
A proibição das bets ilumina como o capital financeiro, a publicidade, os clubes e os influenciadores montaram um ecossistema que individualiza a perda, socializa o lucro e politiza o ressentimento em escala digital
1.
No dia 25 de setembro de 2026, o presidente Lula assinou uma Medida Provisória que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das chamadas bets no Brasil, incluindo as apostas esportivas e os jogos on-line. A medida determinou ainda um período de transição para que os apostadores pudessem resgatar os saldos remanescentes, enquanto as plataformas deverão sair do ar a partir de 6 de outubro.
Estamos falando de uma indústria que, em 2025, movimentou centenas de bilhões de reais em transferências e que, segundo estimativa baseada em dados do Banco Central, produziu uma perda líquida de aproximadamente R$ 62,5 bilhões para as famílias brasileiras. É importante dizer exatamente o que esse número significa. Não se trata de afirmar que R$ 62,5 bilhões correspondam integralmente a dívidas, mas da diferença entre o dinheiro enviado às plataformas e aquilo que retornou aos apostadores em prêmios. O próprio setor contesta a metodologia do levantamento.
Ainda assim, o número é suficientemente brutal para que não precisemos inventar uma catástrofe onde já existe uma. A questão das bets deixou de ser há muito tempo uma discussão sobre responsabilidade individual e passou a ser uma questão econômica, sanitária, cultural e, agora, também política.
Cá entre nós, a bet é sabidamente aquilo que não só tem causado perdas financeiras em escala gigantesca, como também tem produzido um problema de saúde pública. A ludopatia, ou transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno decorrente de comportamento aditivo e pode envolver perda de controle, prioridade crescente dada ao jogo, continuidade da prática apesar das consequências negativas e prejuízos nas relações pessoais, sociais e profissionais.
A própria expansão das apostas on-line tornou o problema ainda mais difícil de separar da vida cotidiana. Não é mais necessário entrar em um cassino, se deslocar para algum lugar ou sequer possuir dinheiro em espécie. Vegas se tornou uma geografia digital onipresente na vida dos brasileiros. Tudo é apostável. Quem será o próximo papa, quem ganhará o jogo da terceira divisão do campeonato espanhol, qual jogador fará o próximo gol.
Com isso, a discussão sobre o fim das bets pode ser compreendida a partir de uma questão muito simples. Existe uma assimetria estrutural entre quem aposta e quem opera a aposta. A frase “a casa sempre ganha” não significa que nenhum apostador possa ganhar uma aposta individual. É evidente que pode. O que significa é que a casa trabalha com uma vantagem matemática e com um modelo de negócio estruturado para que, no conjunto das operações, a plataforma tenha retorno.
O apostador precisa acertar o acontecimento; a casa precisa apenas sobreviver estatisticamente aos acontecimentos. A matemática não está do lado do apostador. E quando a publicidade transforma a aposta em “renda extra”, “oportunidade”, “palpite inteligente” ou extensão natural do futebol, aquilo que é estruturalmente um jogo de risco aparece subjetivamente como uma possibilidade racional de ganhar dinheiro.
2.
Há ainda o mercado ilegal, a lavagem de dinheiro e as estruturas financeiras que aparecem no entorno desse universo. A Operação Carbono Oculto e outras investigações revelaram como empresas, fintechs, contas de passagem e estruturas financeiras podem ser utilizadas para movimentar ou ocultar recursos ligados a atividades ilícitas. O mercado de apostas não existe isoladamente. Ele pode se conectar a publicidade, entretenimento e estruturas de circulação de dinheiro.
O problema é justamente a rede. E essa rede não termina nas empresas. Ela chega às pessoas. Chega aos influenciadores. Chega ao telefone. Chega ao sujeito que acorda e abre o Instagram antes mesmo de levantar da cama. Não é só a casa de aposta que fecha. É um ecossistema digital que tem retroalimentado incansavelmente os digital influencers, de Virginia Fonseca a Arthur do Braz, dos grandes nomes nacionais aos influenciadores locais e de nicho. O poder dessa indústria não está apenas no dinheiro que movimenta, mas na capacidade de fazer com que a aposta apareça como parte natural da vida.
Um exemplo inicial é o de Carlinhos Maia. Com uma audiência gigantesca, ele não é simplesmente um rosto qualquer em uma publicidade. Seu próprio modelo de comunicação é baseado na intimidade: a vida cotidiana, a casa, a família, os amigos, o Rancho do Maia, os participantes, os stories. Seu caso é particularmente interessante para a tese deste texto porque mostra como a publicidade não precisa necessariamente aparecer como um comercial tradicional. Ela pode aparecer como parte da rotina do influenciador.
A publicidade entra pela porta da frente justamente porque parece não ser publicidade. E é preciso perceber a dimensão disso. Carlinhos Maia possui uma audiência de dezenas de milhões de pessoas. Virginia Fonseca também. Neymar Jr. possui uma audiência ainda maior e já esteve associado publicitariamente à Blaze. Wesley Safadão, por sua vez, teve relação pública e comercial com casas de apostas como Betvip e PlayBet, além de ter aparecido associado ao patrocínio de clubes.
