
A disputa de 2026 transcende o cálculo partidário e coloca em xeque os pilares da soberania nacional e da ordem constitucional
1.
As eleições de 2026 no Brasil apresentam uma particularidade histórica fundamental. Não se trata meramente de uma disputa regular entre projetos políticos distintos no âmbito de uma democracia consolidada, mas sim da própria sobrevivência do regime democrático e da condição do país como nação soberana. Tal cenário consubstancia-se no embate entre a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, pela frente liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e a oposição de extrema direita, fenômeno que deve ser compreendido à luz do processo histórico recente.
A redemocratização brasileira, ao final da década de 1980, ocorreu em uma conjuntura histórica marcada pela emergência do neoliberalismo e da globalização capitalista. O ano de 1988 consolidou esse processo com a promulgação da chamada “Constituição Cidadã”, fruto de intensos embates entre forças políticas que se opuseram à ditadura militar. Em que pese as tensões do período, diversas reivindicações de movimentos populares foram incorporadas à Carta Magna, tais como direitos sociais e trabalhistas, prerrogativas para o capital nacional, a criminalização do racismo e a titulação de terras quilombolas.
Contudo, as contradições inerentes à transição impediram um aprofundamento democrático em setores sensíveis, como a segurança pública e o papel das Forças Armadas. A Lei de Anistia de 1979, ao inviabilizar o acerto de contas com agentes da repressão, permitiu que elementos antidemocráticos permanecessem atuando dentro da ordem institucional.
Com a adesão da economia nacional às políticas de ajuste fiscal de viés neoliberal no início dos anos 1990, o agravamento da miséria gerou demandas sociais que poderiam ser enfrentadas sob duas perspectivas distintas: uma política centrista de administração de tensões via programas focalizados — alinhada ao que Nancy Fraser denomina “neoliberalismo progressista” — ou, alternativamente, por meio de processos de violência sistêmica com nítidas conotações fascistas.
Expressiva parcela da social-democracia e do liberalismo global deslocou-se para a égide do neoliberalismo progressista, exemplificada por figuras como Fernando Henrique Cardoso, Bill Clinton e Tony Blair. Este último, ao adequar o Partido Trabalhista britânico aos preceitos de mercado, argumentava que a luta de classes fora superada pela “luta contra a pobreza”. Tais governos articulavam a desregulamentação econômica com medidas assistenciais focalizadas.
2.
No Brasil, é emblemática a postura de FHC em 1995 que, diante da Marcha Zumbi dos Palmares, reconheceu o racismo como um problema estrutural, estabelecendo grupos de trabalho e canais de diálogo que culminariam na participação brasileira na Conferência de Durban em 2001.
A crise econômica decorrente do ajuste macroeconômico neoliberal criou as condições para a ascensão da esquerda em 2002, no contexto da chamada “onda rosa latino-americana”. No entanto, o cenário era distinto do de 1989: a Constituição de 1988 já havia sido mitigada por sucessivas emendas favoráveis ao grande capital.
Embora os governos petistas tenham logrado conter a desregulação radical, o segundo ciclo, sob Dilma Rousseff, enfrentou o esgotamento do pacto policlassista. A tentativa de conciliar o fortalecimento da economia nacional com uma inserção soberana no mercado global esbarrou na resistência de setores imperialistas e no acirramento dos conflitos distributivos internos, resultando na ruptura da aliança que sustentava o projeto.
O processo de 2016 não representou apenas uma interrupção governamental, mas uma ofensiva radical para institucionalizar marcos neoliberais no Estado brasileiro. As reformas trabalhista e previdenciária, o “teto de gastos” e a autonomia (que na prática é uma “privatização”) do Banco Central consolidaram a precarização do trabalho e a priorização do equilíbrio fiscal em detrimento do investimento social.
Nesse contexto de concentração extrema do capital transnacional, a viabilidade de um “neoliberalismo progressista” torna-se nula. A erosão desse campo liberal de centro-direita abriu espaço para a extrema-direita como única alternativa institucional viável para o grande capital, fenômeno observável em escala global e, particularmente, na América Latina.
A democracia torna-se, portanto, disfuncional para os interesses do capital rentista. A pressão pela adequação dos países do Sul Global a uma ordem desregulamentada desloca o debate político para o pseudomoralismo e para um tecnicismo gerencial, esvaziando discussões sobre o projeto de nação. Assim, o pleito de 2026 configura-se como um embate entre a preservação de uma nação soberana ou a conversão do território em um protetorado sob o domínio autoritário da voracidade financeira.
Daí que a agenda antirracista e antimachista deve ocupar um lugar central na narrativa democrática e progressista porque justamente o projeto da extrema direita, ciente de que as principais vítimas de uma radicalização do ajuste neoliberal são mulheres, indígenas e pessoas negras, se assentam sob o discurso racista e misógino.
A disputa entre Lula e a extrema direita representa, em última instância, o confronto entre a manutenção de uma ordem democrática e a institucionalização de uma barbárie que comprometeria definitivamente a soberania nacional. Trata-se não de uma preferência partidária, mas de uma perspectiva minimamente civilizatória.
DENNIS DE OLIVEIRA ” BLOG A TERRA É REDONDA”( BRASIL)
*Dennis de Oliveira é professor titular do curso de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da USP. Autor, entre outros, livros de Ação direta do capital (Editora Dandara).