AS BATALHAS DE LUIS NASSIF CONTRA E COM JOSÉ SARNEY

Estive na lida contra ou com Sarney na eleição de Tancredo Neves, no caso Saulo Ramos e quando era presidente do Senado.

Meu primeiro contato com José Sarney foi indireto, na eleição de Tancredo Neves. Na época, eu supervisionava o Datafolha. Quando pedi demissão da Secretaria do jornal, Otávio Frias me encarregou de ajudar a organizar o instituto, até então restrito às pesquisas eleitorais.

Montei um projeto detalhado dos levantamentos que o Datafolha poderia fazer, dos preços de produtos de informática às estatísticas de jogos de futebol. Ressaltei a necessidade de o jornal adquirir um microcomputador, pois o trabalho exigiria processamento intensivo de dados. Também indiquei o primeiro gerente executivo do projeto.

Encaminhei a proposta a Pedro Pincirolli, o executivo ao qual o Datafolha ficaria subordinado, com cópia para Otávio Frias. Pedro me ligou nervoso: pediu que, antes de enviar qualquer coisa a Frias, eu passasse por ele. O velho Frias se assustara com o pedido do computador — uma máquina que poderia ser adquirida por mera permuta com qualquer fornecedor.PauseUnmute

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Quando foi lançada a chapa Tancredo-Sarney, o Congresso estava sob pressão de Golbery do Couto e Silva, que pretendia lançar Paulo Maluf. A eleição seria indireta. Bolei, então, uma pesquisa diferente: em vez de um pesquisador do Datafolha, um repórter de política faria as entrevistas. Precisávamos reunir duas informações:

  1. O voto declarado pelo parlamentar.
  2. O grau de confiabilidade dessa declaração.

Com base nesses dados, montamos três cenários:

  1. O resultado, caso todos os parlamentares respeitassem os votos declarados.
  2. O resultado, caso todos os votos considerados duvidosos fossem para Maluf.
  3. O resultado, caso todos os votos considerados duvidosos fossem para Tancredo.

Em qualquer hipótese, a chapa Tancredo-Sarney seria vitoriosa. No sábado, antes do fechamento do jornal, Otávio Frias Filho me ligou assustado, perguntando se eu tinha certeza do resultado. Disse que sim. Ainda desconfiado, pediu que eu assinasse a matéria, responsabilizando-me pelos dados. Dito e feito.

A reportagem saiu no caderno de domingo. Logo pela manhã, um repórter da Folha, encarregado de colher a repercussão, informou que os dados não haviam sido contestados nem pela campanha de Maluf.

O caso Saulo Ramos

O segundo envolvimento veio com o Plano Cruzado. Como dominava a matemática das conversões de contratos, recebi a informação sobre o plano em primeira mão, diretamente do ministro Dílson Funaro. Corri para Brasília em um avião do Bradesco, solicitado por Frias a Amador Aguiar. Durante algum tempo, tornei-me o primeiro propagandista do Cruzado. A ponto de receber um telefonema de Saulo Ramos, consultor-geral da República e amigo mais próximo de Sarney, dizendo que o presidente estava muito comovido com meus artigos.

A emoção mudou de lado quando denunciei manobras de Saulo para beneficiar instituições bancárias em liquidação extrajudicial. Seguiu-se uma enorme batalha judicial, que narrei em outro trecho destas memórias.

Para me defender, aprofundei-me no conhecimento das redes de relações de Sarney. Em São Paulo, havia um grupo de pessoas próximas a ele, uma turma boêmia de hábitos ousados, que se reunia a cada visita do presidente à cidade.

Além de Saulo Ramos, o grupo incluía Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, Mathias Machline, da Sharp, e Luiz Bocalatto, da Adubos Copas. Não era companhia recomendável para senhores casados e de boa família.

Com a geração seguinte, porém, a relação tinha suas curiosidades. No auge da perseguição de Saulo, meu amigo Vicente Barreto, notável compositor de “Morena Tropicana”, foi se apresentar em São Luís, em uma rádio do grupo de Sarney. Na volta, contou que Fernando, filho de José Sarney, era meu admirador.

Em outra ocasião, almocei com Maurício Machline no Mássimo para ouvir sobre o Prêmio Sharp. Dias depois, ele me disse que o pai e alguns amigos estavam no restaurante à mesma hora e que ganhara pontos por estar comigo. Até hoje fico em dúvida se minha classificação para o Prêmio Sharp de Música, com o CD “Roda de Choro”, foi por mérito ou por média.

A guerra contra Sarney e Saulo foi intensa. O publicitário Mauro Salles, amigo do grupo, foi encarregado de gravar todos os meus programas na TV Gazeta e repassá-los a Saulo. Ao mesmo tempo, o ministro da Cultura negociava com a Gazeta a retransmissão do programa na TV Educativa e na TV Nacional. Eu não entendia nada daqueles movimentos contraditórios.

