
A esposa do “Anjo da Morte” alugou um apartamento perto do aeroporto de Zurique em 1961 e foi colocada sob vigilância policial, mas a presença do assassino nunca foi confirmada; os serviços de inteligência suíços irão abrir, com algumas restrições, um dossiê sobre o caso que permaneceu em sigilo até agora.
Algumas histórias são esquecidas, enquanto outras se recusam a ser enterradas. Como a história dos horrores do nazismo e de uma de suas figuras mais abjetas, Josef Mengele. Ele foi um dos nazistas proeminentes que conseguiram escapar após a derrota alemã na Segunda Guerra Mundial. Estabeleceu-se na Argentina em 1949 e morreu no Brasil em 1979. Nunca foi julgado por seus crimes macabros. Muito já foi escrito sobre ele, mas às vezes ainda restam pistas a serem seguidas a partir do presente. Uma delas está na Suíça, onde o Arquivo Nacional guarda um dossiê sobre sua possível presença em uma cidade perto de Zurique na década de 1960, um dossiê que não estava previsto para ser divulgado antes de 2071. Recentemente, o Serviço Federal de Inteligência Suíço (NDB) mudou sua política após um apelo e concederá acesso limitado ao seu conteúdo. Isso abre caminho para completar um capítulo sobre o papel da Suíça em um conflito global no qual não foi atacada, mas que, mesmo assim, prejudicou sua reputação.
Oficial da SS e médico no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia ocupada, Mengele selecionava as vítimas que morreriam diretamente nas câmaras de gás assim que desembarcassem dos trens de extermínio. O homem apelidado de Anjo da Morte também era obcecado pela supremacia ariana e submeteu inúmeros prisioneiros a experimentos sádicos, mutilações e todos os tipos de tortura. Poucas de suas vítimas sobreviveram — judeus e ciganos, muitos deles crianças, principalmente gêmeos, e pessoas de baixa estatura.
Após se esconder na Alemanha, Mengele fugiu para Buenos Aires com documentos falsos em nome de Helmut Gregor, viajando de navio desde Gênova. Lá, sentiu-se seguro por anos, a ponto de ousar retornar à Europa. Em 1956, desfrutou de umas breves férias de esqui na cidade suíça de Engelberg com seu filho, Rolf, como comprovam as fotografias publicadas na revista alemã Bunte após a morte de Mengele.

As autoridades suíças ainda não aceitavam essa informação, apesar das imagens, quando, no final da década de 1990, parlamentares suíços, como o socialista Jean Ziegler, falecido este mês, questionaram o governo sobre investigações jornalísticas que sugeriam que ele também poderia ter estado na Suíça na primavera de 1961. Sua segunda esposa, Martha Mengele, viúva de seu irmão, alugou um apartamento na cidade de Kloten, perto do aeroporto de Zurique, e ficou sob vigilância policial por alguns dias. Ela saiu certa manhã com um homem que nunca foi identificado.
A presença de Mengele lá não foi confirmada, e vários historiadores a consideram improvável; havia um mandado de prisão contra ele desde 1959, e a pressão internacional para capturar nazistas fugitivos aumentou, levando-o a se mudar primeiro para o Paraguai e depois para o Brasil. Em 1960, o Mossad também sequestrou Adolf Eichmann na Argentina, onde ele usava o pseudônimo de Ricardo Clement. Ele foi julgado e posteriormente condenado à morte por enforcamento em Jerusalém.
Mas os registros policiais conhecidos sobre o episódio de Kloten revelam, no mínimo, uma reação suíça lenta e burocraticamente entraves no que diz respeito à investigação.

Essa é a opinião da historiadora suíça Regula Bochsler, que está finalizando um livro sobre as chamadas rotas de fuga, redes usadas pelos nazistas para escapar da justiça e se esconder. Ela não espera grandes revelações sobre Mengele nos arquivos que agora serão desclassificados. “Mas espero obter mais informações sobre as ações das autoridades e, claro, que a investigação sobre o assunto continue”, diz ela em um café de Zurique.
A historiadora e jornalista deparou-se com Mengele quase por acaso. “Eu estava procurando informações sobre outro nazista, Václav Hajek, um especialista em explosivos”, conta. Ela estava seguindo os passos dele para outro livro, publicado em 2022, sobre uma grande empresa química suíça que, como aconteceu em outros países após a guerra, contratou especialistas alemães, incluindo ex-nazistas.
Durante a investigação sobre Hajek, Bochsler encontrou uma notificação do serviço secreto austríaco sobre a possível presença de Mengele na Áustria, Alemanha ou Suíça em 1961. Nesse contexto, Bochsler solicitou acesso ao arquivo do médico nazista nos Arquivos Nacionais, mas teve seu pedido negado: “Achei ultrajante que um arquivo sobre um assassino nazista não tivesse sido aberto tanto tempo depois.” Os serviços de inteligência suíços alegaram a proteção de fontes e o potencial dano a terceiros como razões para manter o arquivo em segredo até 2071.
Embora Mengele não fosse alvo das investigações, Bochsler conseguiu posteriormente consultar os registros policiais nos Arquivos Estaduais de Zurique, onde constam a troca de informações com a Procuradoria Alemã, a entrega de uma fotografia de Mengele aos suíços — “eles nem sabiam como ele era” — e uma vigilância bastante descuidada e, em parte, amadora de Martha Mengele.
O promotor alemão responsável pelo caso do médico nazista enviou um jornalista a Kloten para vigiar o apartamento depois que um corretor de imóveis, supostamente de origem judaica, alertou o consulado alemão em Zurique de que a esposa de Mengele estava lá, relata Bochsler. Ela havia lido que um mandado de prisão havia sido emitido contra o nazista desde 1959 e que uma recompensa havia sido oferecida por sua captura. Pouco depois, o jornalista informou à polícia que tinha visto um homem na varanda do apartamento de Martha Mengele e suspeitava que pudesse ser seu marido. A vigilância começou em 6 de março de 1961, três dias após a denúncia, “porque havia um fim de semana no meio”.
No dia seguinte, os agentes perguntaram em Berna se era possível efetuar uma prisão. “A princípio, disseram que sim, depois que o caso era complicado e precisava ser submetido ao chefe [do serviço]. A autorização por escrito seria concedida no dia seguinte.” Naquela manhã, Martha Mengele, que supostamente estava na Suíça porque o filho do nazista estudava lá em um internato, saiu “em seu carro com um homem” cujo nome não pôde ser determinado.

