A DEMOCRACIA EM JOGO NESTA ELEIÇÃO

Há muitas coisas em jogo na eleição deste domingo. Muitos planos e muitas promessas do tipo “terrenos na Lua”, como foi o estilo adotado pelo senador Flávio Bolsonaro, neste segundo turno, após as aulas de “coach”, ou “mídia-training” de Pablo Marçal, ex-candidato a prefeito de São Paulo, punido por práticas desleais pela Justiça Eleitoral.

Entre as ideias mirabolantes, e irreais, surgiu o Ministério da Prosperidade. Quem já frequentou alguma das centenas de denominações evangélicas do país sabe que os pastores não se contentam com o dízimo dos salários e incutem a ideia da prosperidade, de um negócio próprio, vinculando os futuros ganhos à repartição de 10% (o dízimo) para a igreja.

Se pusermos no papel as propostas dos políticos, a soma dos gastos envolvidos exigiria dois PIBs ou mais. Flávio Bolsonaro, a cada fala na TV, infla os eventuais aumentos de gastos nas promessas de Lula. Começou com R$ 250 bilhões e chegou, sexta na Globo, a R$ 400 bilhões. Porém, como o desafiante já disse que irá fazer até mais que a proposta de Lula para renegociar dívidas (de pessoas físicas e MEIs), prometendo até um ano de juros zero, conclui-se que serão necessários três PIBs para acomodar tudo.

Isso implica o reconhecimento de que a ideia de “tesourar” os gastos (a adaptação da “motoserra” de Javier Milei) não bate com a realidade. A tesoura passaria nos gastos e nos impostos. A conta não fecha, se as promessas de bondades estão superando as de Lula. Alguém está mentindo feio.

Mas a questão mais grave está embutida num “estelionato eleitoral”. Flávio Bolsonaro, que sempre foi contra a redução da escala 6 x 1 e o Bolsa Família, a qual tratava como “bolsa farelo”, promete manter ambas as conquistas. Mas admitiu que o Congresso, do qual o PL saiu como líder, “tem autonomia para decidir”. Pilatos lavou as mãos.

A questão de honra é o compromisso com a Democracia. Se Flávio pretende, se for eleito, libertar o pai que tramou contra o Estado Democrático de Direito, como fica o compromisso com a Democracia?

As duas caras de Flávio

No debate da TV Globo, quando Flávio escolheu o tema “controle dos territórios”, para defender sua política de enfrentamento das facções como “organizações terroristas”, Lula o aparteou com o caso da morte da menina Ana Clara, de cinco anos. No dia 2 de fevereiro de 2021 (no governo Bolsonaro), uma patrulha da PM chegou atirando numa comunidade de Niterói e a menina, que brincava na porta de casa, foi morta por tiros de fuzil. Pois o senador voltou a defender o policial militar acusado de matar a menina Ana Clara.

A defesa foi feita diante da mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, que acompanhava o debate e teve a presença anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula levantou o caso com a pergunta: “Por que um senador da República ajuda um assassino a não ser julgado? O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil em uma menina de cinco anos?”, perguntou o presidente ao adversário.

Ao responder, Flávio Bolsonaro se dirigiu a Cristiane, mas a chamou pelo nome da filha. “Ana Clara, quero falar com a senhora. Deixo minha solidariedade. Foi uma tragédia o que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filha de cinco anos de idade. Eu tenho uma filha de 14 e de 12. Era uma troca de tiros. Eu quero ajudar a achar o autor desses disparos, porque eu tenho a confiança que não foi esse policial”, disse o senador.

Uma gafe de quem não falava com convicção, e continuava defendendo o autor dos disparos (repreendido pelos outros policiais da ação). As avaliações dos institutos de pesquisa mostraram que este foi o pior momento do senador.

Assim como a agressão pejorativa aos “nove dedos” de Lula, que motivou dura repreensão do presidente. Lula aproveitou para desfilar sua trajetória e comover os mais de 14 milhões de brasileiros portadores de alguma deficiência física. As desculpas do senador não apagaram a grosseria, de resto, motivo de piadas entre o séquito bolsonarista que não gostou do pedido de desculpas.

