
O debate é um elemento essencial da democracia na medida em que é a expressão material do pluralismo político, proporcionando aos cidadãos a escolha entre diferentes propostas, desde que as regras garantam igualdade de oportunidades aos participantes
O debate é importante para a decisão do voto de eleitores ainda indecisos ou dispostos a comparar discursos e propostas, especialmente em disputas apertadas, mas hoje os debates são usados também para alimentar com cortes as redes sociais dos candidatos. Isso favorece a teatralização, por vezes vulgar, agressiva e incivilizada, violenta mesmo, como a oferecida por Flávio Bolsonaro no da TV Bandeirantes, que não serviu nem ao eleitor, nem à vivência democrática, nem ao jornalismo.Play Video
Nesta sexta-feira, a cerca de 34 horas da abertura das urnas, a maior emissora de TV aberta do país tem o desafio de promover um debate de qualidade, que sirva mais à discussão de propostas para o país, coisa que não se viu no da Band, propiciando também a comparação de personalidades e experiências. Isso pode e deve ser feito: o eleitor precisa também conhecer as qualidades, os defeitos e os pontos controversos da trajetória de cada um, desde que isso não seja feito com recurso a fake news ou ao bullying moral.
Acho que nem um porco-espinho como Donald Trump diria a seu oponente, como fez Flávio, batendo no bolso da calça, que felizmente estava sem a carteira, senão Lula poderia batê-la. Isso foi pouco antes de Lula desafiá-lo a abrir seu sigilo bancário e telefônico.
“O presidente não pode debater na lama”, disse-nos em entrevista na TV 247 o publicitário Paulo de Tarso Santos. E, de fato, na Band, Flávio espalhou a lama e arrastou Lula para aquele pugilato verbal. E, de certa forma, físico também, ao postar-se atrás de Lula quando ele respondia aos mediadores, fazendo negaças e caretas como se aquilo fosse brincadeira de moleques.
O estilo Marçal que ele adotou forçou Lula, que chegou disposto a discutir propostas, a partir para a troca de sopapos verbais. Se não o fizesse, seria literalmente esmagado pelo oponente, que transudava ódio, cólera e disposição para humilhar e escarnecer. Parece que o resultado não foi bom, e hoje Flávio deve conter-se na arrogância. Já Lula, nos preparativos que começaram na quinta-feira, vem sendo aconselhado a manter o sangue-frio, evitando ceder às provocações, e a ser mais específico em suas propostas para um eventual quarto mandato.
Segundo o tracking da campanha petista, ele já teria rompido, ainda que por décimos, o empate em 50% com Flávio apontado pela pesquisa Datafolha. Seja como for, Lula passou o segundo turno atrás de Flávio nas pesquisas e, para conquistar indecisos, manterá a tática de desconstruir o adversário, explorando o sentimento de medo que ele desperta. Segundo a pesquisa Quaest, trata-se de um medo maior que o da permanência de Lula, e que diz respeito tanto à perda de direitos e de políticas sociais como à de estabilidade democrática no governo do filho do golpista Jair.
Já Flávio foi aconselhado por aliados, diz-se que sobretudo pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a reduzir as agressões e aquela insolência que marcou o debate na Band. Teria pegado mal também, segundo pesquisas qualitativas, o fato de não ter respondido a perguntas importantes, além da superficialidade das poucas propostas que apresentou. Vai reduzir o gasto público em R$ 250 bilhões cortando onde? Vai criar o Ministério da Prosperidade para fazer o quê? E, por último, porém mais importante, para onde foram os R$ 120 milhões que pediu a Vorcaro? Vamos ver se hoje ele responde.
Debate e democracia
O acirramento da disputa, sem precedentes na história eleitoral pós-ditadura, faz aumentar a relevância do debate da Globo. A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22/10) mostrou um empate rigoroso entre Lula e Flávio Bolsonaro, cada qual com 50% de preferência.
É verdade que qualquer deslize ou qualquer tiro certeiro durante o debate pode decidir a eleição, mas não é a busca da bala de prata que deve orientar sua organização, seja por parte dos candidatos, seja do veículo promotor.
O debate é um elemento essencial da democracia na medida em que é a expressão material do pluralismo político, proporcionando aos cidadãos a escolha entre diferentes propostas, desde que as regras garantam igualdade de oportunidades aos participantes: a tal paridade de armas. Ele permite que o eleitor compare não apenas propostas, mas também ideias, valores, competências e comportamentos para exercer mais conscientemente seu direito de escolher os governantes pelo voto.
Ele favorece também a fiscalização pública, permitindo que os candidatos, frente a frente, exponham contradições e denunciem falhas ou até mesmo crimes do outro, se for o caso. E esse outro tem o dever de responder. Que resposta poderia dar Flávio ao questionamento de Lula, no debate da Band, sobre o fato de ele ter defendido o assassino de uma menina de cinco anos? Não respondeu, como fez em relação a outras perguntas, especialmente àquela que Lula repetiu algumas vezes: o que ele fez com os milhões que tomou de Vorcaro? Lula, embora tivesse elementos, também não respondeu bem sobre Roberta Luchsinger.
Por tudo isso, em honra da democracia e em defesa de sua credibilidade como canal de radiodifusão concedido pelo Estado para prestar serviço público, a TV Globo tem o dever de não repetir a lama e produzir um debate que sirva ao eleitor acima de qualquer interesse. Estigmatizada pela edição do debate Lula-Collor em 1989, a emissora precisa exorcizar qualquer suspeita de favorecimento, como se viu nas redes sociais logo depois da sabatina de Flávio Bolsonaro com Renata Lo Prete, em que ele deixou de responder a perguntas importantes, não recebendo a admoestação que muitos cobraram como necessária.
Para superar o debate na lama ocorrido na Band, o formato não será o mesmo. Terá quatro blocos de perguntas e respostas, mais as considerações finais. Três blocos terão temas predeterminados e um será de tema livre. A ordem das perguntas será definida por sorteios realizados ao vivo pelo jornalista Cesar Tralli, o mediador.
O primeiro terá seis rodadas de 3 minutos cada, com assuntos regionais e nacionais, para que os candidatos exponham suas propostas a respeito, em resposta, réplica ou tréplica.
Nos outros dois, os candidatos escolherão entre os temas apresentados no telão para fazer as suas perguntas, seguindo a dinâmica anterior. O quarto bloco será de tema livre, com cada um falando durante oito minutos. Lula está sendo bem treinado para isso, pois tropeçou no tempo (para mais ou para menos) no debate da Band. Haverá o minuto final para cada um (que Lula não aproveitou bem na Band) e, depois, eles darão entrevistas ao vivo de 10 minutos cada um, em sala reservada para o encontro com os jornalistas que cobrirão o evento. Por sorteio, Lula dará a sua primeiro.
Este formato parece favorecer mais o debate, com o mediador apresentando um número maior de perguntas, com tempo para a cobrança e para pedidos de esclarecimento. Eles poderão circular, mas num espaço delimitado, ficando o outro em seu púlpito. Somente no quarto bloco os dois poderão circular ao mesmo tempo, mas cada qual no seu quadrado. Então, não teremos as caretas de Flávio.
Certamente será um debate tenso, mas dificilmente veremos a bala de prata ricochetear.
TEREZA CRUVINEL ” BLOG BRASIL 247″ ( BRASIL)