Montei o Dinheiro Vivo quando a Editora Abril rompeu o contrato com a TV Gazeta. Na ocasião, recebi um telefonema de Gilberto Dupas, presidente da Nossa Caixa, oferecendo uma cota de patrocínio para o programa, fosse para onde fosse. O SBT tinha interesse, mas resolvi permanecer na Gazeta, recusando um convite para ser comentarista da Globo.

Tempos depois, Dupas saiu da Nossa Caixa. Seu substituto, o economista José Maria Arbex, me telefonou com uma notícia ruim. Eu me tornara crítico do Cruzado, e o responsável pela publicidade do estado de São Paulo convencera o governo Montoro a retirar o patrocínio. Arbex conseguiu negociar um mês de prazo e me avisou, numa demonstração comovente de lealdade.

Como na música dos Titãs, o acaso veio me socorrer. O programa ganhou o patrocínio da Adubos Copas. Não entendi nada. Bocalatto era amigo de Sarney. A troco de quê aquele apoio?

Marquei um almoço com ele. Era o típico caboclo do interior: desconfiado, de poucas palavras. Perguntei a razão do patrocínio. Disse que gostava do programa a ponto de ter instalado uma antena parabólica na fazenda para assisti-lo quando estava por lá.

— Mas o senhor não é amigo do Sarney?

Era. Só que, segundo ele, Sarney ficara muito enjoado depois de virar presidente. O patrocínio ao Dinheiro Vivo foi o troco que deu no enjoamento do amigo.

Depois de deixar a Presidência, Sarney voltou a se candidatar ao Senado. Em uma das disputas eleitorais no Maranhão, ataquei sem dó seu grupo e defendi o adversário, que acabaria perdendo o mandato de governador por uma manobra de Sarney junto ao Tribunal Superior Eleitoral. Quando o grupo de Sarney assumiu, o primeiro ato foi escrutinar as contas da Secretaria de Comunicação, na expectativa de encontrar pagamentos ao meu portal. Nada encontraram para nós; apenas publicidade pesada na revista Veja.

O presidente do Senado

Voltei a cruzar com Sarney quando ele presidia o Senado. Estava sob intenso tiroteio da mídia. O motivo era justamente ter se tornado um fator de estabilidade política.

Sarney, Renan Calheiros e Jader Barbalho compartilhavam essa característica: eram coronéis em seus estados, mas tinham senso de responsabilidade institucional no Congresso. Escrevi vários artigos em defesa não de Sarney — como enfatizava em cada texto —, mas do presidente do Senado. E fazia a ressalva: quem quisesse atacar o político Sarney tinha outros temas à disposição, que eu indicava nos mesmos artigos.

A imprensa empregava a mesma tática que hoje dirige contra o Supremo Tribunal Federal: quebrar as pernas de quem garantisse a institucionalidade.

Um assessor de Sarney me telefonou, perguntando se eu não gostaria de conversar com ele. E atiçou minha curiosidade:

— Ele tem análises muito interessantes sobre o momento atual.

Fui até lá e aguardei sua chegada em uma sala. Sarney já demonstrava dificuldade para se locomover. Sua primeira frase foi:

— Senhor jornalista, estou comovido com a minha defesa feita pelo senhor.

Nem tentei explicar que minha defesa era do presidente do Senado, não do político José Sarney. Conversamos por uma hora. Foi uma verdadeira aula sobre aquele momento.

Primeiro, falou das campanhas eleitorais na era da televisão. Mencionou um candidato à Presidência dos Estados Unidos que dizia que uma hora em rede valia mais do que cem diretórios.

Depois, passou às organizações sociais. Na avaliação dele, um grupo de pessoas reunido para defender uma tese tinha, naquele momento, mais legitimidade do que qualquer político.

Daí foi para a internet. Assim como os políticos perdiam legitimidade, os jornais enfrentariam um fenômeno semelhante com o avanço dos blogs.

Fez algumas previsões certeiras. A primeira era que o PSDB de José Serra tenderia a desaparecer rapidamente — um declínio que os anos seguintes confirmariam. O PT, por sua vez, tinha como alicerce a imagem de Lula.

Ao falar de Lula, demonstrou uma admiração incontida. Lula e Getúlio haviam feito muito pela classe trabalhadora, disse. Mas Getúlio era o coronel que entregava de cima para baixo, enquanto Lula era um autêntico representante dos trabalhadores.

A conversa terminou por aí. Ontem, recebi dele um livro de um brasilianista sobre a transição democrática, acompanhado de uma carta gentil. Dizia que eu teria sensibilidade para entender a grandiosidade daquele momento.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN ” ( BRASIL)

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