Gusttavo Lima também precisa ser colocado nessa história. A Vai de Bet teve o cantor como embaixador e sócio, e a marca chegou a ocupar o espaço de patrocinadora máster do Corinthians em um contrato anunciado em 2024 por R$ 360 milhões ao longo de três anos. No mesmo ano, Gusttavo Lima e Deolane Bezerra – já presa – apareceram como alvos da Operação Integration, que investigava uma suposta estrutura de lavagem de dinheiro relacionada a jogos ilegais.
3.
Cada caso possui uma natureza diferente e não deve ser colocado artificialmente no mesmo saco. Alguns fizeram publicidade; alguns tiveram relações empresariais; alguns foram investigados; alguns foram convocados por uma CPI; outros apenas aparecem no ecossistema publicitário. Mas justamente aí está a questão.
A força das bets não pode ser medida apenas pelo número de CNPJs que operam o negócio. Ela precisa ser medida também pelo número de rostos que fizeram o negócio parecer familiar. Neymar, Virgínia e Carlinhos Maia não são uma casa de apostas. Mas quando essas figuras associam sua imagem a uma plataforma, elas emprestam alguma coisa que a plataforma não possui sozinha: confiança e reconhecimento.
O poder de contato íntimo de quem se vê primeiro no dia quando abre a tela do celular é diferente da propaganda tradicional. A fidelização de quem leva chuva, sol, para poder estar próximo de Carlinhos Maia e entrar em seu Rancho também é uma forma de demonstração de poder social. A influência não funciona somente de cima para baixo. Ela se reproduz horizontalmente.
Um grande influenciador legitima uma prática; um influenciador médio reproduz; um pequeno criador adapta ao seu nicho; um perfil local transforma aquilo em linguagem própria. A aposta vai descendo pela cadeia da influência até chegar a pessoas que talvez jamais fossem atingidas por uma campanha publicitária convencional.
O Jon Vlogs, dono da SuperBet e com enorme presença nas redes, apareceu publicamente defendendo a continuidade das apostas e argumentando que o mercado simplesmente migraria para a ilegalidade. Em suas falas, ele também mobiliza números sobre a quantidade de brasileiros que apostam e sobre o uso de recursos como o Bolsa Família. O argumento merece ser levado a sério justamente porque permite outra pergunta. Dizer que as pessoas continuarão apostando não explica por que elas apostam.
Se existe uma demanda, também existe uma indústria inteira dedicada a estimulá-la. Se milhões de pessoas jogam, quantas delas foram expostas diariamente à publicidade, aos bônus, aos influenciadores, aos patrocínios e às notificações que tornam a aposta uma prática normal? A existência do desejo não elimina a existência da indústria que o organiza. E a eventual migração para o mercado ilegal não é, por si só, argumento suficiente para naturalizar a aposta como se ela fosse uma necessidade básica.
Clubes de futebol foram incorporando as casas de apostas ao próprio espetáculo esportivo. O patrocínio aparece na camisa, na placa, na transmissão, na entrevista, no intervalo, no aplicativo, no influenciador e na própria linguagem do jogo. Em setembro de 2026, um manifesto assinado por clubes contra a proibição das apostas ajudou a colocar o tema no centro da discussão pública. O próprio Lula respondeu ao argumento de que o futebol dependeria das bets, dizendo que o futebol não poderia depender delas. O ponto interessante é que o futebol não está simplesmente sendo patrocinado pela bet. Ele está sendo integrado ao modelo de atenção da bet.
4.
Outras retóricas podem ser associadas à ideia de responsabilidade individual. O Estado não deve intervir na opção de uma pessoa se ela quiser apostar ou não; a decisão final deve ser dela. Pode existir, por essa via, um libertarismo neoliberal de presumir que tudo aquilo que alguém escolhe fazer deve permanecer fora da intervenção estatal. Mas existe uma diferença brutal entre uma pessoa possuir liberdade formal para escolher e uma indústria possuir liberdade para construir o ambiente no qual essa escolha será produzida.
A pessoa escolhe, sim. Mas escolhe diante de notificações, bônus, ídolos, clubes, algoritmos, estatísticas, promessas de renda extra e mecanismos desenhados para mantê-la jogando. Por essa via, podemos chegar à situação em que as pessoas sofram na mão de um Estado que nada faz enquanto outros se utilizam de seus vícios para não só levar seu dinheiro, mas disputar influência subjetiva e política por todo o país. A liberdade individual não pode ser transformada em álibi para a liberdade empresarial absoluta.
É por isso que o influenciador ocupa um lugar tão importante na questão das bets. Ele não precisa ordenar apenas que “apostem”. Muitas vezes basta mostrar que ele aposta. Não precisa dizer: “isso vai mudar sua vida”. Basta mostrar o estilo de vida associado àquilo. Basta possuir autoridade afetiva. A autoridade deixa de vir do conhecimento e passa a vir da intimidade. O streamer transforma a aposta em participação.
