A RETA FINAL …OU A RETA DO COMEÇO

Diante de um cenário institucional amplamente conservador, a sustentação de um projeto democrático exige o fim dos conchavos parlamentares e a retomada urgente da mobilização popular nas ruas

1.

Nesta reta final da campanha eleitoral, as forças e os movimentos populares encontram-se face à difícil tarefa de reverter uma importante derrota política. Somada a um novo revés, terá consequências desastrosas para o país.

Não cultivemos ilusões. A parada é muito dura. Mesmo elegendo Lula, a conjuntura política não é nada alvissareira: governadores dos principais estados em mãos da direita ou da extrema direita. No Senado e na Câmara, crescimento de bancadas de extrema direita em torno da qual gravitam, como mariposas em torno da luz, os políticos do chamado Centrão. A rigor, trata-se de um Direitão, de centristas não têm nada. Não passam de um amontoado de “garções de costeleta”, como os chamava, há décadas, Oswald de Andrade.

Vai ser muito difícil virar, mas é possível. E sempre podemos recordar a frase estimulante de Edgar Morin: às vezes, é o improvável que acontece. Em 1968, dizia-se ironicamente: peçamos o impossível! Não vamos chegar a este ponto. Peçamos apenas o improvável. Pode acontecer. Há muita gente que não votou. Outros votaram nulo ou se abstiveram. Um caminhão de votos preferiu outros candidatos.

Trata-se de dialogar com esta gente. Sem condescendência. Lembrando que diálogo não é apenas falar, é também escutar. Se você não escuta, não pode compreender. E só compreendendo é que você pode persuadir. Um consolo – e um estímulo: depende apenas de nossa ação.

Para isso, erros precisam ser corrigidos. Não basta melhorar a comunicação, embora sempre sejam bem-vindas correções neste ponto. Afinal, como dizia o velho palhaço: quem não se comunica, se trumbica. A verdade é que trumbicamos. Trata-se de dar a volta por cima. Um outro consolo e um outro incentivo: ainda há tempo para isso.

Para ter êxito, a campanha deve ser capaz de apresentar propostas de mudança. Dialogando com as reivindicações populares, atestadas pelas pesquisas. Vou mencionar algumas, que me parecem principais. Carro chefe: avançar no combate à insegurança. Melhorar a educação pública de base. Políticas para dar um salto na ciência & tecnologia. Se não houver progresso nestas áreas, assim como fizeram outros países nos últimos 30 anos, falar em soberania será pura demagogia. Pois o país não terá instrumentos básicos para garantir sua autonomia.

Reestruturar o SUS de modo que as pessoas não precisem pagar planos de saúde mequetrefes. Providências para preparar a população para a rebordosa que vem por aí em termos de desastres climáticos: calor excessivo, chuvas, enchentes. Reformar o Judiciário, para que sejam pelo menos atenuados os escândalos de corrupção. E que se tenha a certeza de que os corruptos serão punidos.

Ninguém aguenta mais cadeias cheias de pretos e pobres enquanto os grandes corruptos andam soltos por aí. E, quando presos, são logo beneficiados por pizzas cozinhadas através de recursos infindáveis. Para financiar as despesas, impostos sobre os que têm recursos de sobra e que vivem parasitando os juros da dívida pública, ou seja, mirar na Faria Lima, onde especulam os barões da alta finança.

2.

Medidas para lidar com estes problemas. Concretas. E com prazo de vigência.

Indagarão os adeptos da governabilidade: como aprovar estas medidas? A resposta é fazer o que sempre se faz para conquistar mudanças importantes em qualquer tempo e em qualquer lugar do mundo: chamando as pessoas para as ruas. Dizia um velho político conservador: o Congresso sempre escuta a voz rouca das ruas.

Não dá para chamar o povo para as ruas só na hora das eleições. Para pedir voto. É claro que isso é importante. Pode ser decisivo. Mas para aprovar mudanças significativas, é uma inconsequência privilegiar conchavos com o “garção de costeleta”. A mobilização das consciências e das vontades é que é decisiva nestas horas. Também não pega bem tirar a camisa vermelha do armário só na hora decisiva do voto. Vermelho é cor de luta e de justiça. Há de estar presente sempre e não apenas em campanhas eleitorais.

E tem uma coisa: não somos soldados de ninguém. Não temos e não queremos chefes, generais ou comandantes. Temos dirigentes políticos. Que a gente elege ou pode não eleger. O que se requer é cidadania consciente, organizada, participativa, em ebulição. Não somos soldados, somos, queremos ser, cidadãos.

E outra: temos medo, sim, do que pode acontecer se estes caras chegarem ao governo (o poder eles já têm). Coragem não é não sentir medo. Sentir medo em momento de perigo é sinal de lucidez. Senti-lo, lidar com ele e ir em frente. Coragem é isso. Ficar espalhando o medo não leva a lugar nenhum. Dizia o escritor famoso: a vida nos pede é coragem.

Quem tem medo de mudança são “eles”. As esquerdas e o povo querem mudar. É fato que andamos distraídos, como dizia o poeta, e perdemos o rumo. Mas sempre é possível recuperá-lo. E a reta final pode ser o momento de redescoberta da mudança como projeto de vida e de país.

Antes de terminar, eu queria dizer uma coisa que vários amigos observaram: nunca vi tanta gente em tantos lugares na disputa política. Foi a sensação de perigo? O medo de perder coisas importantes? O desejo forte e desesperado de evitar o pior? Um pouco de tudo isso. O importante, contudo, é não deixar desfalecer o ímpeto, a ousadia, a vontade de virar o jogo e de vencer.

E é assim que a reta final pode se tornar a reta do recomeço. Se Lula for eleito (e será!), ele terá se comprometido com as mudanças que queremos e a cidadania terá todo o direito de cobrar. E a mudança virá com as gentes nas ruas, sem salamaleques aos alcolumbres da vida. E se Lula não for eleito, teremos uma plataforma para continuar a luta pelos direitos que a gente quer ter e ainda não tem e por liberdade de que não vamos abrir mão.

Porque, se estes caras ganharem, não vão levar tudo o que eles querem de graça. Vai haver luta, vai haver resistência e não há de faltar coragem para isso.

E aí, sim, quem sabe, poderá chegar a reta final…para “eles”.

DANIEL AARÃOOO REIS ” BLOG A TERRA É REDONDA” (BRASIL)

*Daniel Aarão Reis é professor titular de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor, entre outros livros, de A Revolução que mudou o mundo: Rússia, 1917 (Companhia das Letras). [https://amzn.to/3QBroUD]

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