
- Há precisamente 15 anos comecei, aqui, em Portugal em Foco, a coluna “Mundos ao Mundo” – convidado pelo querido amigo Armando Torrão. Estreei no dia 5 de maio de 2011 com um artigo sobre os notáveis generais que, às portas do Recife, em 1649, na Batalha dos Guararapes, restauraram a supremacia portuguesa no Nordeste brasileiro.
- Destaquei o madeirense João Fernandes Vieira (1610 – 1681), nascido no Funchal, o luso-paraibano André Vidal de Negreiros (1608 – 1680), o índio potiguar Felipe Camarão (1600 – 1648) e o negro liberto pernambucano Henrique Dias. Destinarei esta coluna do 15º aniversário a cinco lusitanistas, que muito me influenciaram, isto é, historiadores estrangeiros dedicados ao Mundo Português. Três dos quais originários do Reino Unido.
- O mais festejado de todos é, indubitavelmente, Charles Ralph Boxer (1904 – 2000), que se apresenta C. R. Boxer e pai da magistral obra “O Império Colonial Português” – com olhar direcionado, sobretudo, para a Ásia.
- Outro lusitanista de fôlego é Elaine Sanceau (1896 – 1978), autora de uma magnífica biografia de Afonso Albuquerque (1453 – 1515), Vice-Rei do Império Português do Oriente, com capital em Goa, na Índia, e vários estudos, inclusive, um inteiramente voltado às fabulosas cidadelas e fortalezas erguidas pela Coroa de Lisboa na costa do Marrocos.
- Admiro também A.J.R. Russell-Wood (1940 – 2010), intelectual galês, que assina “Histórias do Atlântico português”, arguto discípulo de Boxer. Há, ainda, um lusitanista australiano, Patrick Wilcken, natural de Sydney, pesquisador contemporâneo, que escreveu “Império à Deriva – A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro (1808 – 1821)”.
- Existe, por fim, um colega francês, o jornalista marselhês Jean Pierre Péroncel-Hugoz, de 86 anos, grande repórter internacional do prestigioso diário parisiense “Le Monde”, acima de tudo, um refinado lusitanista – a quem faço uma menção especial nesta ocasião.
- Péroncel-Hugoz publicou, em 2002, o precioso livro “Le Fil rouge portuguais – Voyages à travers les Continents”, ou seja, “O Fio vermelho português – Viagens através dos Continentes”. Ao pé da letra, ‘fil rouge’ é ‘fio vermelho’, mas, em francês, tem o significado de ‘fio condutor’ e os ensaios dele são a prova da extraordinária incursão que fez ao imenso universo lusófono – ao percorrer, como enviado de “Le Monde”, nas décadas de 1970 e 1980, os cinco continentes.
- Reuniu uma vasta documentação da presença lusa em todo planeta. Do estuário do Tejo, que banha a Metrópole Lisboa, ao Estreito de Ormuz e Mar da China. De Moçambique, no sentido inverso, à Macaronésia, conceito criado por ele para designar o conjunto de arquipélagos e ilhas descobertas e povoadas pelos portugueses, no século XV, como a Madeira e Porto Santo, Açores, Canárias, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
- Fez, ainda, uma surpreendente conexão entre a indiana Bombaim e o Rio de Janeiro. E debruçou-se, como Elaine Sanceau, sobre o Marrocos e suas inúmeras cidades costeiras, nas quais a arquitetura portuguesa pode ser vista e comprovada, da mediterrânea Ceuta a Agadir, às margens do Atlântico, ao Norte do Deserto do Saara. Nutre, como eu, uma profunda paixão pelos Cristãos do Oriente e, em defesa deles, escreveu, em 1986, a comovente obra “Une Croix sur le Liban” (“Uma Cruz sobre o Líbano”), durante a Guerra Civil (1975 – 1990), denunciando o martírio e assassinato, principalmente, dos católicos maronitas, considerados os pais do moderno País dos Cedros – descendente da milenar Fenícia. O ‘fio condutor’ português através dos continentes conquistou lusitanistas, como Boxer, Sanceau, Russell-Wood, Wilcken e Péroncel-Hugoz, e, decerto, é a inspiração que me leva a criar, toda semana, há 15 anos, uma nova coluna.
ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” ( BRASIL / PORTUGAL)
Albino Castro e jornalista e historidoor