
A rapaziada parece ter sido tomada por um sentimento de urgência, diante do temor de que o país caia nas mãos do crime organizado.
Eleições não são processos lineares. Estão sujeitas a ondas de opinião, mudanças de percepção e acontecimentos capazes de alterar o ambiente político em poucos dias.

Um dos fenômenos estudados é a “espiral do silêncio”: pessoas podem ocultar opiniões que percebem como minoritárias. Tensões também podem se acumular durante algum tempo sem produzir mudanças expressivas nas pesquisas. Até que um acontecimento funcione como catalisador, levando parte do público a rever suas posições. O que parecia imóvel muda de repente — embora a transformação já estivesse sendo preparada.
As próprias pesquisas, quando divulgadas, podem se tornar acontecimentos políticos. Há dois efeitos conhecidos: o “efeito adesão”, pelo qual eleitores passam a apoiar quem percebem como provável vencedor; e o “efeito azarão”, que pode mobilizar apoio em favor de quem parece estar perdendo. Não são leis automáticas, mas possibilidades que ajudam a compreender a dinâmica de uma campanha.Play Video
Lembro tudo isso porque considero possível uma virada neste final de campanha. O acontecimento capaz de deflagrá-la foi a estupenda participação dos jovens nas concentrações da Avenida Paulista, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em outras capitais e em um sem-número de cidades médias.
De repente, a rapaziada parece ter sido tomada por um sentimento de urgência, diante do temor de que o país caia nas mãos do crime organizado. Em muitas décadas acompanhando eleições, raramente vi essa urgência tão disseminada. Os riscos que uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro representa, a meu ver, para o país e para o próprio sentido de Nação parecem ter despertado inúmeros setores, especialmente o movimento estudantil.
Manifestações não se convertem automaticamente em votos, nem permitem medir, por si sós, o humor de todo o eleitorado. Mas podem alterar o ambiente da disputa. As próximas pesquisas ajudarão a mostrar se essa mobilização encontrou correspondência nas intenções de voto — e em que dimensão.
Se houver melhora consistente nos indicadores de Lula, ela poderá reforçar a percepção de que a vitória é possível. É aí que o sentimento de virada pode ganhar força: uma candidatura vista como ameaçada recupera viabilidade; eleitores antes apáticos voltam a se envolver; entusiasmo e esperança passam a disputar espaço com o receio da derrota.
O ponto central é este: a percepção de uma virada pode modificar o comportamento do eleitor antes mesmo que ela se confirme nas intenções de voto. Não importa apenas a posição de uma candidatura nas pesquisas, mas também a direção em que ela parece se mover.
Um experimento com eleitores holandeses, publicado no International Journal of Public Opinion Research, encontrou um resultado relevante: a apresentação isolada dos números não alterou significativamente as intenções de voto, mas a ênfase no crescimento de uma candidatura produziu um efeito positivo sobre o apoio posterior. O estudo sugere que a informação sobre a trajetória pode influenciar preferências, e não apenas a posição ocupada na disputa.[1]
As manifestações pró-Lula poderão, portanto, estimular o comparecimento às urnas e reduzir a apatia de parte de seus apoiadores. Também poderão levar eleitores antes desmobilizados a se empenhar na conquista de novos votos. Se esse movimento se combinar com uma melhora nas pesquisas, uma dinâmica poderá alimentar a outra.
Se essa mobilização contribuir para a reeleição de Lula e se mantiver depois das urnas, poderá produzir dois marcos históricos. O primeiro será a reação espontânea em defesa dos valores nacionais e da democracia. O segundo, a formação de uma frente capaz de receber de Lula o bastão dessa defesa.
Nas últimas quatro décadas, Lula foi o principal fiador da democracia brasileira. Em momentos decisivos, carregou um peso desproporcional ao de seu partido e de seus aliados. Para garantir a governabilidade, contou com companheiros das Diretas Já e da Constituinte. Com o “mensalão”, perdeu parte da capacidade de articulação representada por José Dirceu, José Genoino e Luiz Gushiken. Sem esses quadros no centro da formulação política, o PT se tornou uma corporação quase anódina, com pouca capacidade de corrigir rumos ou dialogar de igual para igual com sua principal liderança.
Apesar dos estudos da Fundação Perseu Abramo, os governos Lula não ousaram romper com os dogmas dominantes da economia e do orçamento. Não havia como enfrentar, sem uma base social organizada e permanente, uma elite desnacionalizada, uma mídia amplamente subordinada aos interesses da financeirização e um Congresso dominado pelas forças mais conservadoras.
Se Lula for reeleito, os jovens que agora ocupam as ruas estarão entre os avalistas políticos dessa vitória. E terão legitimidade para cobrar do quarto governo não apenas a preservação do que existe, mas o desenho do país do futuro.
Esse é o desafio que começa a aparecer por trás da disputa eleitoral: transformar a urgência de impedir um retrocesso em força organizada para construir outro horizonte. Receber o bastão não será apenas defender Lula. Será exigir que a democracia volte a abrir caminhos para um país que não pode mais esperar.
LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)