Ormuz, diante do Irã. Inclusive em localidades como Dubai e Abu Dhabi – esta, capital dos Emirados Árabes Unidos, constituídos, por sua vez, de sete principados.

 Um desses emirados chama-se Fujairah, que se deve pronunciar Fujeira, uma corruptela árabe do sobrenome do luso-galego Rui Freire, considerado herdeiro do “Leão dos Mares” e conhecido como o “General do Mar de Ormuz”. Morreu, aos 43 anos, em setembro de 1633, defendendo os emirados, em nome da Península Ibérica, na guerra contra persas e ingleses. A “Operação Fúria Épica”, que trouxe às manchetes o Estreito de Ormuz, parece inspirar-se, historicamente, na presença portuguesa na região e assinala, a rigor, uma nova tentativa das grandes potências ocidentais em redesenhar o mapa geopolítico e religioso do Oriente Médio.

O início deste conflito deu-se, de fato, na tarde de sete de outubro de 2023, quando diversos comandos terroristas da Faixa de Gaza invadiram Israel. A resposta de Jerusalém, ato seguinte, foi um duro ataque aos chefões de facções do terror que se escondiam nos labirintos dos túneis da Faixa de Gaza – território à margem do Mediterrâneo, na fronteira entre o Estado judaico e o Egito.

As mudanças mais profundas devem ocorrer no Líbano e na Síria – países nos quais há quase 50 anos o regime iraniano montou verdadeiros exércitos xiitas preparados para um ‘confronto final’ com os israelenses. O principal braço armado dos fundamentalistas de Teerã se encontra no Líbano. Trata-se do Hezbollah, ou seja, o “Partido de Deus”, que depois do fim da Guerra Civil libanesa (1975 – 1990), manteve-se como uma força militar independente, dentro do País dos Cedros, atuando, igualmente, na Síria, a favor da ditadura do clã maometano alauita dos Assad. Quando das ações terroristas promovidos desde Gaza, pelo Hamas, o Hezbollah abriu outra frente contra Israel, a partir do Líbano – sem sequer pedir permissão ao governo de Beirute.

 A desmilitarização do Hezbollah, no Líbano, e o enfraquecimento do Hamas, após o enfrentamento com Jerusalém, assim como a derrubada da ditadura dos Assad, no começo de 2025, são elementos que devem determinar o próximo realinhamento no Oriente Médio.

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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