MEL BROOKS, O HOMEM QUE SE RI DA MORTE

O homem que fez de Hitler um número musical, de Frankenstein uma vedeta de cabaret e da velhice uma anedota continua a provar que a comédia, quando é mesmo grande, entra à vontade, parte a mobília e ainda deixa gorjeta

Mel Brooks fez 100 anos ontem — nasceu a 28 de Junho de 1926 — e, convenhamos, isto coloca um problema sério à biologia, à indústria farmacêutica e aos comediantes de meia-idade que já se queixam das costas depois de duas piadas em pé. Afinal, rir ou fazer rir os outros talvez seja mesmo o melhor remédio. Cem anos. Um século inteiro. A idade em que qualquer outro senhor estaria legitimamente autorizado a confundir o comando da televisão com um tratado de paz. Mas Mel Brooks continua a parecer aquele miúdo do Brooklyn que descobriu cedo que se o mundo lhe desse uma bofetada, podia fingir que era aplauso. Nasceu Melvin Kaminsky, filho de imigrantes judeus, perdeu o pai muito cedo, cresceu pequeno, frágil, barulhento, esfomeado de atenção e de espetáculo. Ou seja: Hollywood não inventou Mel Brooks; Brooklyn limitou-se a pô-lo cá fora e dizer: “agora desenrasca-te.”

A gargalhada como vingança

Antes de ser uma verdadeira celebridade, foi soldado. Antes de gozar com nazis, combateu-os. Este pormenor é essencial, porque em Brooks a gargalhada nunca foi apenas espuma, careta ou pastelada. Foi vingança. Foi sobrevivência. Foi uma maneira de entrar no gabinete da História, baixar-lhe as calças e sair a correr antes que a autoridade percebesse o que estava a acontecer. Da Segunda Guerra Mundial trouxe qualquer coisa que nunca o abandonou: a certeza de que o mal precisa de medo, pompa, farda, marcha e silêncio; a comédia precisa apenas de um homem suficientemente atrevido para transformar Hitler num número musical. Quando, em Os Produtores, inventou “Springtime for Hitler”, não estava a banalizar o horror; estava a roubar-lhe a pose. E nada humilha mais um tirano do que pô-lo a cantar para uma plateia que já percebeu a piada.

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Brooks começou onde tantos mitos americanos começaram: não no Olimpo, mas no trabalho duro, nos clubes, nos resorts das Catskills, na televisão ao vivo, naquela fábrica de neuroses e génio que foi o programa de Sid Caesar. Ali, entre escritores que pareciam uma reunião secreta de futuros imortais — Carl Reiner, Neil Simon, Larry Gelbart, Woody Allen — aprendeu que uma sala cheia de argumentistas pode ser uma sinagoga, um ringue de boxe e um manicómio com máquina de café. Foi com Carl Reiner que encontrou uma das grandes amizades do século XX cómico. Criaram juntos The 2000 Year Old Man, essa ideia absurda e perfeita: um homem com dois mil anos que viu tudo, sobreviveu a tudo e, ainda assim, se queixava como um judeu de Brooklyn com dores nos joelhos. A longevidade de Brooks começou por ser uma personagem. Depois, como muitas boas piadas, tornou-se realidade.

O ano em que Brooks assaltou Hollywood

No cinema, entrou pela porta da frente enquanto fingia arrombar a janela. Os Produtores já era, em si, uma estreia demasiado insolente: Zero Mostel, Gene Wilder, vigaristas teatrais, Broadway, fracasso fabricado, nazis ridicularizados, mau gosto usado com precisão cirúrgica. Brooks ganhou o Oscar de argumento e, mais importante, ganhou o direito de nunca mais ser domesticado. Depois veio As Doze Cadeiras, talvez menos explosivo, mais literário, prova de que dentro do palhaço havia um leitor da grande sátira russa, via Ilf e Petrov, com vontade de fazer tropeçar padres, aristocratas e oportunistas.

Mas foi em 1974 que o homem decidiu não ter um ano: teve um assalto. Primeiro com Balbúrdia no Oeste, faroeste antirracista, flatulento, suicida e genial, onde o Velho Oeste americano era desmontado como cenário de feira e o mito da fronteira levava uma tareia de inteligência embrulhada em estupidez. Depois com O Jovem Frankenstein, esse milagre em preto e branco que é, ao mesmo tempo, paródia, homenagem e prova de amor ao terror clássico da Universal. Há filmes que envelhecem; este parece ter sido conservado em formaldeído cómico, com Gene Wilder a arder por dentro, Marty Feldman a olhar para nós de lado e Peter Boyle a cantar “Puttin’ on the Ritz” como se a monstruosidade fosse apenas timidez com costuras no pescoço.

Parodiar é amar com uma navalha

A especialidade de Brooks foi sempre a demolição carinhosa. Ele não parodiava géneros porque os desprezava; parodiava-os porque os conhecia por dentro, como quem desmonta um relógio para descobrir onde se esconde o cómico tique-taque. Em A Última Loucura de Mel Brooks, fez um filme mudo quando toda a gente já falava demais. Em Alta Ansiedade, atirou-se a Hitchcock com a devoção de um aluno que ama tanto o mestre que lhe mete pombos, chuveiros e neuroses em cima. Em História do Mundo, Parte I, fez da História quase uma revista à portuguesa com orçamento americano, do Império Romano à Inquisição, tudo servido em ritmo de vaudeville, como se os manuais escolares tivessem finalmente bebido demais.

