
O choque cultural entre o Maracanã de terno e o Mineirão dos smartphones revela o abismo ético e financeiro que separou os heróis do passado dos influenciadores de hoje
É como você palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de seus sapatos – que era pausado e seco –, e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de seu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu. E dela saiu uma lâmpada mágica. E de dentro dela, um gênio. Que, sem cerimônia, lhe diria:
“Você tem um desejo. Pode pedir”. – Mas não são três? – “Eram. Novos tempos. Austeridade”. – Tá, um desejo. Pode ser a paz mundial? – “Pode”. – A paz irrestrita, nunca mais nenhuma guerra entre seres humanos? – “Pode”. – Boa. Apesar de que… e se, no lugar disso, eu pedir para a Seleção do Maracanazo jogar no 7×1, e a do 7×1 jogar no Maracanazo… é possível? “Sim”. – Pensando bem, acho que é isso que eu quero. Pode anotar. “E a paz mundial?” – Fica para a próxima lâmpada.
Prestativo, o gênio pôs-se em ação. Porque ele também deveria ser fã de futebol, o terreno por excelência do “e se”.
1.
1950 – Começa o jogo no Maracanã. Oscar passa para Fred, que recua para Júlio César. Que dá um bicão para a frente porque, afinal, decisão de Copa do Mundo com o Uruguai não é todo dia que se disputa. Sobretudo porque aqueles jogadores tinham a chance de se tornarem os primeiros brasileiros campeões do mundo.
A Celeste joga com força. Bate pesado. No primeiro lance, Obdulio Varela entra forte em Hulk, que esverdeia, empalidece. El Capitán mostra que também é O Brabo, 80 anos antes da gíria existir.
Felipe Scolari tenta orientar o time do banco. O alarido das arquibancadas é ensurdecedor.
– “Ô Marcelo, avança. Olha o Obdulio! Dante, pega o Ghigg…” – e a voz de Felipão desaparece em meio ao repetido “Brasil-Brasil-Brasil”.
O técnico parece um pouco aturdido com as 200.000 pessoas superlotando o estádio de uma maneira que ele nunca viu. Olha para o campo, grita, olha para as arquibancadas. Volta a olhar para o campo, e para as arquibancadas. Para o campo, para as arquibancadas. Para as arquibancadas, para as arquibancadas, par as arquibancadas. Que multidão, meu Deus.
O Brasil que enfrenta o Uruguai naquele 16 de julho de 1950 forma com Julio Cesar; Maicon, David Luiz, Dante, Marcelo; Luiz Gustavo, Fernandinho; Hulk, Oscar, Bernard; Fred. O técnico é Luiz Felipe Scolari.
2.
2014 – No Mineirão, os brasileiros aguardam pelo apito inicial da partida com a Alemanha. A torcida grita os nomes de todos os jogadores, especialmente de Barbosa e Bigode, a dupla que tão bem guardara a defesa nas partidas que levaram a Seleção à semifinal.
Em meio à festa, os jogadores estranham algumas coisas. Dentre elas, o estádio com jeito de teatro, todo ocupado por cadeiras, quase que totalmente preenchidas por pessoas brancas. E a camisa amarela, no lugar da branca.
“Parece a camisa do Volta Redonda” – diz Ademir a Zizinho, antes do pontapé inicial. “Camisa canarinho” – responde Mestre Ziza.
Outra coisa um tanto incompreensível para os jogadores é a pletora de propagandas por todo lado, piscando, se mexendo, de produtos que eles nem sabem para que servem. Não reconhecem nenhuma daquelas marcas, com a exceção de Johnson e Coca-Cola. Estranham, sobretudo, uma publicidade com a inscrição “Amo muito tudo isso”. Isso o quê? É de comer?
Mas estranham, acima de tudo, a Alemanha jogando com o uniforme do Flamengo. Os brasileiros, a maioria do Vasco, se motivam com a visão da camisa rubro-negra envergada pelos germânicos. Bigode e Juvenal, ambos do Flamengo e zagueiros, ficam aturdidos.
O Brasil que enfrenta a tricampeã Alemanha forma com Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo Alvim e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. O técnico é Flávio Costa.
1950 – Depois de golear a Espanha por 6×1 – com as arquibancadas e a geral entoando Touradas em Madri – e a Suécia por 7×1 – hum…. -, a seleção brasileira vai para cima do Uruguai. Os orientais se encolhem, dão bicão para a frente. Assustados com a velocidade de Oscar, a alegria nas pernas de Bernard e os bíceps de Hulk, os uruguaios se encolhem e batem. Muito.
– “Del pescuezo para abajo, todo es canela’’ – orienta Obdulio aos compatriotas.
Passada a desorientação inicial com o estádio superlotado, com a os uniformes de tecido e com a torcida de terno e chapéu, os jogadores brasileiros finalmente conseguem se concentrar. É questão de tempo para levantarmos, pela primeira vez, a taça Jules… Jules… Jules o quê?
2014 – O Brasil começa com tudo no Mineirão. O Hino Nacional cantado à capella energiza o time de Flávio Costa. Com cinco atacantes – Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico –, é questão de tempo para a Alemanha virar chucrute.
Logo no primeiro minuto, Zizinho solta uma bomba no canto do alemão Neuer. Um “ooooh” preenche todo o estádio. A torcida brasileira se incendeia. Os poucos alemães presentes, já naturalmente quietos, desaparecem em meio à torcida brasileira.
Em meio ao jogo, os brasileiros começam a notar que os torcedores apontam para eles pequenos retângulos brilhantes. A visão daqueles pontos brilhantes captura a atenção do onze nacional, inquietos com o porquê – e as consequências – de, durante o jogo todo, terem aquelas telinhas apontadas para eles.
O fascínio, misturado com preocupação, impregna os jogadores brasileiros, que não param de olhar para a arquibancada. Distraídos, começam a se desconcentrar do jogo. Numa dessas distrações, Thomas Müller escora um escanteio e abre o placar para os germânicos.
3.
1950 – Termina o primeiro tempo. Brasil 0x0 Uruguai.
Ao sair de campo, Felipão cruza com um senhor baixinho, de bigode e chapéu. – “Ça va, monsieur” – diz o homenzinho. Ao descer para o vestiário, ouve de um repórter: “Que honra, ser cumprimentado pelo Dr. Jules Rimet”.
Felipão fica confuso. Mas só vai entrar em pane definitiva quando, ao subir para o campo no segundo tempo, passa ao lado de um jovem soldado em cuja farda aparece o nome “Zagallo”.
2014 – Nem bem a Alemanha inaugura o placar, a pressão prossegue. Müller entra na área e passa, de calcanhar, para Klose, que bate em gol. Barbosa defende, mas solta de novo no pé do alemão, que marca o segundo.
Do banco, Flávio Costa começa a ficar destemperado. O problema nem é o placar em si – 2 a 0 ainda é reversível – mas a forma como o jogo está se dando, como se somente a Alemanha estivesse em campo. O técnico fica desnorteado. Mas só vai entrar em pane quando um daqueles retângulos luminosos chega às suas mãos e, dele, surge na tela um vídeo colorido com a inscrição “Fortune Tiger”. Flávio Costa começa a desconfiar que está em um pesadelo. Ou está ficando louco.
1950 – Com as ideias embaralhadas pelo caldeirão do Maracanã, Felipão vê o Brasil abrindo o placar, aos 2 minutos do segundo tempo. Oscar é lançado e, na entrada da área, bate seco no canto esquerdo de Maspoli, que só tem tempo de se levantar do chão e ver o estádio vir abaixo, sob gritos de “Brasil, Brasil, Brasil” e “Oscar, Oscar, Oscar”.
