
Pesquisa do Núcleo Ypykuéra mostra que o desejo de renovação esbarra no receio do eleitorado em arriscar em novos nomes e no peso das emendas parlamentares.
Estamos a um mês e poucos dias da eleição e acho que não temos falado sobre a importância da renovação do Congresso com a ênfase que o assunto exige. Mesmo com Lula reeleito, se tiver que governar com a mesma maioria conservadora e fisiológica de hoje, terá uma governança tão difícil como a destes quatro anos que agora terminam, tendo que fazer concessões, tourear o Centrão, afagar Alcolumbre e coisas mais. A renovação do Congresso é dramaticamente necessária e para isso todo brasileiro comprometido com a democracia devia estar trabalhando.
O Núcleo Ypykuéra e o Observatório Político e Eleitoral (OPEL), este um centro de estudos políticos ligado à UFRJ, concluiram agora a segunda pesquisa qualitativa “Retratos do Progressismo”, que busca identificar valores, anseios e conceitos do eleitorado progressista, aquele que votou em Lula em 2022, mesmo não se declarando “de esquerda”. Muitos e interessantes são os resultados da pesquisa, mas vou me deter aqui, inicialmente, na parte que trata da renovação política, em ultima análise da renovação das casas parlamentares.
Alguma previsibilidade é possível para o Senado, visto que a eleição é majoritária, mas não há pesquisa ou bola de cristal que possa antecipar a composição da Câmara. Nosso sistema proporcional é bem intrincado, há uma personalização excessiva na disputa, com o nome se sobrepondo ao partido, as campanhas são caras e individualizadas e o quadro partidário é extremamente pulverizado. A renovação da Câmara caiu de 47,4% em 2018 para 39,4% em 2022 e é pouco provável que seja maior este ano.
A explicação principal, acho eu e muita gente, está no crescente controle do orçamento federal pelo Congresso. Quem já tem mandato e consegue levar recursos para suas bases através de emendas leva vantagem sobre os novos na disputa eleitoral. Ninguém se iluda: o Centrão vai reeleger os seus e voltará valente e forte.
Mas não só as emendas explicam a tendência de nosso eleitorado para o conservantismo na política, pelo continuísmo que impede o surgimento de novos atores. A pesquisa identifica, mesmo no eleitorado progressista, razões subjetivas para a postura conservadora.
A rejeição aos políticos em geral apareceu com força nos dois segmentos pesquisados (eleitores de Lula nos dois turnos de 2022, e eleitores dele só no segundo turno). Mais de 90% das menções feitas nos grupos aos políticos foram negativas. A ideia genérica da renovação na política mereceu o apoio de 70% dos participantes mas, quando se buscou saber os critérios seguidos na escolha dos candidatos apareceram quesitos favoráveis aos que já exerceram mandatos de modo satisfatório.
Nas perguntas sobre as razões que levam ao voto em alguém, a maioria das respostas conflita com o elevado apoio à ideia da renovação: 19,5% do total disseram que a principal razão de voto é o histórico do candidato e outros 19% afirmaram que é a identificação (pela representatividade ou pela ideologia). E outras 11% alegam que é a atuação política positiva como parlamentar. Para 23%, parlamentares no exercício do mandato levam mesmo vantagem sobre “novos” e outros 21% acreditam que os mandatados se reelegem porque o eleitorado tem confiança neles.
Ante a pergunta “o que levaria você a votar em alguém novo”, 46% apontaram de modo genérico “as propostas” do candidato, 18,4% falaram que é importante conhecer o “histórico” da pessoas que está tentando obter o mandato. Isso significaria que 1/5 do eleitorado valoriza trajetórias sólidas em seus representantes. Ou seja, preferem os já testados. Logo, não arriscam muito com novos nomes.
Estes são traços do eleitorado que tornam ainda maior o desafio deste ano, de aumentar a renovação e ampliar a representação do eleitorado progressista que vota em Lula (dando-lhe mais de 50% dos votos no segundo turno), mas põe na Câmara e no Senado maiores conservadoras, fisiológicas e oportunistas, sem falar nos extremistas de direita.
A pesquisa joga luz sobre outros aspectos do eleitorado progressista, mostrando que ele sabe o que é ser de esquerda (associando este segmento ideológico à defesa dos pobres, da justiça social, dos trabalhadores e das minorias). A educação é a política púbica mais apontada como compromisso essencial da esquerda, mas a redução da jornada de trabalho de seis para cinco dias é a política pública em debate que recebe mais apoio.
E ela vem aí, vai virar lei, apesar da maioria conservadora, e com o voto dela. Isso se for votada antes da eleição.
TEREZA CRUVINEL ” BLOG BRASIL 247″ ( BRASIL)