Em A Mais Louca Odisseia no Espaço, chegou atrasado à paródia de Star Wars e, mesmo assim, saiu a tempo de ficar para sempre. Que outro homem poderia inventar Yogurt, Dark Helmet e o merchandising dentro do próprio filme sem que a piada parecesse uma reunião de acionistas? Brooks fez capitalismo cómico antes de os estúdios descobrirem que até a nostalgia dava para faturar.

Mas reduzir Mel Brooks às piadas de “peidos” — e Deus sabe que ele não as renegaria, talvez até as autografasse — é como reduzir Mozart ao penteado. Brooks foi também produtor de O Homem Elefante, de David Lynch, e teve o bom senso de tirar o seu nome dos créditos promocionais para que ninguém entrasse na sala à espera de uma piada sobre trombas. Ajudou a proteger A Mosca, de David Cronenberg, e apoiou filmes sombrios, estranhos, delicados, que provam uma coisa muito simples: o homem do disparate tinha um faro dramático que muitos produtores sérios venderiam a alma para possuir. Brooks sabia que o grotesco tanto pode fazer rir como partir o coração. A diferença está no ângulo da câmara e no momento em que entra a fanfarra.

Anne, Carl e a ternura dos sobreviventes

Na vida, o grande número de amor foi Anne Bancroft. Ela, atriz, magnífica, intensa, elegante, dramática; ele, pequenote judeu tornado cómico, com tendência para o escatológico e a interrupção pública. Pareciam incompatíveis, portanto estavam feitos um para o outro. Quando Brooks viu Bancroft, fez o que qualquer cavalheiro discreto faria: gritou-lhe da plateia que a amava. Isto, em qualquer outro homem, seria motivo para chamar a segurança; em Mel Brooks, foi o início de uma história de amor e de um casamento que durou 41 anos. Casaram-se, riram, discutiram, trabalharam juntos, tiveram Max Brooks e formaram uma dessas duplas em que o casamento parece uma conspiração contra o mundo. Quando Anne morreu, em 2005, Brooks perdeu a mulher, a cúmplice, o copo que continha a água eléctrica do seu génio. Continuou, porque os grandes comediantes não vencem a dor: dão-lhe uma cadeira à mesa e obrigam-na a ouvir anedotas.

Depois houve Carl Reiner, o amigo de mais de setenta anos, o jantar quase diário, o Jeopardy!, a ternura disfarçada de rotina. É difícil imaginar coisa mais bonita do que dois velhos gigantes da comédia a terminarem os dias a conversar, a comer, a rever o mundo e, provavelmente, a corrigi-lo com uma piada. Brooks sobreviveu a muitos dos seus: Gene Wilder, Zero Mostel, Madeline Kahn, Dom DeLuise, Reiner, Bancroft. Cada perda podia tê-lo calado. Não calou. A gargalhada, nele, nunca foi fuga; foi teimosia. Uma maneira de dizer à morte: “espera lá fora, que ainda estou a acabar este sketch.”

A campainha que interrompe a cerimónia

E que século é este que Mel Brooks atravessou? O século da rádio, da televisão, da Broadway, do cinema clássico, da paródia moderna, do musical renascido, do streaming, dos documentários-homenagem — o último, Mel Brooks: O Homem de 99 Anos!, está disponível na HBO Max — e das sequelas anunciadas quando o autor já podia legitimamente estar a pedir sossego. Brooks ganhou Emmy, Grammy, Oscar e Tony, recebeu honras de Estado, prémios de carreira, estátuas, homenagens e o tipo de reverência que normalmente mata os comediantes por excesso de respeito. Mas ele escapou também a isso. Porque Mel Brooks nunca foi um busto: foi sempre uma campainha a tocar quando a cerimónia pedia silêncio.

Aos 100 anos, continua a ser uma figura incontornável porque percebeu uma coisa que hoje muitos esqueceram: a comédia não existe para confirmar a nossa boa educação. Existe para morder, exagerar, tropeçar, falhar, acertar por engano e, sobretudo, dizer ao poder que está nu, mesmo quando o poder veste uniforme, smoking ou toga académica. Brooks fez rir com coragem, mau gosto, coração, música, inteligência e uma falta de vergonha absolutamente medicinal. Não foi apenas o homem que gozou com Hollywood; foi o homem que obrigou Hollywood a admitir que o ridículo também é uma forma de verdade.

Com cem anos de vida, Mel Brooks não é só uma lenda viva. É uma prova ambulante de que a gargalhada conserva, desinfeta e, se for bem aplicada, ainda faz cair ditadores, monstros, cowboys racistas e produtores da Broadway. O segredo da longevidade? Ele próprio já deu a receita, com a simplicidade dos sábios e dos insolentes: não morrer. Parece pouco, mas em Mel Brooks até isso soa a punchline. E nós, agradecidos, continuamos aqui: sentados na plateia, a rir antes que a morte perceba que a sala já está esgotada.

JOSÉ VIEIRA GOMES ” REVISTA VISÃO” ( PORTUGAL)

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