Os registros, segundo o historiador, também mostram que, ao retornar a Kloten, a mulher tentou obter uma autorização de residência, que foi negada pelos suíços. Ela então percebeu que estava sendo vigiada pelas autoridades, o que descartou quaisquer planos de viagem que Mengele pudesse ter feito, afirma o historiador. A mulher então foi para Merano, na Itália.

Bochsler suspeita que a mudança da mulher e do filho para a Suíça possa ter feito parte de um plano para permitir que Mengele os visse em um local mais seguro do que a Alemanha. “Uma pergunta muito simples surge: por que alugar um apartamento a 8,4 quilômetros do aeroporto, em um prédio feio onde aviões passam constantemente rugindo por cima?”
Embora o dossiê dos Arquivos Nacionais possa não resolver definitivamente essas questões, “ele precisa ser público, e os pesquisadores precisam poder fazer seu trabalho”, afirma Gerhard Wettstein, historiador de formação, em entrevista por telefone de Berna. Wettstein tentou acessar o dossiê depois de saber que o acesso de Bochsler havia sido negado. “A verdade histórica precisa ser conhecida; caso contrário, dá margem à especulação”, enfatiza Wettstein, que utilizou financiamento coletivo para cobrir os custos do processo judicial que contestou o sigilo do arquivo. Durante o processo, os serviços de inteligência decidiram torná-lo público, sob condições que ainda não foram especificadas.
“A história sempre carrega uma dimensão política, e a relação entre a Suíça e a Segunda Guerra Mundial não é exceção”, afirma Wettstein. A chamada Comissão Bergier, criada pelo governo suíço sob pressão internacional para recuperar ativos mantidos em contas bancárias por judeus assassinados no Holocausto, analisou, entre 1996 e 2002, essa denúncia contra instituições financeiras, a política suíça em relação aos refugiados do nazismo — para os quais a fronteira foi fechada em 1942 — e as transações comerciais de subsidiárias na Alemanha e a venda de armas, entre outros aspectos que lançaram uma sombra sobre a Suíça durante esse período.
A análise histórica está longe de se esgotar. Em seu novo livro, Bochsler traça a intrincada rede de colaboradores envolvidos na fuga de nazistas. Na Suíça, eles operavam por meio de uma espécie de escritório de emigração em Berna, que colaborava com a Embaixada da Argentina. A embaixada concedia vistos e fornecia fundos para contrabandear especialistas em armas para fora do país, incluindo ex-nazistas, explica ele. Isso não teria sido possível sem a ajuda dos suíços, enfatiza. “Havia aqueles que ajudavam em troca de dinheiro, e havia funcionários que, no momento crucial, fecharam os olhos, minimizaram o assunto ou simplesmente não demonstraram interesse”, afirma.
“A Suíça desempenhou uma espécie de papel duplo. Por um lado, era um país de trânsito para refugiados; e, por outro, abrigava um centro organizacional” para essa rede. A Argentina de Juan Domingo Perón buscava especialistas para criar sua própria indústria bélica, e “pessoas eram recrutadas e contrabandeadas para fora do país pelo chamado escritório de emigração”.
Bochsler estima que várias centenas de alemães, incluindo mulheres e crianças, emigraram para a Argentina via Suíça, e que entre eles havia alguns criminosos de guerra e cerca de três dezenas de ex-membros da SS, SA ou do Partido Nazista, embora ele acredite que muitos casos não foram denunciados. No entanto, no caso de Mengele, não está claro se o escritório de Berna interveio.
A Suíça, diante dessas negociações, “fez vista grossa”. “Eles queriam se livrar dos refugiados, que eram um fardo para os cofres do Estado. Esse foi um dos motivos pelos quais os traficantes de pessoas argentinos foram tratados com tanta leniência, já que se esperava que a Argentina acolhesse o máximo possível deles”, explica Bochsler.

O referido escritório “também coordenava os colaboradores que transportavam pessoas da Alemanha para a Itália via Áustria”. Advogados e traficantes de pessoas colaboravam nas transferências pela Suíça, contrabandeando pessoas através da fronteira e fornecendo-lhes alojamento e documentos de identidade para continuarem a sua viagem. O colaborador mais importante foi, sem dúvida, um tenente-coronel suíço. Graças a um suposto acordo de cavalheiros com os argentinos, ele conseguiu interrogar especialistas em armamento que passavam pelo país e, assim, obter conhecimento técnico para o exército suíço. Membros do partido nazista e suas famílias partiram de Genebra e Roma de avião, ou de Gênova de barco. Mengele também escapou de lá.

SARA VELERT ” EL PAIS” ( ESPANHA) / ” LA NACION” ( ARGENTINA )