
O marketing grotesco expõe o que o antipetismo encobre: o anseio por um mundo sem horizontes igualitários, em que a subalternidade do outro é a condição silenciosa para a própria autoestima
Flávio Bolsonaro colocou a mídia em choque ao apresentar seu marketing feito por meio de Inteligência Artificial. A figura que aparece nesse seu marketing mostra o rosto de Flávio em um corpo “sarado”, sem camisa e de sunga branca. A figura aparece com a faixa presidencial no peito e, para completar a bizarrice, bebe um “energético”.
Os petistas trataram de ridicularizar a propaganda, como se isso fosse possível. Não se ridiculariza o que já de partida capricha em ser ridículo. A imprensa, mesmo a mais condescendente com a direita, não aprovou. Vários jornalistas de canais disseram que foi um tiro no pé. Comentaram que havia sido uma afronta ao próprio eleitor bolsonarista.
Afronta? Bem, eu até concordo. Mas não foi um tiro no pé. Jair Bolsonaro usou da ideia de que era “autêntico” para se legitimar. Essa campanha teve êxito. Flávio Bolsonaro revela essa “autenticidade” também. A vida que ele propõe para si mesmo e seus amigos é a da figura que mostrou. Alguém da praia, um estilo playboy que vai da academia de ginástica para o carro de luxo, e que precisa sempre estar com o “energético” a tira colo, para uma eventual balada em casa noturna.
O típico eleitor bolsonarista não rejeita essa figura. Alguns a invejam, outros criaram os filhos para serem o garoto da sunga branca. Há os que não criaram os filhos assim, mas se tivessem dinheiro certamente o fariam. Há muita gente com essa mentalidade entre os bolsonaristas.
Mas isso é o que deseja metade dos eleitores brasileiros? Não! Mas uma boa parte do eleitorado bolsonarista, concorda com esse ideal de vida. O resto, os que não concordam, votarão em Flávio Bolsonaro assim mesmo. Flávio sabe que pode contar com o volume do antipetismo. Afinal, o antipetismo tem a idade do PT.
Aliás, sem o antipetismo, Flávio Bolsonaro não estaria pontuando tanto nas pesquisas. Ele é apenas isso: o candidato da desesperança. Também seu pai foi assim: os seus eleitores diziam não acreditar que o Brasil melhoraria com Jair Bolsonaro na presidência. Ele foi nitidamente o pregador do “realismo”. E essa doutrina é a da resignação.
2.
Em termos sócio-econômicos, o antipetismo está no âmbito de grupos bem conhecidos: o pequeno comerciante, o pequeno e médio proprietário de terras, uma boa parcela dos profissionais liberais, enfim, trata-se do que em geral, pelo jargão, chamamos de “classe média”. Gente que possui um ódio danado do socialismo (que eles chamam de comunismo).
O sonho desse pessoal é poder ter uma vida que preserve hierarquias sócio-econômicas. Eles falam em liberdade. Mas o que desejam mesmo é que qualquer sinal de equalização social não vingue. Para essa gente a vida boa só será boa se sempre existirem pobres e ricos, de modo que sempre se possa sonhar em ser rico não para viver bem, mas para poder ter em quem mandar, os pobres.
Um mundo sem hierarquias que extinga o mandonismo é insuportável para essas pessoas, mesmo no caso de muitas delas que, enfim, estão aquém de serem de “classe média”.
Uma sociedade como a nossa, que em termos históricos ainda está próxima dos últimos dias da escravidão, e que importou colonos para servirem como os escravos serviram, tem um profundo apreço pelo regime de servidão. São pessoas que imaginam a vida boa como aquela vida em que é possível ter alguém para mandar. Sem o sonho de humilhar o outro, essas pessoas não conseguem viver um dia sequer.
O dono do posto de gasolina que encontra comigo diz: “não há mão de obra mais, ninguém quer trabalhar, todo mundo quer ficar no sofá ganhando bolsa-família”. Eu não respondo nada. Então ele completa: “esses vagabundos, agora, querem folgar um dia a mais!”. “E o Lula gastando!”. Não respondo mais uma vez. Então ele percebe que está vociferando mágoa pessoal, e se afasta. Continua andando pelo posto, fingindo que está, como os frentistas, também trabalhando! Rosna sozinho, logo irá falar alto novamente, na orelha de outro cliente.
Esse dono do posto, pode apostar, tem uma sunga branca e não vê a hora de poder trair a esposa em uma balada, onde se apresentará com seus amigos. Tudo regado a bom uísque ao lado do “energético”. Seria um bom consumidor de Tadalafila, mas não precisa disso uma vez que possui uma arma no porta-luvas. Isso lhe dá a condição de macho.
Após passar na casa da amante, faz um happy hour que garanta, antes do jantar com a garota, uma meia hora com uma outra mulher, a que seja capaz de penetrá-lo. Que homem vitorioso! Os trabalhadores do posto o detestam e o invejam. Entre cinco deles, ao menos dois odeiam o PT tanto quanto ele.
3.
Quando Lula diz que o que ele quer é “um país de classe média”, esse tipo que caracterizei acima sente um frio na coluna. Ele sabe que isso significa tornar muitos que estão empregados no seu posto, pessoas capazes de adquirir um estranho comportamento: poderão olhar para ele sem sentir diferença, mesmo que continuem ainda mais pobres que ele.
O que ele teme é que com a atenuação da desigualdade, diminua o número de pessoas que abaixa a cabeça para suas ordens. Por sua vez, os dois frentistas que comungam com ele o ódio ao PT temem que o mundo de equalização realmente venha, e que eles, mesmo melhorando de vida, não possam sonhar em mandar em alguém como o patrão manda neles.
Entra aí, também, a ideia de não deixar espaço para a emancipação da mulher. O mais pobre sempre conta com o papel subalterno da mulher. Ao menos alguém nesse mundo pode estar no lugar de me obedecer – eis o que o consola. Não se pode viver sem um pet obediente, pensa esse tipo de pessoa. Algumas mulheres acreditam nisso. Outras acreditam que até os homens que não pensam assim, estão na função castradora. O mandonismo é uma ideologia prática que se dissemina e nubla a realidade até da mulher livre. É uma desgraça.
O milicianismo que a família Bolsonaro tanto gosta, reproduz no âmbito do banditismo de colarinho branco ou do banditismo do favelado a mesma ideia de subalternidade, mas de maneira mais brutal. Nesse caso, as obediências são cobradas a todo momento. A desobediência é a morte.
Não é máfia. Não se trata de cobrar a fidelidade, mas sim a sabujice, a demonstração de medo, a afeição que se pode ter por quem tem dinheiro. Isso que está no coração do bolsonarismo é o germe da deterioração social. Se isso se instala no topo do poder, todas as instituições se corrompem em velocidade inaudita.
PAULO GHIRALDELLI ” BLOG A TERRA É REDONDA”( BRASIL)
*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH]