POR QUE O RESULTADO DAS ELEIÇÕES NÃO DEVE SURPREENDER ?

O avanço conservador nas urnas reflete o abandono das periferias pelo Estado e o distanciamento de um campo progressista que trocou o chão de fábrica pelas cúpulas institucionais

1.

Poucos dias após o resultado das urnas do primeiro turno das eleições de 2026, no Brasil, fica um mistério. O mistério sobre se há mistério ou não, no resultado destas eleições. A tomada do senado, da câmara dos deputados, por parte do PL, retirando quadros históricos da esquerda dos plenários, como Marina Silva, Gleise Hoffman, Manuela D’Avila, a eleição e avanço de candidaturas a governo, também do PL, pelo país afora, parece reforçar a sensação de que a política tem se tornado, cada vez mais, subterrânea, invisível, surpreendente.

Mas a sensação de que os votos brotam subitamente, nas urnas, indica que invisível é o seu portador: o eleitor. Os invisíveis são os que perderam os laços de emprego, de carreira, de direitos, de serviços, de sociabilidade cotidiana e coletiva, por meios dos espaços urbanos e comunitários. São os desempregados, os precarizados, os periféricos, os marginalizados, os jovens sem perspectiva. E, pelo papel limitado que qualquer governo progressista tem, no Brasil, por sua condição de dependente, o que se produz, efetivamente, é um conjunto de decepção, frustração e ressentimento na massa destes invisíveis.

Por maior que seja o esforço de um governante mais progressista, o máximo que tem conseguido fazer é administrar a colaboração-antagônica, imposta por uma Doutrina de Segurança Nacional, que restringe nossa democracia e nosso desenvolvimento, mantendo-nos reféns históricos do projeto estadunidense para nosso país e nosso continente. Qualquer inflexão mais ao estilo Sul-Sul é sinal do inimigo interno: o comunismo. Em uma contra-revolução sem revolução, a ofensiva conservadora esmaga a esquerda com uma força escandalosamente desproporcional, o que aponta para um acúmulo da direita e um vazio na esquerda.

O que estamos testemunhando é a repetição da tragédia da dependência, na sua forma farsesca: a famigerada farsa eleitoral. Assim, com seus cotidianos apartados de uma realidade de privilegiados que gozam da riqueza nacional, uma massa, de fato, não acredita mais nisto que, de tanto repetir, caiu na dinâmica das práticas mercantis, daquilo que rege, solene, nosso cotidiano.

Neste aspecto, o reino da razão cínica, em que todos sabem que tudo é uma questão de vantagem pessoal e de negócios, aprofunda a volatilidade do voto, que se expandiu como valor de troca. O clientelismo já não é uma prática ilegal, é a cultura política do reino do mercado, este sim universal, global, mundial.

2.

É nesta condição que o voto permanece circulando, cumprindo seu papel de farsa, como as práticas mercantis e suas ilusões quanto a sucesso e riqueza. Nas zonas eleitorais, o que se ouvia eram queixas de trabalhadoras, que “perdiam seu dia de folga para eleger pilantras”, e mães pobres e atípicas, com suas colinhas no bolso, aflitas em cumprir o que combinaram com o pastor.

Se olharmos os mapas das eleições deste ano, veremos manchas vermelhas nos centros, nas capitais, indicando voto na esquerda, e um esparramar de marcas azuis, nas periferias, como votos, principalmente, do PL: onde o governo Lula não chega, onde o Estado não chega e uma massa fica entregue ao reino do particular.

É o nome deste particular que precisamos encontrar para dar fim ao mistério das eleições no Brasil de hoje. Este particular, este modo de vida que assume universalidade, em que todos acreditam, é o do empreendedorismo e da fé, soluções solitárias e, também, místicas, que entregam cada um a uma guerra de todos contra todos, em que é cada um por si e Deus por todos.

O Estado, por sua vez, faz-se, também, ainda mais místico, distante, opressor. Em uma filiação, cada vez mais profunda, da doutrina norte-americana, o “público”, sem seus serviços, amarrados a Regimes de Recuperação Fiscal, entregues a O.S.s, vai assumindo feições de ameaça ao indivíduo. Sua face mais eficiente se particularizou em papas da política, distribuindo prebendas, via emendas parlamentares.

O judiciário, com seus luxos e regalias, representa a verdadeira porta do céu, enquanto o papel de re-ligar os indivíduos é o das igrejas neopentecostais, pela via da promessa, e as milícias ordenadoras, pela via do terror. Por isto o voto parece um mistério: porque ele vem do invisível – do subterrâneo do voto da bala e do supraterreno do voto da bíblia.

Mas ilusório, também, supor que todo este transcendentalismo que explica o voto brasileiro é, de fato, transcendental. Ele conta com um cálculo, que envolve um laço concreto do eleitor com serviços e acompanhamento prestados pela igreja, pelo pastor. Com as experiências residuais de interação, nos cultos. Ele conta com a presença ostensiva de forças armadas, legais e ilegais, nas vielas e becos. Ele conta com o endividamento e a carestia, diante de taxas de juros no firmamento, e de seu contraponto em projetos de deputados, via orçamento secreto.

3.

Tudo isto, não tenhamos dúvida, financiado, também, por grupos de agentes empresariais estadunidenses, cumprindo a agenda da Comissão Trilateral, com sua internacional capitalista, que, de dois em dois anos, atualiza sua forma de dominação do território latino-americano e europeu.

Como um universalismo ainda mais místico, as BigTechs não deixam de cumprir seu papel de conexão: unificam comunidades de pensamento, conectando-as em seus mundos particulares, onde posições políticas também circulam, em uma reprodução por ramos de pensamento. Estes ramos não se tocam, são intangíveis, mas, em cada nicho, fazem circular ideias como mercadorias e mercadorias como ideias.

Ocorre que a esquerda, também, caiu neste mesmo feitiço religioso: da mercadoria e da fé. Embrenhou-se em torres de representação, do mercado politico das eleições, nas abóbadas das negociações superestruturais, isolou-se em mandatos messiânicos, esvaziou de vitalidade seus instrumentos terrenos, associativos, como partidos e sindicatos, absorveu os movimentos sociais e perdeu, por completo, o território, o lugar, o espaço do cotidiano, da classe trabalhadora, entregue ao pântano bárbaro do mercado. A esquerda tornou-se vertical, quase gótica, e, quanto mais celestial, mais crédula em milagres.

Perdoai-nos a mais crua explicação para a crueldade, mas se a chamada esquerda não romper com seus próprios misticismos, não será capaz de compreender que voto não tem mistério. Ele é econômico, em seu sentido mais cotidiano, mais material: é o reflexo da organização do espaço.  Este último cada vez mais entregue aos interesses supremos do reino do particular.

Retomando para si a organização do espaço, quem sabe a esquerda volte a se apresentar como o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação espiritualmente desumana.

CLARISSE GURGEL ” BLOG ” A TERRA É REDONDA” (BRASIL)

*Clarisse Gurgel, cientista política, é professora da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

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