Vale lembrar que, no começo do governo de Jair Bolsonaro, cujo clã foi useiro e vezeiro em condecorar policiais matadores e milicianos, um dos temas que tentaram aprovar no Congresso foi a figura do “excludente de ilicitude”. Se aprovada, a Lei isentaria previamente policiais militares que chegassem atirando em grandes ações policiais de ataque a territórios. E a raspagem de numeração das balas tiraria qualquer possibilidade de identificação do autor de disparos.

Notícia que não veio ao debate

Divulgada por volta das 20 horas de sexta-feira, 23 de outubro, uma importante decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, sobre o advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), não chegou a ser abordada no debate da TV Globo e teria sido muito desfavorável ao candidato do PL. Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões das contas do advogado, amigo do senador, e ordenou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial de suas empresas.

A decisão foi tomada no âmbito de um inquérito que apura suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo Tomaz e o senador, que teria sido cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária de uma das “holdings” do advogado. As medidas foram justificadas pelo risco de destruição de provas após Tomaz deixar o Brasil em agosto.

Amigo de longa data de Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz é acusado de uma série de tramoias e de ter sido sócio cotista de um dos aviões de Daniel Vorcaro, no qual Flávio e Willer viajaram, com suas famílias, da África para os Estados Unidos, há dois anos, com uma escala em Portugal. E a Ilha da Madeira, um paraíso fiscal que faz parte do território português no arquipélago dos Açores, era a sede de várias empresas de Tomaz. Num dos hangares de Wuller, a PF encontrou, por detrás de uma parede, uma entrada secreta onde havia uma máquina de contar dinheiro (reais, dólares ou euros).

O homem da jogatina

Willer Tomaz é também sócio de uma concessão de loteria da Loterj (obtida no governo de Cláudio Castro, aliado do senador Flávio Bolsonaro), que chegou a operar indevidamente em todo o país. Muito ligado à jogatina (a Polícia Federal descobriu que Willer, dono de algumas “bets”, chegou a ser o maior apostador em 2025, com R$ 5 bilhões no total), os dois viajaram em janeiro de 2020 para Las Vegas (EUA), para uma convenção de casas de apostas e cassinos. Na ocasião, Flávio Bolsonaro defendia a criação de cassinos em “resorts”, em pontos restritos nas praias brasileiras.

Por sinal, os dois estavam juntos num passeio de lancha em Angra dos Reis (RJ), quando Willer Tomaz passou a cobiçar uma casa na Ilha Comprida. O imóvel, sob direito de posse, como as propriedades em área de marinha, fora adquirido por R$ 10 milhões, de boa-fé, pelo jogador Richarlison, que joga na Inglaterra. Willer Tomaz verificou junto ao Serviço de Patrimônio da União (dirigido por indicado de Flávio), que a posse do imóvel ainda estava pendente, e conseguiu pôr a área de terra em seu nome em dez dias, o que Richarlison penava há mais de um ano. O assunto foi abordado no debate da Globo.

Embalo no Lago Paranoá

Por fim, se não bastassem tantas transações complexas, Willer Tomaz é apontado pela PF como sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”. Uma das transações do empresário envolvia a venda da vacina russa Covaxin ao Ministério da Saúde no governo Bolsonaro. No dia 17 de julho de 2020, data em que o Brasil vivia um dos momentos mais críticos da pandemia de Covid-19, registrando 1.163 novas mortes em 24 horas, Flávio foi passear de lancha no lago Paranoá acompanhado de dois empresários e de três garotas de programa, segundo a revista “piauí”, que publicou foto. Ao fim do passeio, um deles presenteou o senador com um relógio dourado da marca Rolex. Os empresários blefavam. O negócio não fechou.

GILBERTO DE MENEZES CÔRTES ” JORNAL DO BRASIL”( BRASIL

←

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *