EUROPA DO SACRO IMPÉRIO GERMÂNICO

A extraordinária expansão e, sequencialmente, o esplendor do Império Português, durante a Idade Moderna (1453 – 1789), inspirava-se, nitidamente, em grandes civilizações do passado. Inicialmente, em Roma, marcada, primeiramente, pela República (509 a.C. – 27 a. C.), e, posteriormente, pelo Império, que se estendeu do ano 27 de nossa Era comum a 476 – quando começa a Idade Média, findada em 1453, com a queda da greco-romana cristã Constantinopla em poder do sultanato mongol-otomano islâmico.

Assim como os romanos, a Coroa de Lisboa também foi fortemente influenciada pelo Império Persa (550 a.C. – 330 a.C.), fundado por Ciro, O Grande, onde hoje é o Irã – que significa, literalmente, Terra dos Arianos, porque a nação se considera o berço da raça ariana. O país dos atuais aiatolás maometanos xiitas adotou o novo nome em 1935 por decisão do Xá Reza Pahlevi I (1878 – 1944), título da dinastia dos soberanos persas.

Mas o Império Português, que recebeu da Igreja a árdua missão de evangelizar as populações ‘ainda pagãos’ nas Áfricas, Ásia e Américas, com o Tratado de Tordesilhas, assinado na cidade castelhana em 1494, foi, ao que tudo indica, profundamente moldado pelos valores cristãos do Sacro Império Romano Germânico, estabelecido, oficialmente, no ano 962. Seu criador foi o alemão Oto I (912 – 973), cognominado, como o persa Ciro, O Grande. Concebido a partir do ideal do franco-germano Carlos Magno (742 – 814), Oto I agrupou toda a Mitteleuropa, quer dizer a Europa Central, incluindo partes do território da França e da Suíça, bem como a antiga Prússia, em torno da defesa da fé Cristã contra a avassaladora invasão dos exércitos do Islã.

O Primeiro Império dos alemães, o Erstes Reich, durou quase mil anos, tendo sido dissolvido em 1806, com a debacle da Europa Central durante as guerras bonapartistas. Foi determinante, porém, para conter o avanço muçulmano, conduzido por Istambul, sobre os países banhados pelo Rio Danúbio. A “Sublime Porta” do Grão-Vizir otomano já controlava praticamente toda a Península dos Bálcãs. Não conseguiu, entretanto, submeter a preciosa austríaca Viena dos Habsburgo.

Sessenta e cinco anos mais tarde, em 1871, levanta-se o Segundo Império Alemão, grafado Zweites Reich, que sobreviveu até o fim da Grande Guerra, em 1918. Representou a unificação, pela primeira vez, dos povos germânicos num mesmo Estado e surgiu, ironicamente, depois da vitória da gloriosa Königsberg, capital da Prússia, justamente na Guerra Franco-Prussiana.

O Segundo Império teve somente três soberanos. O Kaiser Guilherme I (1797 – 1888) – acumulando também a função de Rei da Prússia -, e que, junto com o chanceler Otto von Bismarck (1815 – 1898), foi o arquiteto da unificação alemã. O sucessor foi Frederico III (1831 – 1888), seu filho, por apenas 99 dias, vindo, na sequência, Guilherme II (1859 – 1941), que abdicou, em decorrência da derrota no primeiro conflito mundial.  Seguiu-se, então, o período tristemente conhecido como República de Weimar. Com o ressurgimento da Alemanha, novamente poderosa, após a ascensão do Nationalsozialismus, ou seja, Nacional-Socialista, em 1933, o chanceler Adolf Hitler (1889 – 1945) tentou reconstituir o que seria o Terceiro Império, isto é, o Drittes Reich, contudo, o fracasso contra os aliados, evitou a concretização do projeto.

Outro célebre alemão, este de origem judaica, Karl Marx (1818 – 1883), pai do chamado “socialismo científico”, a base teórica dos regimes comunistas, escreveu, na sua obra “O 18 Brumário de Luis Bonaparte”, em 1852, referindo-se ao Ancien Régime francês, que a História se repete, a primeira vez, como tragédia e, a segunda, como farsa. Parecia estar a prever o destino dos impérios de sua própria Alemanha natal.    

ALBINO CASTRO ” PORTUGAL EM FOCO” (BRASIL / PORTUGAL)

Albino Castro é jornalista e historiador


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