
A verdadeira natureza do fascismo está em sua incoerência calculada: ele existe antes de se definir e transforma o punho na única síntese doutrinária que jamais abandona
“tudo o que escrevem / não é nada comparado com a realidade / a realidade é tão perversa / que não pode ser descrita / nenhum escritor descreveu ainda a realidade / como ela realmente é / e isso que é terrível” (Thomas Bernard, Praça dos heróis).
1.
A ausência (e incoerência) doutrinária do mussolinismo não era um acidente. Há uma ironia perturbadora no coração do fascismo: ele existiu antes de saber o que era. Benito Mussolini pegou emprestado a palavra fascio do vocabulário da esquerda italiana, fundou um movimento de veteranos ressentidos e anticomunistas em 1919, e só mais de uma década depois se deu ao trabalho de formular uma doutrina. O conceito veio para justificar o poder já conquistado. O fascismo é, antes de tudo, uma prática em busca de teoria.
Uma doutrina era secundária porque o fascismo surgira primeiro para ser pensado depois. Na prática, Benito Mussolini não o criou. Apenas nomeou e conceitualizou a estrutura de um movimento que existiria com ou sem ele. Benito Mussolini pode ter criado o Fascismo, mas não criou o fascismo. Esse movimento é revelador sobre o que ele é; e sobre o que continua sendo. Por isso, ao se estudar o Fascismo e os fascismos, é preciso ler com atenção tanto o discurso, quanto a prática.
Nesse caso, o que o fascismo diz de si próprio? Como ele se entende? E no que isso pode ser útil para compreender possíveis análogos contemporâneos?
Para começar, é preciso sempre lembrar que o regime de Benito Mussolini durou mais de vinte anos. Com tanto espaço temporal, intensificado pela ausência de preocupação teórica, é natural que o fascismo se contradiga conforme os anos. Cada ciclo – do surgimento como Fasci à absorção pelo nazismo na República de Saló – fez com que o discurso fosse modificado e adaptado às necessidades do momento. O antiliberalismo da doutrina contradiz as medidas liberais dos primeiros anos de Benito Mussolini no Executivo. Contudo, por mais que discurso e prática sejam, por vezes, incompatíveis, é preciso olhar para ambos.
Existe uma frase atribuída a um militante fascista dos anos 1920 que deveria ser lida e relida por qualquer pessoa que pretenda entender o fenômeno: “O punho é a síntese de nossa teoria”. Benito Mussolini ia além: dizia que ele próprio era a definição do fascismo. Em outra oportunidade, quando questionado sobre qual era o seu programa, declarou que seria quebrar os ossos dos adversários; e o quanto antes, melhor.
Antes, nos programas do Partido Nacional Fascista, 1920, consta que os fascistas não se sentiam “presos a qualquer tipo particular de forma doutrinária”. Messianismo, violência, autoritarismo e ausência programática, em poucas frases temos um panorama de algumas das características mais clássicas (embora incompletas) do fascismo. E mais comuns à extrema direita contemporânea.
2.
Isso não é anedota, mas a chave de leitura de todo o fascismo italiano, e talvez de qualquer fascismo. A ausência deliberada de programa foi transformada em virtude, em marca de virilidade, em prova de superioridade sobre o racionalismo liberal e o esquematismo marxista.
A Doutrina do Fascismo, publicada em 1932 na Enciclopedia Italiana (redigida ao menos em parte pelo filósofo Giovanni Gentile, e não apenas por Benito Mussolini) apareceu quase quinze anos depois da fundação dos Fasci di Combattimento. Nessa época, Adolf Hitler estava prestes a ascender na Alemanha e movimentos análogos espalhavam-se pela Europa. A doutrina, portanto, não antecedeu o movimento: ela o justificou retroativamente, deu-lhe verniz filosófico num momento em que o fascismo já não precisava convencer – apenas administrar o poder que havia conquistado.
Daí a contradição que percorre o texto de ponta a ponta. A Doutrina condena o teleologismo marxista e liberal, mas, em seguida, aplica exatamente esse raciocínio, ao apresentar o Estado Fascista como destino da civilização. Critica o liberalismo, mas os primeiros anos de Benito Mussolini no executivo foram marcados por políticas francamente liberais. O antigo socialista, expulso do partido em 1914 após receber financiamento da embaixada francesa para defender a entrada da Itália na Primeira Guerra, fundou seu movimento reunindo veteranos, intervencionistas e grupos antissocialistas. Uma coalizão cuja coesão não era doutrinária, mas emocional e ressentida.
Diante de toda essa fungibilidade, é fundamental entender que o fascismo é maleável desde o seu nascimento com esse nome. Podemos chamar os movimentos de extrema direita contemporâneos de fascismo ou de qualquer outra determinação que quisermos, mas isso não vai mudar a sua essência. Chamar de populismo não vai fazer com que o bolsonarismo, por exemplo, subitamente se torne mais moderado. Sobre isso, Paxton (1998, p. 09) lembra: “Devemos ter uma palavra e, na falta de outra melhor, devemos empregar a palavra que Benito Mussolini pegou emprestado do vocabulário da esquerda italiana em 1919”.
Isso tem consequências diretas para quem tenta compreender e combater o fascismo hoje. A armadilha clássica é buscar a coerência onde ela não existe e concluir que, sem coerência, não há fascismo. Mas o fascismo é coerente precisamente em sua incoerência performática. Ele muda de discurso conforme o ciclo político exige. O programa de 1919, quando o movimento por pouco não desapareceu, é radicalmente distinto do discurso da República de Saló, seu último estágio mussolinesco.
Entre um e outro, houve medidas liberais, golpe autoritário, alianças com a Igreja, alianças com o capital, e uma guerra que o próprio Benito Mussolini não conseguia mais controlar.
Reconhecer esse padrão não é exercício de erudição histórica. É, talvez, a condição mínima para não ser surpreendido quando o punho volta a se apresentar como síntese de uma teoria.
SERGIO SCHARGEL ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)
*Sergio Schargel é doutor em ciência política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de Bolsonarismo, integralismo e fascismo (Folhas de Relva). [https://link.amazon/B0eayaVaJ]