
“Santiago Peña havia levado para o poder o liberalismo sem freios das máfias das fintechs”, escreve Moisés Mendes
Se existem, as almas de Alfredo Stroessner, Andrés Rodríguez, Juan Carlos Wasmosy e Lino Oviedo devem estar abaladas com o que acontece com o partido Colorado e o Paraguai. O general Stroessner foi derrubado pelo general Rodríguez, que foi sucedido pelo civil Juan Carlos Wasmosy, que quase foi golpeado pelo general Oviedo.
Os colorados, desde a ditadura, mandam no Paraguai porque transferiram dos militares para os civis um poder que, mesmo sem fardas, seria indestrutível. São oito décadas de mando quase absoluto.
Mas os colorados que se golpeavam e se matavam exerciam o poder pela imposição das armas e, depois, do voto comprado pelo coronelismo. Nunca imaginaram que as guerras internas e a corrupção poderiam destruir o partido, como pode acontecer agora por vigarice.
O jogo financeiro do mundo mafioso das fintechs ameaça implodir o último partido sobrevivente da América Latina que nunca se afastou do poder, com uma exceção apenas, quando da eleição de Fernando Lugo em 2008.
Mas Lugo foi um acidente e também acabou golpeado, para que as coisas se reacomodassem e os colorados voltassem a mandar no Paraguai. Mandaram tanto que, desde o início da democratização em 1989, nove dos 10 presidentes são colorados, com a exceção de Lugo.
O liberalismo dos homens do mercado financeiro, representado por Santiago Peña, deflagrou a destruição de vastos setores da economia do Paraguai e também do partido de Stroessner. Peña, o executivo que virou banqueiro e depois virou presidente, fará o que as guerras internas dos generais não conseguiram.
O gangsterismo das fintechs é o mesmo no Brasil e no Paraguai, e tem parentes na Argentina e por toda parte. Mas foi no Paraguai, com Peña, e na Argentina, com Milei, que chegou ao poder sem intermediários.
No Brasil, os Bolsonaros amigos de Daniel Vorcaro estavam sendo preparados para atuar, dentro do Planalto, em nome do setor que agora desorganiza a economia paraguaia e destrói a poupança e a vida de milhões de pessoas.
Santiago Peña, que sentaria no Brasil com Roberto Campos Neto para que discutissem o que significa buscar o piso ou o centro da meta do déficit fiscal, com bandas e arcabouços, era o liberal do século XXI legitimado pelas elites, pelo mercado financeiro e pelo voto.
Era o homem do mercado. O mesmo mercado financeiro que trabalhava no Brasil, com enclaves na Faria Lima, para o crime organizado do PCC. Este mercado que cerca Lula e tenta sabotar seu quarto governo, por desconfiar que não fará o que Flávio Bolsonaro, segundo eles, iria fazer.
Santiago Peña é a figura-síntese dessa arrogância que subjuga governantes. Conseguiu, pela trajetória impecável, o que Vorcaro, um escrachado, jamais conseguiria. Peña seria, na sequência dos generais colorados e dos civis que agiam como generais, o salto de qualidade para o liberalismo perfumado, de ternos bem cortados e que se expressa em inglês. Um gângster charmoso e dissimulado.
O Paraguai vinha sendo, há quase uma década, a democracia mais estável e próspera da América do Sul, com testemunho recente até do véio da Havan. O liberalismo do mundo das nuvens do novo mercado financeiro das fintechs iria revolucionar o Paraguai.
Brasileiros atravessavam a fronteira, desde o final de outubro, para buscar a proteção do mundo mágico de Peña e fugir dos desvios do que o mercado financeiro considera um arcabouço enjambrado e remendado. Porque Peña teria a confiança que eles haviam depositado no sujeito que virou foragido.
Mas o presidente banqueiro traiu a confiança das almas dos generais paraguaios. Peña não existiria sem o lastro histórico dos velhos colorados, que até agora controlavam governo, Congresso, instituições, imprensa e tudo o que produz dinheiro e poder.
Terá que ser comido pelos próprios colorados, para que o partido e sua hegemonia sobrevivam, como sempre fizeram desde que comeram Stroessner em 1989. Mesmo assim, mesmo que Peña vá para o sacrifício, desta vez talvez não dê certo.
Esperava-se que a onda que triturou o fascismo no Brasil e nos Estados Unidos chegasse antes, na eleição de outubro do ano que vem, à Argentina empobrecida pela quadrilha liderada por Milei e sua irmã Karina.
Pode passar primeiro pelo Paraguai. O mais bonitão, o mais cheiroso, o mais sedutor dos presidentes da direita era mais vigarista até do que pilantra argentino. As Farias Limas latinas têm todos os estilos.
MOISÉS MENDES ” BLOG BRASIL 247″ ( BRASIL)
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