A DISPUTA PELO ELEITOR AUSENTE

A abstenção recorde nas periferias revela uma distorção representativa que favorece a extrema direita, exigindo do campo progressista uma mobilização territorial urgente para o segundo turno

Na capital paulista, 2,14 milhões de eleitores ficaram em casa. Nas zonas onde Lula tem maioria esmagadora, quase três em cada dez não votaram. O padrão revela um mecanismo silencioso que impacta diretamente a equação do segundo turno e favorece a extrema direita.[i]

O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 deixou uma fotografia incômoda para quem se dispõe a olhar além do placar. Em São Paulo – maior colégio eleitoral do país, com 9,13 milhões de eleitores –, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 46,58% a 42,13%. Venceu em 35 das 57 zonas eleitorais da capital. No entanto, 2,14 milhões de paulistanos não foram votar. A abstenção na cidade chegou a 23,4%, acima da média estadual (22,5%) e da já recorde média nacional (21,1%). Os números sugerem que a disputa do segundo turno não será decidida pela persuasão de quem já votou, mas pela mobilização de quem ficou em casa.

A geografia da ausência

A distribuição territorial da abstenção em São Paulo não é aleatória. Ela obedece a uma lógica socioespacial conhecida, mas que os analistas eleitorais costumam tratar como dado secundário: quanto mais periférica a zona eleitoral, maior a abstenção.

Nas zonas do Grajaú (28,8%), Parelheiros (29,2%), Cidade Tiradentes (29,0%), Itaim Paulista (27,3%) e Lageado (28,1%), quase três em cada dez eleitores não compareceram. São precisamente os territórios onde Lula obteve suas maiores votações – entre 52% e 57,7%. No polo oposto, zonas do centro expandido como Jardim Paulista (18,4%), Pinheiros (18,1%) e Bela Vista (19,2%) registraram abstenções abaixo de 20%.

A abstenção costuma ser explicada pela apatia, mas a apatia é apenas a manifestação subjetiva de um déficit material e político concreto. Nas periferias, o desengajamento na urna resulta do encontro entre obstáculos objetivos – como transporte insuficiente, rotinas de trabalho precarizadas e escassez de tempo livre – e uma profunda desilusão com a capacidade de o voto alterar a vida cotidiana. A ausência na urna não reflete preguiça cidadã, mas um sintoma de exaustão diante das instituições.

A isso se soma um fator conjuntural. A economia brasileira em 2026 apresenta indicadores macroeconômicos positivos – desemprego em 6,2%, crescimento do PIB próximo de 3%, inflação controlada –, mas a percepção popular não acompanha os índices. O custo de vida nas periferias, impulsionado pelo preço dos alimentos e do aluguel informal, corrói o efeito-renda.

Onde a eleição se decide

Se a abstenção na periferia de São Paulo caísse três pontos percentuais – de 28-29% para 25-26% –, o saldo líquido em votos para Lula seria da ordem de 100 a 120 mil votos adicionais. Num universo em que a diferença absoluta entre os dois candidatos na capital foi de cerca de 290 mil votos, esse acréscimo não é desprezível.

Há um segundo campo de batalha: as zonas eleitorais de margem estreita. Na Zona Leste – Itaim Paulista, Sapopemba, Vila Matilde, Cidade Líder –, a diferença entre os candidatos ficou abaixo de quatro pontos percentuais, com abstenção entre 23% e 27%. São territórios onde a disputa se resolve no corpo a corpo, e onde o segundo turno reconfigura a equação: sem a dispersão de candidaturas menores, os votos que foram para outros candidatos no primeiro turno tendem a migrar de forma imprevisível.

Sem a dispersão do primeiro turno, é a hora e a vez de os sindicatos e as bases vinculadas ao PT colocarem sua estrutura orgânica nas ruas. Mais do que articulação institucional, exige-se que a máquina do partido e dos sindicatos saia dos gabinetes para fazer o trabalho militante no chão de fábrica, bairro a bairro, onde cada voto retido ou indeciso define o resultado.

O recorde de 21,1% de abstenção nacional – 33,2 milhões de brasileiros que não votaram – não é apenas um indicador de desengajamento. É um sintoma de exaustão da democracia representativa que atravessa o espectro político. Num país de voto obrigatório, onde a multa por não votar é irrisória, a abstenção é a forma mais acessível de protesto passivo.

Para a esquerda, esse dado deveria soar como alarme. A abstenção não é politicamente neutra – ela é socialmente seletiva. Quando 29% dos eleitores de Parelheiros ficam em casa e 18% dos eleitores do Jardim Paulista fazem o mesmo, o resultado é uma distorção representativa que favorece sistematicamente os candidatos da extrema direita.

Não se trata apenas de uma dificuldade logística ou de transporte. Para o trabalhador da periferia, a abstenção é a resposta à expropriação sistemática do seu tempo. Entre longas jornadas semanais, trabalho informal aos domingos e o alagamento do rendimento real pelo custo de vida, o tempo livre torna-se um recurso escasso. Ir às urnas exige um custo de oportunidade que o eleitor de menor renda, desiludido com a eficácia do Estado, muitas vezes prefere não pagar.

O segundo turno como teste de mobilização

A campanha até 25 de outubro opera em duas frentes. A primeira é a disputa de narrativas – economia, costumes e segurança –, travada no horário eleitoral e nas redes sociais. A segunda, menos ruidosa, é a disputa territorial pelo comparecimento.

Historicamente, o segundo turno eleva a participação em dois a três pontos percentuais. Embora a abstenção seja um fenómeno complexo e heterogéneo, os dados da capital paulista mostram uma correlação clara entre menor rendimento, vulnerabilidade territorial e maiores taxas de não comparecimento. É razoável supor que esse padrão se repita nas periferias de outras capitais e regiões metropolitanas – mas essa é uma hipótese a ser verificada, não um dado confirmado.

O que os números de São Paulo demonstram é que a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno tirou proveito de uma participação desigual. Combater o déficit de votos nas periferias exige presença física no território. Para a máquina partidária e as entidades sindicais, isso significa sair dos gabinetes e ir a campo para dialogar não só com a militância de sempre, mas com o eleitorado amplo. Mãos à obra.

Fontes: TSE, apuração 2026 (100% das seções). Mapeamento por zona eleitoral.

MARCELO PHINTENER ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Marcelo Phintener é analista de dados e doutorando em filosofia política na PUC-SP.

Nota


[i] Nota metodológica: O TSE divulga os resultados de votação por zona eleitoral, mas não desmembra os dados de abstenção no mesmo nível de desagregação. Os percentuais de abstenção por zona apresentados neste artigo são estimativas elaboradas pelo autor a partir do cruzamento entre o número de eleitores aptos e os dados de comparecimento reportados por zona, com base em informações do TSE, Band, Times Brasil e Fato Paulista. Os números devem ser lidos como aproximações que revelam o padrão territorial, não como cifras oficiais exatas.

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