NOTAS SOBRE O MEMORANDO DE ENTENDIMENO EUA / IRÃ

O Memorando entre Washington e Teerã traduz, na linguagem diplomática, o esgotamento do projeto de dominação americano-israelense na Ásia Ocidental

A century ago, the French found an expression for the /  mood of the era, and the words ‘fin de siècle’, untranslated, / caught the imagination elsewere. (…) The second time round – / in the late 1980s – we hear little of promise, but instead a / lugubrious enumeration of approaching crises, of insoluble / difficulties looming ahead” (H. Stuart Hughes, Sophisticated Rebels).

1.

Começarei pelo círculo maior: o pano de fundo constituído pelo capitalismo planetário em sua dinâmica atual. Gigantesco círculo, esse, que nos engloba ao perpassar as dimensões todas da vida social. Círculo pontuado desde ao menos a última década do século passado pela estratégia de Pequim em direção à hegemonia que historicamente foi exercida sucessivamente por Gênova, Amsterdam e Londres, e que a partir da Segunda Guerra migrou para o outro lado do Atlântico Norte. Hegemonia cada vez mais precariamente exercida, cada vez mais operacionalizada pelo recurso à violência. Washington ameaçada de passar à segunda colocação, dada a espetacular ascensão de Pequim, reage irracionalmente, tende a animalidade.

Em seguida chegarei ao círculo menor, conformado geográfica e geopoliticamente pela Ásia Ocidental, espaço que em geral denominamos Oriente Médio, designação que carrega consigo, no plano semântico e em outros, muito de colonialismo, imperialismo e orientalismo. Muitos ismos, todos negativos, numa só denominação aparentemente neutra.

Por fim chegarei ao memorando de entendimento firmado em 17 deste mês pelos Estados Unidos e a República Islâmica do Irã. A título de complemento, e concluindo esse rol de imprecisas notas minhas, carregadas de subjetividade, sublinharei o que me parece mais relevante no texto da declaração conjunta circulada em 22 de junho pelos dois países mediadores, concluída na Suíça a reunião entre Estados Unidos e Irã mediada pelos islâmicos Catar e Paquistão.

Seguirei esse caminho tortuoso porque, no meu entendimento, se circunscrevermos nosso olhar apenas à Ásia Ocidental, deixando de lado o plano macro da geopolítica mundial, arriscamos esmiuçar a parte sem levar em conta o todo. Então, para contrabalançar, Gestalt na veia.

Indo ao maior de todos os círculos, começo com fato básico: a ordem internacional criada sobretudo pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido ao término da Segunda Guerra Mundial está imersa em crise a meu ver de caráter irreversível. Trata-se de disfuncionalidade estrutural que permeia todo o conjunto de instituições encarregadas – no plano operacional jurídico-político e diplomático – de gerenciar o capitalismo mundial sem disso fazer alarde.

Idealmente, ao conjunto de instituições desenhadas mais ou menos 80 anos atrás caberia promover todas as convergências possíveis, políticas, econômicas e de cooperação, entre os estados representados na Assembleia Geral. Com isso, a ONU fortaleceria laços e minimizaria disputas, nesse atuar construindo, à maneira iluminista, algo assim como a kantiana paz perpétua a ser garantida, também idealmente, pelo Conselho de Segurança.

2.

Como parte desse esforço explicitamente virtuoso, o esquema desenhado em Bretton Woods, Ialta, Potsdam e São Francisco, ademais de estimular o diálogo respeitoso entre estados juridicamente soberanos, ou seja, estados teoricamente iguais, deveria também atender aos grandes interesses materiais de todo tipo, na verdade dominantes no mundo do capital desde a passagem de sua etapa concorrencial do século 19 ao estágio monopolista afirmado no século passado.

Esses interesses estão hoje obviamente encarnados nas grandes corporações e nos seus gerentes que faz tempo se converteram em atores políticos decisivos. Longe estão – corporações e gerentes – de ser apenas economicamente determinantes, seu agir reduzido a sua esfera própria, como queria um certo tipo de liberal-tecnocrática ‘divisão social do trabalho’ hoje caduca.

