
O rádio como janela para a crise: noticiários argentinos revelam o impacto do governo Milei
A propagação das ondas médias favorece a recepção de transmissões de rádio distantes entre o anoitecer e o amanhecer, por isso é possível em Porto Alegre (RS) ouvir emissoras de países como Argentina, Uruguai e Paraguai. E, por conta disso, um dos meus passatempos favoritos é ouvir noticiários destes países num radinho de pilha. A característica principal de uma emissora AM ou FM é a cobertura de eventos locais e, portanto, uma ótima oportunidade para saber o que acontece em determinada região diretamente da fonte.Play Video
Tenho acompanhado ao longo dos anos as transmissões de rádio dos três países mencionados, mas neste artigo será a Argentina meu foco de estudo. Vamos conhecer um pouco das consequências para a Argentina da eleição de Milei como presidente da República por meio de trechos de alguns noticiários de rádios argentinas. Digo trechos porque os noticiários não se limitam a fatos políticos. Por isso, fiz uma curadoria, selecionando aqueles que abordam questões políticas diretamente relacionadas à gestão de Javier Milei.
Esse pequeno apanhado foi colhido entre os dias 1° e 8 de agosto de 2026, de noticiários das seguintes emissoras argentinas:
- Rádio 10, 710 kHz AM
- Rádio Província, 1270 kHz AM
- Rádio Buenos Aires, 1350 kHz AM
- Rádio La Red, 910 kHz AM
- Rádio 2, 1230 kHz AM
Essas emissoras não foram selecionadas por critérios ideológicos, mas pela disponibilidade de recepção no período da escuta.
Vou analisar cada um dos trechos escolhidos e publicados em meu Relatório Ilustrado de Radioescuta e traçar alguns paralelos que acredito serem pertinentes. Os trechos estão traduzidos do original em espanhol. Os áudios podem ser conferidos aqui.
Rádio 10, 1° de agosto – “O setor de ciência e tecnologia na Argentina se encontra numa crise nunca vista. O decano da Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires, Guillermo Durán, alertou para a falta de financiamento para projetos de pesquisa. Durán qualificou de ‘ignorantes’ as autoridades do governo” .Assim como Jair Bolsonaro, presidente do Brasil entre 2019 e 2022 (atualmente em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado), o presidente da Argentina, Javier Milei, tem como principal inspiração Donald Trump, presidente dos Estados Unidos em seu segundo mandato. Os ataques de Trump às instituições científicas fazem parte de uma política de negacionismo científico que inclui, entre outras coisas, negar as mudanças climáticas e deslegitimar a vacinação. Tanto os EUA de Trump quanto o Brasil de Bolsonaro foram os países que mais tiveram mortos durante a pandemia da covid-19 (2019-2023) em números absolutos:
- Estados Unidos: Mais de 1,23 milhão de mortes
- Brasil: Cerca de 704 mil mortes
Uma tragédia agravada pela sabotagem promovida por Trump e Bolsonaro às vacinas e pela promoção de tratamentos não comprovados cientificamente.
Rádio Província, 2 de agosto – “Segundo uma pesquisa, 63,7% acreditam que Javier Milei é responsável pela crise econômica”.
A população argentina tem sentido na própria carne os brutais cortes orçamentários que Milei tem aplicado para conter a inflação. Junte-se a isso a submissão da Argentina ao receituário do Fundo Monetário Internacional. O resultado tem sido um elevado custo social: desemprego em alta, perda de poder aquisitivo e avanço da pobreza.
Rádio Buenos Aires, 5 de agosto – “Escalada de insultos mais uma vez desferidos pelo presidente Milei contra o presidente brasileiro Lula da Silva. O governo Lula decidiu que Júlio Bitelli, representante na Argentina, não retornará à embaixada em Buenos Aires”.
Em julho de 2026, em visita não oficial ao Brasil, Javier Milei tentou se encontrar com o ex-presidente Jair Bolsonaro em sua residência, onde cumpre prisão domiciliar, mas foi impedido por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. Encontrou-se então com Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e candidato da extrema-direita nas eleições presidenciais de 4 de outubro. Na ocasião, declarou apoio à sua candidatura e proferiu ofensas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em agosto, de volta à Argentina, durante uma entrevista, voltou a atacar Lula. Como resposta, o governo brasileiro rebaixou as relações diplomáticas com a Argentina. Os dois países têm tido boas relações diplomáticas e econômicas até então. O Brasil é o maior parceiro econômico da Argentina, e ambos são membros do Mercosul, bloco econômico criado em 1991.
Rádio 10, 5 de agosto – “Segundo a Universidade Católica Argentina, a previsão era de aumento da pobreza no primeiro trimestre de 2026, que já afetava cerca de 30% da população”.
As semelhanças entre os governos de Javier Milei e Jair Bolsonaro podem ser percebidas não só no campo ideológico como também nas políticas desastrosas implementadas em seus países. Em 2021, durante o governo Bolsonaro, o Brasil retornou ao Mapa da Fome, relatório da Organização das Nações Unidas que identifica países onde a subnutrição crônica afeta 2,5% ou mais da população. Quatro anos depois, graças aos esforços do governo Lula, a ONU anunciou a saída do Brasil do Mapa da Fome.
Rádio La Red, 6 de agosto – “20 pessoas detidas e várias feridas em incidentes na praça; enquanto o Senado continua debatendo a Lei de Propriedade Privada. A Gendarmeria, a Prefeitura e a polícia dispersaram os manifestantes”.
A chamada Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada é uma proposta enviada ao Senado pelo presidente Javier Milei, que visa modificar as regras sobre o uso da terra, despejos e proteção ambiental. Opositores dessa proposta alegam que a iniciativa de Milei é uma ameaça à soberania nacional, pois abre caminho à espoliação territorial por parte do capital estrangeiro. Manifestações contrárias à proposta foram duramente reprimidas. O governo argentino retirou alguns trechos e a lei foi aprovada no Senado.
Rádio 2, 8 de agosto – “Diretores condenam o rótulo de ‘terroristas’ aplicado por Milei a pesquisadores e docentes (…) Alertaram para um ataque institucional extremamente grave, visando criminalizar o protesto, e recordaram épocas de perseguição acadêmica durante as ditaduras cívico-militares”.
A nota em questão foi emitida pela Rede de Diretores de Centros Científicos e Tecnológicos (CCTs), enfatizando que o uso “leviano e irresponsável” de conceitos associados ao terrorismo e à subversão remete às justificativas utilizadas por ditaduras civis-militares para intervir nas universidades e perseguir a comunidade acadêmica. Durante a ditadura na Argentina (1976-1983), houve ataques a universidades, prisões, torturas, assassinatos e desaparecimentos de professores, pesquisadores e estudantes.

CARLOS LATUFF ” BRASIL 247″ ( BRASIL)