Agora, é questão de minutos para que se concretize a ordem dada pelo prefeito Mendes de Morais antes da partida: “cumpri a minha palavra construindo este estádio. Cumpram agora o dever de vocês conquistando a Copa do Mundo”.
Uma responsabilidade, tremenda responsabilidade. Se a população do Rio naqueles idos de 1950 era de dois milhões de habitantes, então 10% de toda a cidade estava dentro do estádio. Felipão nunca passara por nada parecido.
Se a pressão sobre o técnico no estádio era grande, ao menos diminuíra ao saber que não havia TV transmitindo o jogo. Rádios, várias rádios, mas nenhuma TV – objeto que só passaria a existir no Brasil 2 meses depois daquela partida. Ufa.
4.
2014 – Um minuto depois do segundo gol do Flameng, ops, Alemanha, o time tedesco entra novamente, desta vez pela direita. Philip Lahm cruza, Toni Kroos coloca no canto direito de Barbosa. “Chegaram de novo, chegaram de novo”, diz Galvão Bueno ao microfone.
Três a zero. Começam a aparecer imagens de crianças chorando na arquibancada.
– “E lá vem mais, lá vem mais. Virou passeio” – grita Galvão ao narrar o quarto gol alemão, um minuto depois.
Quem saiu da frente da TV para pegar um aperitivo, uma bebida ou simplesmente fazer xixi, não conseguiu retornar a tempo de ouvir Galvão dizer “lá vem eles de novo, olha só que absurdo… goool da Alemanha”.
Khedira anota 5 a 0 para os visitantes. Barbosa fica caído no chão, enquanto os jogadores se olham, perplexos, como que sentindo o chão se abrir sob seus pés.
1950 – Em meio à balbúrdia da comemoração, dos fogos espocando pelas arquibancadas, rojões explodindo no céu, Obdulio se aproxima de Hulk, e toca a mão em sua cabeça. Parte do estádio diz que o uruguaio somente encostou nos cabelos de Hulk. A outra parte jura que o brasileiro recebeu, calado, um tapa do uruguaio.
A única certeza é que os visitantes, aos 21 minutos do segundo tempo, empatam, após Ghiggia cruzar para Schiaffino bater no ângulo superior direito de Júlio César. Um a um. O Brasil ainda é campeão, mas a sensação de que uma nuvem de silêncio pousou sobre o Maracanã assusta os jogadores – mesmo os mais expansivos, como Fred.
2014 – Começa o segundo tempo no Mineirão. A Alemanha parece ter tirado o pé do acelerador. A máquina que triturara o time de Flávio Costa no primeiro tempo convertera-se em um relógio que funciona na medida, apenas para medir o tempo passar.
O segundo tempo seria um tédio absoluto, não fosse Schürrle entrar na Alemanha e, por iniciativa própria, disparar mais dois tentos na meta brasileira. Agora, Alemanha 7, Brasil 0. Barbosa cai sentado no chão, com um olhar entre o aturdido e o embasbacado.
5.
1950 – A mudez do Maracanã só é quebrada pelos gritos de Felipão de “pega, Marcelo, pega ele, não deixa, pega”, para o lateral brasileiro, encarregado de parar Ghiggia – que avança pela direita e, desajeitadamente, dispara no canto direito de Júlio César, aos 34 do segundo tempo.
O estádio inteiro, 200 mil almas, ouviu os gritos de Felipe Scolari, mas de nada adiantou. Agora, nossos vizinhos é que estão a 10 minutos de serem campeões do mundo.
2014 – A torcida no Mineirão divide-se. Parte vaia a seleção, parte, aplaude a Alemanha. Parte chora. Parte está em estado de choque. Extáticos, somente os alemães – que assistem Friaça fazer o único gol brasileiro, no apagar das luzes.
Alemanha 7, Brasil 1. Bigode, aos prantos, em entrevista após o apito final, diz: “só queria dar alegria ao meu povo. Infelizmente não conseguimos, desculpa a todo mundo”. Danilo Alvim sai chorando no ombro de um repórter/influencer.
