
Memórias e bastidores da cobertura do julgamento dos assassinos de Chico Mendes ao lado do mestre do jornalismo
Nesse momento da “dor da perda”, quando lidamos com a triste realidade de que Zuenir Ventura nos deixou, relembramos muitas passagens juntas. Eu, porém, tenho motivos para me sentir orgulhoso por ter tido a chance de vivenciar com ele e sua companheira, Mary, o histórico julgamento dos assassinos de Chico Mendes, em dezembro de 1990, em Xapuri (AC).Play Video
Não foi uma cobertura qualquer na pequena Xapuri, terra onde Chico Mendes se tornou o líder seringueiro de reconhecimento mundial, brutalmente assassinado em 22 de dezembro de 1988.
Pouco depois do crime, provocado por outro grande jornalista, Marcos Sá Corrêa, então editor-chefe do Jornal do Brasil, Zuenir venceu sua pequena resistência — “eu tenho medo de cobra”, alegou ao tentar recusar a missão — e foi ao Acre refazer a trajetória do seringueiro que conquistou fama internacional antes de ser reconhecido nacionalmente.
Mestre Zu não apenas voltou com um excelente material — anos depois transformado em um livro, no qual tive pequena participação —, mas trouxe também a principal testemunha daquele assassinato, o jovem Genésio, que ele e Mary praticamente adotaram, criando-o junto com os filhos Mauro e Elisa.
Foi por conta do Genésio que Mary nos acompanhou na epopeia do julgamento que durou uma semana, da segunda-feira, 10, até a noite de sábado, 15 de dezembro, quando o juiz Adair José Longuini anunciou a condenação do fazendeiro Darci Alves da Silva (então com 54 anos) e de seu filho Darly Alves Pereira (23 anos, à época) a 19 anos de prisão.
Até chegarmos àquela semana, eu, Zuenir e o correspondente do JB no Acre, Silvio Martinello, tínhamos nos dedicado a preparar um Caderno Especial sobre o caso, que o JB publicou no domingo anterior ao início do julgamento, 9 de dezembro de 1990 (reprodução nas fotos). Zuenir e eu, inclusive, fomos a São Paulo para uma longa conversa com o advogado Márcio Thomaz Bastos, que atuou como assistente de acusação durante o Júri.
A viagem ao Acre não foi apenas mais uma mera cobertura, como tantas outras que eu ou mesmo Zuenir já tínhamos feito. Nesse caso, houve toda uma preparação com antecedência para suprir necessidades específicas.
Xapuri praticamente não tinha condições de receber a grande quantidade de pessoas que foram para lá. Na falta de um hotel decente — o único existente era o Veneza, de péssimas condições —, o JB precisou negociar, antecipadamente, com o Banco do Amazonas o empréstimo de uma casa destinada aos seus gerentes, que estava vazia. Com o bispo do Acre, o catarinense dom Moacyr Grechi, obtivemos emprestados móveis (mesas, cadeiras e camas) de um convento ou orfanato de Rio Branco — distante 187 quilômetros, percorridos, naquele tempo, em uma estrada de barro que vivia enlameada. Alugamos duas linhas telefônicas para as nossas comunicações através de conexão discada e até contratamos uma auxiliar que fazia nossas refeições.
Na casa convivemos Zuenir, Mary, eu, Martinello e o fotógrafo Olavo Rufino.
Foi, sem dúvida, um excelente e único momento da minha vida profissional, e devo muito a esse brilhante casal amigo, Zuenir e Mary.
MARCELO AULER” BLOG BRASIL 247″ ( BRASIL)