Não há – e nunca houve – como separar economia capitalista e poder estatal. Isso ficou ainda mais claro desde a ascensão do neoliberalismo como a principal âncora ideológica desses grandes atores do capitalismo tardio, embora se apresentem formalmente subordinados aos estados em que estão sediados. No limite e muito antes dele a importância decisiva das grandes corporações se mostra ao menos tão gravitante quanto a dos entes juridicamente soberanos que as ‘protegem’.

Basta pensar que a riqueza do primeiro trilionário na história do capitalismo só é superada – em termos de PIB – por 21 países. O teratológico empresário – num mundo permeado pela pobreza (mais de um bilhão de pessoas) e pela fome (quase 750 milhões) que têm muito a ver com seus trilhões – dispõe de recursos aproximadamente equivalentes ao atual PIB da Polônia.

Deixando esse absurdo singular de lado, vamos ao que importa no registro estrutural: o extravasar do econômico para o político e vice-versa, processo incessante a envolver refinadas estratégias de acumulação do capital elaboradas pelas grandes corporações, por seus gerentes e por seus intelectuais orgânicos. Essa mescla de papéis – que hoje define os principais atores pertencentes ao ‘establishment’ da sociedade civil global e ao mundo econômico em sentido estrito – a um só tempo impulsa e transforma as mais altas redes de relacionamento econômico-produtivo, comercial, financeiro e científico-tecnológico.

Nesse esquema também faz sentir seu peso a esfera constituída pelo complexo midiático e cultural, difusor e elaborador, no mercado oligopolista das ilusões cotidianas, de consensos manufaturados cuja função última – ou primeira – é legitimar os interesses da ‘elite da elite’, ou seja, dos grandes predadores a que se referia Fernand Braudel. Sua missão cotidiana é por igual planetária, e sua função maior, sob o véu e a máscara do bem informar a sociedade do espetáculo, é forjar e administrar consensos pelo alto, favorecedores dos interesses das elites e servos aliados. Isso, nas sociedades nacionais todas, tanto as centrais quanto as periféricas e as ‘intermediárias’.

O desenho acima, embora simplista, precário e incompleto, quem sabe sirva para um pouco esclarecer porque a crise da ordem internacional é tão abrangente e, tudo parece indicar, praticamente irreversível.

3.

Mas a própria crise longa gerou algo assim como seu outro lado. Em confrontação sutil – às vezes nem tão sutil assim –, o ‘hegemon’ que representa o capitalismo do Atlântico Norte planetariamente difundido se vê às voltas com a dinâmica imposta por algo de todo novo em termos de desenvolvimento capitalista: a espetacular ascensão da China. Esse fenômeno é a sinalização irrefutável de que vivemos, desde cerca de 30 anos atrás, o quinto tempo de transição de hegemonia a que se referem os historiadores da longa duração.

Se adotamos essa perspectiva, torna-se lícito afirmar que estamos imersos num ciclo velho de três décadas, mas que paradoxalmente apenas inicia sua etapa decisiva. Os Estados Unidos, num beco sem saída. A China, preparando pacientemente sua chegada ao topo, juntando as peças no grande tabuleiro e jogando de forma de fato magistral o jogo que promete transformá-la em potência hegemônica.

Os Estados Unidos vivem tempos interessantes, sim, mas só na acepção chinesa da expressão. Na realidade, tempos terrivelmente problemáticos. Nós, do Sul Global, tendemos a considerar esperançosos esses tempos caracterizados por sinalizações dialeticamente opostas. De fato, o que vivemos é um drama histórico, o da passagem do quarto para o quinto ciclo de hegemonia e de acumulação cíclica de capital, tal como registra a história do capitalismo iniciada no século XIII. Isso, claro, se seguimos os historiadores da ‘longue durée’ nesse drama que arrisca se tornar tragédia.

Nele, Estados Unidos e China jogam seus respectivos destinos, se quisermos usar linguagem um tanto romântica.

Nesse palco que é o mundo, os Estados Unidos comparecem como grande potência em plena crise interna e externa, como ‘hegemon’ decadente. Na dimensão interna, crise de coesão social e de muito mais, anomia crescendo há mais de meio século. No plano externo, decadência ideológica, política, econômica e talvez militar, o que traz todo tipo de consequências sistêmicas. Quando essas duas dimensões são articuladas numa perspectiva totalizante, manifesta-se no plano das ideias e na realidade efetiva a crise completa, a policrise, o hegeliano cinza que se põe sobre o cinza. Crise apenas sinalizadora? Crise terminal?

