DOM PEDRO II DERROTA O PLATA DE ROSAS

  • Fortemente inspirado no laicismo do Iluminismo dos séculos XVI e XVII, alavancada pela Maçonaria, responsável pela Independência dos Estados Unidos, em 1776, e pela Revolução Francesa, de 1789, a República faria ruir no breve espaço de tempo de 21 anos as monarquias imperiais do Brasil, em 1889, e, em 1910, de Portugal – ambas tendo como linhagem majestática a lusitana e Sereníssima Casa de Bragança. Regimes e próceres despóticos marcaram, de maneira dramática, o primeiro século republicano nos dois países.
  • O Brasil, entre golpes, quarteladas e intentonas militares, produziria a ascensão do caudilho gaúcho Getúlio Vargas (1882 – 1954), natural de São Borja, na fronteira do Rio Grande do Sul com a província argentina de Corrientes, considerado por muitos o primeiro “Pai dos Pobres” do País.
  • Em Portugal, como sabe-se, não foi diferente. A maior figura que emerge da recém-criada República foi o rabugento professor da Beira Alta, António de Oliveira Salazar (1889 – 1970), que comandou com mão de ferro por quase 40 anos o que restara do então faustoso império. O republicanismo provocaria também o “esquecimento” de feitos importantes da História das duas nações bragantinas. Especialmente no Brasil, onde, para além de ridicularizado como bonachão e dispersivo, o Imperador Dom Pedro II (1825 – 1891), carioca de São Cristóvão, teve algumas de suas glórias jogadas, propositalmente, na lata do lixo.
  • Como, por exemplo, sua vitoriosa presença na Guerra do Prata, ocorrida entre 1851 e 1852, contra o ditador argentino Juan Manuel de Rosas (1793 – 1887), que planejava a anexação da Bolívia, Paraguai e Uruguai, numa tentativa de recompor o território do Quarto Vice-Reinado do Prata, tal como havia sido durante o período colonial espanhol. 
  • A derrota imposta por Dom Pedro II a de Rosas, dentro de seus próprios domínios, no elegante bairro bonaerense de Palermo, elevaria ao governo de Buenos Aires o aliado do soberano, General Justo José de Urquiza (1801 – 1870). Foi ele, em nome do monarca do Rio de Janeiro, que consolidaria a Independência do Uruguai, a antiga luso-brasileira Província Cisplatina, ao vencer o montevideano Manuel Oribe (1792 – 1857), memorável fundador do Partido Blanco da atual República Oriental do Uruguai. Oribe era vinculado ao movimento federalista, encabeçado por de Rosas, e tramava, de acordo com as denúncias de Dom Pedro II, a reintegração do vizinho país a Buenos Aires.
  • De Rosas é visto como o pior dos tiranos argentinos no século XIX, e é, sobretudo, o mais polêmico dos próceres daquela nação. Como pode ser comprovado no recente estudo da historiadora portenha Marcela Ternavasio, “Juan Manuel de Rosas – Retrato de um líder polarizador na origem da República Argentina”, que adquiri na viagem que fiz, em julho último, a Buenos Aires. A obra explica como o terrateniente conseguiu conquistar poderes absolutos ao manipular as instabilidades políticas da jovem república, usando de intrincadas articulações que contavam com a participação ativa de sua esposa.
  • Uma manobra repetida por outra lendária liderança argentina, Juan Domingo Perón (1895 – 1974), que soube aproveitar a popularidade de sua companheira, Evita, para reforçar-se no poder. O livro de Ternavasio é um trabalho acadêmico de fôlego – abordando, inclusive, a debacle rosista. Vencido, de Rosas fugiu, disfarçado, para o exílio na cidade inglesa Southampton, ao Sul de Londres, e, amargurado, teria comentado, com rancoroso tom racista: “Não foi o povo que me derrotou, mas, sim, os macacos, os brasileiros”. Ironia das ironias, os dois grandes contendores da Guerra do Prata, Dom Pedro II e Juan Manuel de Rosas, morreriam no exílio. O Imperador, em 5 de dezembro de 1891, em Paris, e, o tirano, em 14 de março de 1877, em Southampton.  
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ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” (BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador

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