1950 – A torcida incentiva, grita, mas os uruguaios defendem-se bem, e o resultado final é mesmo o 2×1. Acabou. Nunca mais o Brasil será campeão da Copa de 1950. Agora, nunca mais mesmo. Felipão chama o time para os vestiários, e o mais abatido de todos é Bernard que, a partir daquele dia, passa a ser conhecido, como “Tristeza nas Pernas” – especialmente depois que Francisco Alves, o Rei da Voz, grava uma canção com este título – , e abandona a carreira de jogador, para se tornar motorista.
Presente ao estádio, Assis Chateubriand, que cogitara levar os craques brasileiros à inauguração de sua TV Tupi, dali a dois meses, desiste do convite.
Demitido pela CBD, Felipão vai para o exílio na Ilha de Elba, onde é nomeado treinador da seleção local. Zezé Moreira assume a Seleção Brasileira, ficando até a Copa de 1954 – quando estreiam uma novidade exótica, um uniforme com as quatro cores da bandeira, sendo a camisa num faiscante amarelo. Hulk, Marcelo, Júlio César, Fernandinho e Dante passam a saltar de um time para o outro até o final da carreira. Uma vez aposentados, todos passam a morar em casebres de periferia. Neymar, que estava contundido na final contra o Uruguai, dá entrevistas para a BBC em sua casa de um quarto, em um subúrbio de Osasco.
2014 – Encerrada a Copa, os jogadores da Seleção se transferem, todos, para clubes da Europa. Contratado pela Internazionale, Chico se naturaliza italiano e vira ídolo em Milão, onde é conhecido como Francesco. Ademir e Chico assinam com o Chelsea, onde permanecem por 10 anos como jogadores – trajetória de sucesso continuada, depois, como executivos e managers do clube londrino.
Após ganhar por três vezes seguidas o prêmio da FIFA de melhor jogador do mundo, Barbosa é imortalizado em Madrid – onde defende o Real até sua aposentadoria. A arena do clube passa a ser, carinhosamente, chamada pelos torcedores merengues de Santiago Barboseu. Ao retornar ao Brasil, adquire a SAF do Vasco, passando a ser dono de seu clube de coração.
A única coisa que incomoda Barbosa é quando algum hater escreve em um de seus perfis chamando-o de mercenário. Mas nada suficiente para que não relaxe em seu veleiro, invariavelmente estacionado em Monte Carlo – o Monaconã.
6.
2026 – “O impossível acontece para quem é TrapBet, a bet da diversão!”. Bigode e Juvenal, a dupla de zaga, repetiram tanto esta frase para as câmeras que, às vezes, se pegavam falando-as sozinhos, onde quer que estivessem.
Mas valera a pena: 200 mil reais cada, somente para a gravação do comercial em que, em meio à desolação pela derrota num Mineirão cenográfico, com camisas da Alemanha estilizadas à la Flamengo, conversam com um gênio que, saído de uma lâmpada, pergunta: – “E aí, Juvepeta? Qual a odd pra hoje?”
Juvenal, com a mão na cabeça, faz cara de não sei. O gênio – representado por Compadre Washington, do É o Tchan – se volta, então, para seu companheiro de defesa: – “E você? Be good, meu caro!”
Bigode coca o queixo, olha para o céu e, com sorriso maroto, murmura: – “Acho que… sete”.
Juvenal e o gênio se entreolham, arregalados. Mas, súbito, começam a sorrir e, em uníssono, olham para a câmera: – “É sete? Vai de TrapBet!”
“Produto para maiores de dezoito anos, jogue com responsabilidade” (voz em off em velocidade triplicada).
Gênio da lâmpada e tigre pulam abraçados, dentro de pote dourado. Corta.
ANDRÉ ASSIS ” BLOG A TERRA É REDONDA ” ( BRASIL)
*André Assis é graduado em história pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou no Museu do Futebol da cidade de São Paulo.