Por isso, o problema das bets não é apenas que elas possam causar vício. É que elas podem produzir uma cultura na qual o vício é apresentado como participação e a perda como consequência individual de uma escolha privada. A estrutura desaparece. O sujeito perde sozinho. A plataforma lucra coletivamente. O influenciador recebe pela audiência. O clube recebe pelo patrocínio. A publicidade recebe pela circulação. E, no fim, quando o indivíduo perde dinheiro demais, a responsabilidade retorna integralmente para ele: “você deveria ter se controlado”. É uma inversão da responsabilidade.
Uma democracia também depende da capacidade de os indivíduos formarem juízos sem que toda experiência seja imediatamente capturada por uma economia da atenção. O problema político começa quando o mesmo ecossistema que vende uma aposta também consegue produzir identificação, ressentimento, medo e confiança. O poder não precisa comprar diretamente um voto. Pode comprar atenção. E quem controla a atenção não controla automaticamente a política, mas ocupa uma posição privilegiada para disputar aquilo que antecede a decisão política: os afetos.
5.
É por isso que a reação de influenciadores à medida de 25 de setembro não deve ser tratada apenas como fofoca. Anderson Neiff, cantor e influenciador do brega-funk pernambucano, publicou um vídeo criticando Lula pelo fim das bets e sugerindo mobilização de influenciadores contra a medida. Anderson Neiff defendeu uma mobilização pelo retorno das casas de apostas. Ele também possui uma relação recente com a política pernambucana, tendo gravado um jingle para a campanha de João Campos ao governo do estado, outro que forneceu uma cidade-base – Recife – para o crescimento das casas de apostas.
Rico Melquiades também apareceu nesse momento. No mesmo dia da medida, anunciou que pretendia deixar o Brasil e morar em Portugal a partir de outubro. Rico Melquiades já possuía histórico de contratos com casas de apostas e havia deposto na CPI das Bets. A coincidência temporal produziu repercussão, embora seja importante não afirmar que sua mudança tenha sido causada pela proibição. Ele próprio não estabeleceu essa relação de causalidade.
E é aqui que aparece Marianne Silva, conhecida como “Mulher do Crás”, assim como outros influenciadores menores e locais que passaram a comentar a decisão. O que importa nesse tipo de reação não é supor que cada vídeo corresponda automaticamente a uma organização política coordenada. A mesma infraestrutura de comunicação que durante anos serviu para vender apostas pode, em determinadas circunstâncias, ser convertida em infraestrutura de mobilização política contra Lula.
A reação política não acontece em um vácuo eleitoral. Ao escrever este texto no último domingo de setembro, o cenário presidencial de 2026 já aparece apertado nas pesquisas. Isso torna a questão ainda mais delicada, mas não porque seja possível afirmar que o fim das bets produzirá determinado resultado eleitoral. Não sabemos. O que podemos observar é que uma política pública capaz de atingir diretamente uma indústria que possuía contratos com influenciadores, clubes, artistas e empresas acontece em um ambiente de intensa disputa política.
A pergunta relevante, portanto, não é “isso vai fazer Lula perder?”. A pergunta mais interessante é: como uma decisão que interfere em um ecossistema econômico pode ser traduzida, pelas redes, em uma experiência afetiva individual? O sujeito que apostava pode não interpretar a medida como uma política de saúde pública. Pode interpretá-la como “Lula tirou meu jogo”. O influenciador que dependia de publicidade pode não falar em regulação. Pode falar em “tiraram meu trabalho”. O clube que dependia de patrocínio pode não falar em conflito regulatório. Pode falar em funcionários, categorias de base e sobrevivência financeira.
Não é necessário imaginar que cada seguidor fiel obedecerá a uma ordem política. Não obedecerá necessariamente. O problema é mais sutil: a influência modifica o ambiente no qual os acontecimentos são interpretados. Se um influenciador que você acompanha há anos diz que uma decisão do governo é uma agressão contra ele, você não recebe apenas a informação sobre uma medida governamental.
A política começa a ser disputada antes da opinião. A imagem vem antes do argumento. O sentimento vem antes da informação. O pertencimento vem antes da comparação. A pessoa não precisa saber exatamente o que uma Medida Provisória faz para saber se está “do lado” dela ou contra ela. Não precisa ler o texto da MP. Não precisa conhecer a regulamentação. Não precisa saber como funciona a vantagem matemática da casa. Basta saber quem falou sobre aquilo. E quando a política passa a funcionar dessa maneira, o último story pode adquirir mais força do que um documento de cinquenta páginas.
A vitória mais profunda da sociedade coordenada por influencers não seja fazer com que apostemos. É fazer com que apostemos que existe alguma coisa a ganhar. É fazer com que a representação pareça mais importante que a experiência, que o green pareça mais importante que a matemática, que o influenciador pareça mais confiável que a estrutura que lhe paga, que o story pareça mais urgente que o documento, que a indignação pareça mais verdadeira que a análise.
A democracia está sendo disputada: não somente na urna, mas na tela que antecede a urna. O problema é que ela precisa disputar espaço com o último story da Virginia Fonseca. E esse é um jogo em que a casa não é mais apenas a bet. É a própria forma social que aprendemos a habitar.
MATHEUS PEREIRA ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Matheus Pereira é graduado em filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).