NO MUNDO DAS SOMBRAS

CHARGE DE LATUFF

Na realidade internacional, seja no Médio Oriente, seja no universo da espionagem euro-americana, existe um mundo de sombras, onde o segredo, a aparência, o engano e a traição são reis

Quando Netanyahu revelou a resposta israelita em “três frentes” ao que considera como conspiração iraniana contra o seu país, não se referiu à morte do líder político do Hamas.

Preferiu salientar a destruição dos reservatórios de combustível dos Ansarallah iemenitas, a morte de um alegado chefe operacional do Hezbollah, acaso de responsabilidade pelo massacre de crianças drusas, no norte do estado hebraico, em Beirute, e a eliminação da estrutura armada que comanda a “resistência” de Gaza.

A omissão sobre a ala política do Hamas, que deambula entre o Qatar, Teerão e Istambul, assim como as dúvidas (ou os vazios interpretativos) sobre o atentado a Trump, abriram imediatamente o caminho às teorias da conspiração.

Embora não ofereçam imediatamente a cara, alguns dos antigos “estudantes de teologia” que governam o Emirado Islâmico do Afeganistão acham que o assassínio do chefe político do Hamas Ismail Haniyeh, foi o produto de uma conspiração liderada por forças internas do próprio Irão, e não apenas pelo Grande Satã americano, ou pelos dois.

Durante o primeiro Emirado Islâmico do Afeganistão, até à retaliação americana pelo 11 de Setembro, as relações entre Cabul e Teerão eram péssimas, embora também ambíguas. Em 1998, em Mazar-i-Sharif, os Talibã executaram vários diplomatas do Irão, e entre essa data e setembro de 2001, os choques armados na fronteira eram diários.

Lembro-me de, na capital iraniana, ter estado durante horas no Conselho de Segurança Nacional, em conversa com dois responsáveis estratégicos pelo “telefone vermelho” que se estabeleceu entre a capital persa e Washington, para conseguir extirpar a Al-Qaeda dos braços Talibãs.

A teoria da conspiração sobre a autoria da morte do líder político do Hamas parece absurda, e não é rubricada por ninguém responsável em Cabul. A não ser para os que acreditem numa rede secreta que uns americanos, israelitas e iranianos, que explicaria as graves falhas de segurança que levaram a um atentado direcionado em Teerão, semanas depois de o ex-chefe dos serviços secretos iranianos ter jurado que havia desmantelado a rede da Mossad no país.

As teses sobre o que “realmente se move”, por baixo das aparências, ganha sempre atualidade na galáxia dos espiões. Mas mesmo aqui, como foi sobejamente descrito por John Le Carré, nem tudo o que parece é. Ou pode ser. Ou não. Ou talvez.

Na troca de prisioneiros entre Moscovo e o que a oligarquia militar russa chama “Ocidente coletivo”, o mundo das sombras voltou a mostrar-se aos transeuntes, por momentos. Tivemos, claro, um acordo desigual: do lado dos libertados por Moscovo havia apenas um verdadeiro suspeito de espionagem (Whelan). Os outros eram bodes expiatórios, jornalistas e dissidentes, advogados humanitários e personagens incómodas da oposição a Putin. Nas cadeias ocidentais, por seu turno, estavam em geral agentes do FSB, do SVR e do G(R)U, incluindo um culpado por crime de sangue na Alemanha, Vadim Krasikov, antigo membro de uma unidade de intervenção do Grupo Alfa. E tínhamos os Dultsev, que criaram um mundo de fantasia familiar, para cobrir a espionagem, e um vendedor de milhares de números de cartões de crédito, e toupeiras várias do mundo da economia, finança, tecnologia militar e lavagem de dinheiro.

A construção total de um espião é também conhecida entre nós, por exemplo no caso do falso português António de Jesus Amorett Graf, na verdade o agente russo Sergei Yakovlev, que controlava o traidor militar Herman Simm, na Estónia. Para já não falar da condenada “toupeira” do SVR no SIS, em relação à qual um diplomata russo me disse um dia, ambivalentemente: “Foi um erro. Não voltará a acontecer assim.”

Também na “guerra sem fronteiras” da Ucrânia, do Mali ao Sudão, da Europa à Ásia, contra os que cometeram crimes de guerra na invasão russa, o mundo secreto aparece à luz do dia. Isto é, quase.

Necessidades básicas

O verdadeiro Palácio das Necessidades é o Ministério da Defesa. Sobretudo em Portugal, onde os meios são precários, as contas nunca parecem bater certo, os orçamentos raramente surgem cumpridos, as carências são normalmente escondidas e permanecem desejos legítimos sobre reequipamento e melhoria socioprofissional.

Os três ramos precisam de quase tudo, e se não conseguem obtê-lo em período de pré-guerra, ou de dissuasão e prevenção dramaticamente necessárias, nunca vão consegui-lo. Daí que os desejos das chefias, no capítulo material, não possam nunca entender-se como embirração ou mania, mas simples instinto de sobrevivência.

Um País aeronaval com pés em terra urge reflexão. Mas rápida.

A penúltima vaga

A divulgação excecional do nome de um menor, autor de homicídio especialmente hediondo, não parou os motins britânicos.

A ideia de que as coisas mais terríveis das sociedades são devidas à ação de refugiados, imigrantes ou descendentes destes, acabou por encontrar satisfação na identidade do esfaqueado de origem ruandesa, descendente de um genocídio que parecia esquecido.

Além do que houver a fazer de propriamente policial, sobre desarticulação de bandos, combate à falsa informação, ou deteção de elementos perigosos, voltamos à questão das políticas de asilo, concessão de nacionalidade e opções dos Estados face à demografia exterior.

Não vale a pena fingir que há respostas fáceis.

Nas telas de agosto

No cinema, vários tipos de calor. Terra QueimadaAlien: RomulusO Corvo, Kill – Viagem Mortal e Borderlands oferecem interpretações diferentes de ideias clássicas no cinema de ação, entre a ficção especulativa e a ópera espacial, o “survivalismo” e o resgate, e o romance policial com desvios.

Já Mulheres que Esperam e Depois do Ensaio são bons olhares sobre Ingmar Bergman, em fases ímpares da obra.

Quanto a Um Sinal Secreto, A Linha e A Ilha Vermelha lidam com ciladas, memórias, tensões e obsessões que obrigam a conhecer a história do mundo, ou só da mente.

No TVCine+, é reposto Big Driver, baseado em Stephen King, cujo tema polémico de vingança e culpa continuará a devir os espectadores.
Mais crónicas do autor07 de agosto

NUNO ROGÉRIO ” SÁBADO” ( PORTUGAL)

NUNO ROGÉRIO ” REVISTA SÁBADO” ( PORTUGAL)

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