Na outra ponta, a China resplandecente. A China como ‘quase-hegemon’. A China a caminho, como a menina do contista.

Em sua ‘quadra atual’ que já vai para quatro décadas, a cada ano a República Popular confirma: sua rota a leva ao ápice. Itinerário esse que não é linear, mas sim contraditório. Itinerário que pode ser coerentemente interpretado como bem-sucedido exemplo do que desde o começo do século passado chamamos desenvolvimento desigual e combinado. Desenvolvimento que, visto pelo ângulo do Sul Global, é valorizado pela maioria da esquerda como atraente modelo a ser adaptado, ou até mesmo sacralizado como estrela-guia que nos conduz à nova Belém chamada Pequim.

Modelo ou estrela-guia, apesar de a China reiteradamente não se pôr como modelo nem como estrela-guia. A República Popular também cuida de não se apresentar como escultor desejoso de modelar o mundo à sua imagem e semelhança. Pequim não se cansa de dizer: não é isso nem quer ser isso, não tem essa ambição. Deixa essas tarefas historicamente desastrosas para os que seguem a tradição ideológica do liberalismo intervencionista ocidental ou de sua outra face, o ‘revolucionarismo reacionário’ MAGA hoje imperante em Washington.

4.

Para mim, e sei que sou minoritário, a China é – no modo absoluto – inaugural formação socioeconômica capitalista. Formação que por si mesma gerou via nova – vida nova? – para o modo de produção que, centrado no Atlântico Norte, assume a um só tempo feições tecnologicamente sofisticadas e discursos e práticas escandalosamente bárbaras. China, capitalismo em outra chave. Essa, a imensa novidade que há décadas emana de Pequim.

Capitalismo novo, pujante, socialmente inovador e tanto mais. Capitalismo que nem nome preciso ostenta. Daí seja capitalismo que se autonomeia socialismo com as cores da China. Socialismo capitalista, contradição em termos que nossa ‘tradição ocidental’ há muito naturalizou na variante chamada social democracia. Mas no caso chinês a coisa é outra. Trata-se de experimento de longo fôlego que já produziu, no esplendor de uma ‘belle époque’ que é só sua e que tende a permanecer, o segundo maior número de bilionários do planeta. Quando chegará a China, nesse registro estonteante, ao primeiro lugar, também nisso desbancando os Estados Unidos?

Capitalismo socialmente responsável, capitalismo protegido por uma articulação sui generis entre partido, Forças armadas, burocracia e empresariado estatal, empresas de todo tipo, nacionais e transnacionais, academia engajada, etc. e tal, nesse etc. devendo se encaixar o recuperado confucionismo. Confucionismo marxista?

Capitalismo capaz de efetivamente planejar a longo prazo, num estilo distante do previsto por Galbraith. De certa forma, e sei que escandalizarei um pouco, a China emerge como utopia capitalista não teorizada, utopia que pode ser lida como histórica, concreta, armada. Utopia que chegou, que não ficou no ‘ainda-não’ de Ernst Bloch. A história, paradoxal como sempre.

Passo do círculo maior ao menor, passo da disputa pela hegemonia que marca o panorama geopolítico mundial ao particular mundo médio-oriental, asiático ocidental, que parece estar vivendo seu tempo próprio de passagem para outro tipo de hegemonia regional.

Se quisermos fazer um corte arbitrário, poderemos dizer que o mundo cujo nascimento Dean Acheson assistiu também se revelou – deixado de lado o idealismo interesseiro por igual present at the Creation – este mundo criminosamente marcado por guerras imperiais, imperialistas. Mundo por outro lado desafiado pela contracorrente das rebeliões todas, as dos amaldiçoados da terra, as dos que se opõem com todos os precários recursos de que dispõem a esse cada vez mais insuportável estado de coisas.

