
Retirante nordestino venceu Flávio Bolsonaro, enfrentou o poder das Big Techs e frustrou os planos de Trump e Rubio para o Brasil. A revolta dos meninos e meninas e os dez milhões do “Exército do Lula” ajudaram a construir a vitória histórica.
No dia 25 de outubro de 2026, o Brasil viveu um daqueles acontecimentos que mudam o curso da história.
Luiz Inácio Lula da Silva, o menino que enfrentou a fome no sertão nordestino, o retirante que se tornou torneiro mecânico, líder sindical e presidente da República, realizou o que muitos consideravam impossível.
Venceu uma eleição que parecia perdida.
Mas Lula não derrotou apenas Flávio Bolsonaro, herdeiro político de um projeto fascista que ameaçava novamente a democracia brasileira.
O Davi nordestino venceu
Enfrentou a extrema direita bolsonarista, apoiada pelo presidente da maior potência militar do planeta. Enfrentou uma batalha eleitoral travada no território das poderosas plataformas digitais. E enfrentou interesses internacionais que pretendiam determinar o futuro do Brasil.
Donald Trump e Marco Rubio não escondiam suas ambições de ampliar o domínio norte-americano sobre a América Latina.
Ressuscitaram a Doutrina Monroe, de 1823, agora apresentada sob a alcunha de Doutrina Donroe.
A velha pretensão de transformar a América Latina em quintal dos Estados Unidos ganhou nova roupagem.
E o Brasil, maior país da região, com suas riquezas minerais, petróleo, terras raras, recursos naturais e posição estratégica, era uma peça fundamental desse projeto.
Flávio Bolsonaro representava a possibilidade de um governo brasileiro profundamente alinhado a Washington.
Mas os brasileiros decidiram que o Brasil não tem dono.
A “Revolta dos Meninos e Meninas”
O primeiro grande acontecimento dessa vitória começou quando muitos acreditavam que a derrota de Lula era inevitável.
No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou à frente do presidente.
Foi então que aconteceu algo extraordinário.
Os meninos e meninas do Brasil se revoltaram.
Secundaristas, universitários e jovens que votavam pela primeira vez decidiram que não assistiriam passivamente ao retorno do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.
Saíram às ruas. Ocuparam praças e avenidas.
E fizeram algo ainda mais importante: convocaram os adultos.
Tiraram da zona de conforto pais e mães, tios e tias, vovôs e vovós. Até bisavôs e bisavós foram chamados para defender a democracia.
As manifestações que se espalharam pelo país fizeram lembrar a energia das grandes mobilizações populares que marcaram a história brasileira, especialmente a campanha das “Diretas Já”.
Das ruas surgiu um grito que atravessou gerações:
BOLSONAROS, NUNCA MAIS!
A “Revolta dos Meninos e Meninas do Brasil” merece entrar para a história das grandes mobilizações democráticas do país.
O “Exército do Lula”
O segundo acontecimento extraordinário ocorreu no território em que a extrema direita havia construído uma de suas principais fortalezas: as plataformas digitais.
A Meta, dona do Facebook, Instagram e WhatsApp, esteve no centro de denúncias de tratamento desigual durante a campanha. Episódios documentados mostraram restrições à candidatura de Lula e benefícios à de Flávio Bolsonaro. A empresa alegou falhas técnicas e negou favorecimento deliberado.
Mas a resposta veio de onde os gigantes da tecnologia menos esperavam.
O deputado André Janones organizou o “Exército do Lula”, que alcançou 10 milhões de seguidores no WhatsApp.
10 milhões!
Uma gigantesca mobilização digital, construída para enfrentar a máquina de comunicação da extrema direita e o poder das Big Techs.
Enquanto os meninos e meninas ocupavam ruas e praças, milhões de brasileiros disputavam diariamente o território dos celulares, das mensagens e das redes sociais.
A revolta tomou as ruas.
O “Exército do Lula” ocupou as redes.
E a eleição virou
Na noite histórica de 25 de outubro, Lula chamou André Janones para perto de si.
Abraçaram-se, emocionados. Choraram as lágrimas da vitória, do reconhecimento e da gratidão.
O presidente chamou Janones de “nosso general”, reconheceu publicamente seu papel na campanha e fez um pedido que ultrapassa a comemoração eleitoral:
“O exército não pode se dispersar. O exército vai ter que continuar”.
Aquela cena simbolizou algo maior do que a vitória de um candidato.
Foi o encontro de duas forças que ajudaram a escrever a história daquela eleição: a mobilização popular nas ruas e a resistência política nas redes digitais.
O terceiro Golias estava em Washington
A terceira dimensão da vitória ultrapassou as fronteiras nacionais.
Trump e Rubio apostavam numa América Latina submetida à hegemonia política, econômica e militar dos Estados Unidos.
O Brasil de Lula representava um obstáculo a essa ambição.
Sua política externa independente, suas relações estratégicas com a China, sua participação no BRICS e sua defesa de um mundo multipolar contrariavam o projeto de Washington.
A eleição de Flávio Bolsonaro poderia abrir caminho para uma mudança profunda nessa orientação.
Mas o candidato Bolsonaro neonazista apoiado pela ultradireita continental, liderada por Trump, foi derrotado.
O presidente norte-americano não estava nas urnas brasileiras. Seu projeto político, entretanto, estava representado na disputa.
Trump não perdeu uma eleição nos Estados Unidos. Sofreu uma derrota política no Brasil.
Enquanto Washington assimilava o resultado, a China de Xi Jinping, principal parceiro comercial brasileiro, reconhecia a vitória de Lula.
O contraste ajuda a dimensionar o significado internacional do que aconteceu em 25 de outubro.
Os Golias continuam de pé
A vitória foi histórica. Mas não encerrou a disputa.
Flávio Bolsonaro recebeu quase 60 milhões de votos.
A extrema direita continua organizada. Trump permanece na Casa Branca. As plataformas digitais conservam seu extraordinário poder sobre a comunicação política.
E os interesses internacionais sobre as riquezas brasileiras não desapareceram.
Lula terá pela frente um quarto mandato marcado por desafios imensos.
Mas a eleição deixou uma lição que ultrapassa a política partidária.
O Brasil não é propriedade de nenhuma potência estrangeira. Sua democracia não pertence a uma família de neonazistas. E seu futuro não pode ser decidido por algoritmos controlados fora de suas fronteiras.
Os meninos e meninas do Brasil fizeram sua revolta. Dez milhões se reuniram no “Exército do Lula”.
O retirante nordestino venceu com seus nove dedos. Perdeu o dedo mínimo da mão esquerda quando trabalhava como torneiro mecânico na Metalúrgica Independência, em São Bernardo do Campo. Tinha 17 anos.
O Davi brasileiro enfrentou três Golias. No dia 25 de outubro de 2026, mostrou ao mundo que a soberania de um povo pode ser mais poderosa do que os gigantes que pretendem dominá-lo.
Lula venceu. O Brasil venceu. A democracia venceu.
GUSTAVO TAPIOCA ” REVISTA FÓRUM” ( BRASIL)