EVA MARIE SAINT: A ÚLTIMA LOURA DE HITCHCOCK DEIXA O PALCO DA VIDA

Tinha 102 anos, um Oscar de Melhor Atriz Secundária conquistado logo no primeiro filme e uma daquelas presenças que dispensavam o esforço de parecer estrela. Eva Marie Saint morreu em Los Angeles e levou consigo um pedaço daquela Hollywood em que bastavam Cary Grant num comboio, Hitchcock atrás da câmara e uma mulher capaz de transformar um olhar numa cena inteira

Eva Marie Saint morreu aos 102 anos e, desta vez, nem Alfred Hitchcock conseguiu inventar uma fuga. Morreu na terça-feira, 6 de outubro, de causas naturais, em casa, em Los Angeles. Era uma das últimas grandes sobreviventes de uma Hollywood que já parecia pertencer menos à história do cinema do que à arqueologia do glamour. As notas biográficas recordam justamente o percurso raro de uma atriz que passou do Actors Studio e da Broadway para o cinema, quase sem período experimental. 

Na verdade, começou pelo topo. O primeiro filme foi Há Lodo no Cais, de Elia Kazan, em 1954, e do outro lado estava Marlon Brando. Eva Marie Saint interpretava Edie Doyle, irmã do estivador assassinado, delicada sem ser ingénua, vulnerável sem alguma vez se tornar decorativa. Hollywood percebeu imediatamente e entregou-lhe o Oscar de Melhor Atriz Secundária. Normalmente, uma carreira demora anos a chegar à estatueta. Saint resolveu o assunto logo à primeira tentativa. 

Mas foi cinco anos depois que entrou definitivamente para aquela zona onde já não trabalham apenas os atores: trabalham os fantasmas. Em Intriga Internacional, Hitchcock transformou-a em Eve Kendall, a loira perfeita, elegante, sexual, misteriosa e suficientemente perigosa para pôr Cary Grant a perder simultaneamente a cabeça, o comboio e a noção de quem estava a enganar quem. Hitchcock pediu-lhe que baixasse a voz, controlasse os gestos e olhasse Cary Grant diretamente nos olhos. Eve Kendall continua a ser uma das grandes mulheres hitchcockianas porque Saint conseguiu fazer aquilo que o realizador tantas vezes procurava: gelo por fora, combustão por dentro. Não era simplesmente a bela loira colocada no caminho do herói. Era ela quem sabia mais, escondia mais e, durante boa parte do filme, mandava mais. A célebre viagem de comboio de Intriga Internacional, permanece uma das sequências mais descaradamente sensuais do cinema americano sem precisar de mostrar quase nada. Bons tempos: Hollywood ainda confiava no espectador para perceber o que duas pessoas queriam fazer uma à outra.

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Depois vieram Êxodo, de Otto Preminger, com Paul Newman, O Anjo da Violência e Grand Prix, ambos de John Frankenheimer, O Cavaleiro das Areias, de Vincente Minnelli, e muitos anos de televisão, teatro e regressos ocasionais ao grande ecrã. Fez ainda Superman Returns, já em 2006, como se atravessar gerações, géneros e mudanças completas de Hollywood fosse apenas mais um trabalho na agenda. Nunca procurou desesperadamente a condição de superestrela. Casou-se com o realizador Jeffrey Hayden em 1951, teve dois filhos e fez uma coisa rara em Hollywood: decidiu que a carreira não precisava de engolir a vida.

Talvez por isso tenha durado tanto. Eva Marie Saint não precisa de uma filmografia gigantesca para se eternizar. Bastam Há Lodo no Cais e Intriga Internacional para lhe garantir lugar permanente na história do cinema. Num enfrentou Brando sem desaparecer. No outro seduziu Cary Grant sem ser reduzida a acessório. Entre os dois provou que fragilidade, inteligência, sensualidade e força podiam caber no mesmo rosto.

Eva Marie Saint saiu agora definitivamente de cena aos 102 anos. Mas basta voltar ao vagão-restaurante de Intriga Internacional, vê-la levantar os olhos para Cary Grant e sorrir, para perceber que certas atrizes não morrem propriamente. Limitam-se a ficar para sempre dentro do filme.

JOSÉ VIEIRA MENDES ” VISÃO” ( PORTUGAL)

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