Mas quando chegamos ao contexto médio-oriental vale anotar: as principais potências colonialistas e imperiais anteriores – Reino Unido e França, principalmente – se exauriram junto com suas formas particulares de dominação.

5.

Um ponto de inflexão nessa história asiático-ocidental: a Guerra do Canal de Suez (1956), quando os Estados Unidos e a União Soviética, cada um deles levado por motivos próprios, fizeram Reino Unido, França e Israel retroceder. No essencial, essa volta atrás dos agressores dizia que o protagonismo francês e britânico se estiolava, o que foi confirmado onze anos mais tarde com a Guerra dos Seis Dias. Retrospectivamente, essa guerra relâmpago no essencial sublinha o advento de um novo projeto de dominação do Oriente Médio. Saem França e Reino Unido; chegam Estados Unidos e Israel.

Desde então, esse mundo parecia fadado a estendida dominação americano-israelense. Mas sob as asas de Washington e Tel Aviv, nos tempos de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu ele também dá sinais de esgotamento. Uma exaustão derivada da húbris compartilhada pelos dois países, ambição desmedida que faz com que Israel opere militarmente em seis ou sete frentes e continue – em ritmo reduzido – com o genocídio em Gaza. Para compensar essa ‘moderação’ forçada, aumentou ao máximo as agressões contra o povo palestino na Margem Ocidental e em Jerusalém oriental.

Essa mesma ambição irrefletida levou os Estados Unidos à aventura – por enquanto em dois capítulos – da guerra contra o Irã e ao fracasso da tentativa. Mas também esse desmedido impulso caminha para a falência em boa parte porque é enfrentado pela resistência impossível de extinguir, pelo monumental esforço (‘sumud’) que num amplo leque abrange o Irã e movimentos que se expressam política e militarmente no Líbano, na Palestina, no Iêmen. E que sobrevivem, mais ou menos precariamente, na Síria e no Iraque.

A guerra de agressão imposta pelos Estados Unidos e Israel ao Irã, até aqui em dois episódios, quem sabe se, a partir da assinatura, dia 14 passado, do Memorando de Entendimento, caminhará para alguma forma de superação que hoje se esconde além da linha do horizonte. O que em meio a tantas incertezas parece claro: o final da ‘excursão ao Irã’ condena Washington a grande derrota. Para Tel Aviv, a situação é bem pior: a derrota tem quase tudo para se revelar catastrófica.

Vejamos mais de perto. Em junho de 2025, a guerra dos 12 dias não deu os resultados esperados por Washington e Tel Aviv. Muito pelo contrário. Mas nem um nem outro dos agressores aprendeu o que era lição clara. Usando o mesmo método – iniciar a guerra quando as negociações para sua superação pareciam caminhar bem -, os Estados Unidos e Israel dobraram ou mais do que dobraram sua aposta; e ao assim procederem dobraram ou mais do que dobraram o tamanho do primeiro fracasso.

Nenhum dos objetivos americano-israelenses foi alcançado nos dois episódios. O Irã sobreviveu a todas as investidas, e esse mero sobreviver já seria grande vitória. Mas a reação iraniana foi de tal ordem e gerou consequências tais, inclusive para o funcionamento da economia capitalista planetária, que afinal, passados mais de 100 dias, os Estados Unidos foram forçados pela realidade a uma negociação com a República Islâmica.

Nessa moldura, o Memorando de Entendimento é o texto que traduz em linguagem jurídico-política e diplomática uma derrota que, apesar de evidente, não pode ser objeto de fala imperial ou sionista. O principal derrotado está obrigado, por ser grande potência decadente, e por ser república imperial em crise completa, a tentar convencer a opinião pública mundial, essa entidade quase metafísica, e a opinião pública interna, nada metafísica, de que derrota é vitória. Orwell na veia.

6

Benjamin Netanyahu, em pior situação ainda, pode deixar o poder e caminhar para a prisão a partir de conhecidos os resultados das eleições de outubro vindouro. Mas isso em nada mudará a posição dos sionistas israelenses. Israel é uma quantidade fixa, não uma incógnita. Isso deriva da cristalização do tipo de estado e sociedade aparteísta e expansionista construído desde a primeira Nakba. Israel será Israel até que a correlação de forças mude não no interior do país, mas nas sociedades americana, canadense, europeia. Seu tempo de exaustão completa ainda está a uma geração de distância. Quando chegue, quem sabe Israel comece a ser diferente, sociedade e estado diferentes. E convivendo com um estado palestino. Por agora, nem pensar nisso.

A mera leitura do Memorando nos diz que: o texto é bem parecido com a proposta original iraniana, também ela em 14 pontos, texto liminarmente rechaçado por Washington. As partes se comprometem a encerrar as operações militares, inclusive no Líbano; os EUA estão obrigados (juridicamente, não no mundo real) a respeitar a integridade territorial do Irã e a soberania libanesa; e deverão ‘afastar suas forças’. Para onde, não se sabe.

No primeiro parágrafo o Líbano é citado três vezes. Em cada caso, isso gera problemas para os EUA e para Israel.

O bloqueio naval americano em Ormuz é suspenso; o tráfego pelo estreito será restabelecido pelo Irã, não em conjunto pelos dois países. Por 60 dias o Irã não cobrará coisa alguma dos navios que passem. Enquanto isso, Irã e Omã dialogarão entre si e conversarão com os demais países do Golfo sobre a futura administração do estreito, e sobre os serviços marítimos que serão prestados aos usuários, o que pode vir a ser a portagem iraniana sob outro nome.

Os Estados Unidos e seus parceiros no Golfo elaborarão plano para reconstrução e desenvolvimento do Irã: 300 bilhões de dólares como piso? Ademais, Washington se compromete a pôr fim a todas as sanções contra o Irã, primárias e secundárias.

Enquanto não se chegar ao Acordo final – a ser negociado no prazo de 60 dias potencialmente extensíveis – os Estados Unidos e o Irã manterão o status quo: congelamento do programa nuclear iraniano, congelamento das sanções por parte dos EUA, congelamento das forças americanas na região, ou seja, não mobilização de forças adicionais. Mas o Departamento do Tesouro emitirá isenções que permitirão exportações iranianas de petróleo bruto, produtos petroquímicos e derivados via Ormuz.

Por sua vez, o Irã reafirma que não adquirirá nem desenvolverá armas nucleares. Ou seja, a política tradicional do primeiro Khamenei é mantida, a despeito dos intensos debates internos em Teerã. No referente à ‘questão nuclear’, o Irã e os Estados Unidos elaborarão um mecanismo a ser acordado mutuamente com vistas a definir o destino do urânio iraniano altamente enriquecido. Desse esforço participará a AIEA.

O Memorando ainda trata de outros temas, mas os mencionados acima são a meu ver os principais. Se tudo caminhar bem, o Acordo final será ratificado por meio de uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU.

Dia 22, terminada a reunião na Suíça, os mediadores emitiram Declaração Conjunta. Dentre os pontos destacáveis, muito além da semiologia da linguagem diplomática clássica (a atmosfera foi positiva e construtiva; progressos encorajadores ocorreram, etc.), devemos anotar: a criação de um mecanismo de apoio às conversações técnicas que já estão em curso; e o estabelecimento de comitê de alto nível para acompanhamento da mediação.

Por fim, a Declaração inclui cláusula de difícil entendimento: a concordância dos Estados Unidos e do Irã com a criação de uma ‘célula para evitar conflitos’. Essa célula será integrada por Estados Unidos, Irã e o governo do Líbano. Israel não é mencionado. Mas no essencial a célula tem como cometido o cumprimento do disposto no Memorando quanto ao término das operações militares no Líbano. Essa cláusula enevoada abre margem para muito dissenso no seio da própria célula, fator potencialmente disruptivo. Mas sobretudo aponta para riscos ainda maiores de deterioração das relações entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, entre os Estados Unidos e Israel.

Com esperança sem otimismo, creio que, embora celebrando o que foi alcançado, só nos resta aguardar por no mínimo dois meses mais. O que foi inscrito no Memorando cobrará vida?

Pessoalmente, confesso, meu ceticismo é demasiado forte, o que não me permite redigir uma conclusão forte para este texto.

TADEU VALADARES ” BLOG A TERRA É REDONDA” ( BRASIL)

*Tadeu Valadares é embaixador aposentado.

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